27 de dez de 2010

Ex bom é ex morto

“Dá a impressão que o ano começou só agora, no mês de abril. Definitivamente. Emprego novo, solteira à procura, último ano de faculdade. Eu preciso mudar minhas energias. Aliás, tem um relógio parado na minha gaveta, é hora de fazer ele voltar a funcionar. Não quero nada parado na minha vida.”

Juju nem tinha levantado da cama e o pensamento já estava a mil, fazendo planos e tranquila, tinha certeza que as coisas começariam a dar certo.

“Merdê, a coleção de revistas dos anos 80 do Enetermos ainda está comigo e eu tenho que devolver. De hoje não passa. Trabalhar no sábado de manhã tem suas vantagens, vou passar na casa dele e deixar com a sogra. Opa, ex-sogra, preciso me acostumar com isso. Pronto, ninguém mandou ele ser dorminhoco... adorava dormir com ele... tá, passou. Não passa. Respirando fundo... passou.”

(Na casa da sog...ex-sogra):

- Oi, Juju

- Oi sogrija... opa, agora é ex.

- Ah! Tudo bem, você sempre será minha nora preferida, mesmo nem sendo mais minha nora.

- Pois é, dona Masoca, mas só passei pra deixar estas revistas do Enetermos caso ele precise. São dele mesmo. Mas já vou indo, tenho que ir trabalhar.

- Não sem antes tomar o meu café, eu sei que tu adora.

- Golpe baixo. Não resisto. Mas não posso me atrasar.

- Serei rápida, a água já está quente. Aproveitaremos o tempo pra pôr as fofocas em dia. Hoje é aniversário do meu irmão, não ta a fim de comemorar com a gente?

- Ah não, obrigada. Não é conveniente. Adoro a família de vocês, mas não é certo eu estar aqui nessa situação.

- Bom, é você que sabe, mas está convidada.

(após o café, já no trabalho)

“Xiriguidum. Esqueci meu celular na casa do Enetermos. Saquê! Droguê, ainda não me livrei do francês. Mas enfim, porque eu sou tão tonta? Vou ter que passar lá depois, e se aquela coisa osca já estiver acordada? Aieeê, eu não quero ver ele. Triste”

- Julieta.

- Oi, Dr. Tusnildo.

“Até meu chefe está na saga dos nomes esquisitos da minha vida”.

- Precisamos conversar. Vou precisar de você hoje a tarde, tempos três pacientes que precisam de sessões extras de fisioterapia. Depois acertamos isso, quem sabe um dia de folga na semana que vem, tudo certo pra você?

“Ótimo, sábado todo trabalhando”.

- Tudo certo sim, só vou ligar pra casa pra avisar. E outra, vou precisar usar o telefone da clínica.

- Tudo bem, conto com você então.

(final de expediente)

“É, respirando fundo porque possivelmente vou encontrar o Enetermos em casa. Lixê! Nunca alcanço essa campainha. Pulando, ui, alcancei. Como tá cheio de carros aqui na frente. Ah não, o jantar do tio que não é mais meu tio Esmerildo. Vou sair, amanhã pego esse maldito celular, ou compro outro. Abriram a porta, ai, me viram”

- Oi, Juju, fugindo de alguém.

- Da polícia, não quero que eles me encontrem, vim pedir refúgio.

- Sempre com seu bom-humor.

“E tu sempre com esse sorriso lindo, que vontade de me atirar nos teus braços”...

- É, minha mãe não concorda com isso.

- Combinemos que tua mãe não deve ser muito considerada pra opiniões, não é?

- Sim, mas enfim, só vim buscar meu celular que esqueci hoje de manhã.

- Ah sim, entre, a mãe até comentou comigo.

- Legal participar da festa de família de uma família que não é mais minha família.

- Acontece Julieta. Acontece. Mas tu esqueceu esse celular de propósito, né?

- Agora eu lembro bem porque a gente terminou, pelos tantos momentos que tu me faz te odiar. Não, não esqueci de propósito e nem tava a fim de ver tua cara.

- Opa, ta braba?

- Sim, qual é a pessoa que quando finalmente resolve dar um basta com qualquer lembrança que tenha do ex, consegue esquecer o celular na casa dele?

- Você, ora.

- Sim, eu, por isso que eu tenho plena convicção que pra eu viver, só me matando mesmo.

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