27 de mai de 2010

A mãe solteira

Meu querido diário!

Passei a noite velando o sono do meu filho. Agora entendi a letra da música do Legião Urbana que diz “gosto de ver você dormir que nem criança, com a boca aberta”. É assim que meu filho dorme, com a boca aberta. Passei a noite velando seu sono e pensando no nosso futuro. Aliás, no futuro dele, porque é disso que depende o meu futuro.
Quando me descobri grávida, não soube o que fazer. Você bem sabe diário, tantas páginas escrevi sobre isso. Pensei em tirar, em darpara adoção, em implorar que o pai dele ficasse comigo, em pedir que
meus pais cuidassem dele... até que resolvi peitar minha vida e ficar com meu filho. Acho que acertei.
Aquele desgraçado do meu ex não me ajuda com nada. Ontem mesmo precisei comprar paracetamol, a vacina inflamou de novo, e eu tive que pedir dinheiro emprestado pra minha vizinha. Morri de vergonha, mas ele tava com tanta dor, pobrezinho... Acabou que o remédio fez ele dormir bem, mas eu perdi o sono. Ainda bem que tenho bastante leite, sei que não teria condições de pagar R$20,00 numa lata de Nan que dura 3 dias. Já não basta pagar R$10 num pacote de fraldas que dura dois dias!
Não quero pensar em como vai ser quando acabar minha licença, ou quando chegar a idade escolar. Minha vida tá muito difícil, já era complicado quando eu não sustentava ninguém. O que será que ele vai
pensar de uma mãe que não pode dar nada do que ele quer ou precisa? Que anda mal arrumada, com a raiz dos cabelos ficando branca e sem grana pra uma tinta, por mais barata que seja? Será que o carinho que dedico a ele será suficiente?
Será que o amor que tenho por ele, a dedicação, as noites em claro e a dor indescritível que sinto nas costas depois de amamentar, será que isso tudo vai fazer diferença? Ou será que o desgraçado do pai dele vai simplesmente chegar aqui com o carro do ano e vai levar meu filho? Sei lá, eu me deixei enganar por ele tantas vezes...
Sei que nunca pude imaginar que seria tão simples me deixar em segundo plano. O que importa é meu filho, sua saúde e bem estar. Não importa a má vontade dos meus pais, não importa o que meus avós e tios tem falado de mim, não importa que o desgraçado do meu ex ache que o filho não é dele. Aliás, não é mesmo.

É só meu.

19 de mai de 2010

O ÚLTIMO SUSPIRO

“Nada mais depressivo que o inverno”, pensava ela enquanto olhava pela janela, o lago que há alguns meses estava envolto de gente cantando, gritando e rindo. Não era um inverno qualquer, foi o primeiro inverno em que ela sentiu a solidão bater diretamente em seus ossos, sentia-se fraca, a dor atravessava o peito. Dor não feita pela doença, mas a dor marcada pela ausência de sua própria vida, sentia que era tarde demais para tentar qualquer recomeço.

A única companhia que tinha era seus pensamentos. Só guardava memórias de sua infância e adolescência na casa da tia Thereza, uma senhora rica, bonita, viúva e tímida. “Thereza é realmente nome de tia, nunca consegui imaginar uma criança com esse nome”. Pensamento que a fazia acreditar que sua tia realmente não tivera infância, pois, nunca soube absolutamente nada do passado da tia Thereza em tantos anos de convivência.

“Será que foi minha tia que deu meu nome? Miguelina não parece ser coisa de gente de bom coração. É nome de santo católico frustrado. Meus pais não deveriam me odiar tanto quando eu nasci.”

Mas estava cansada demais para lembrar-se de qualquer coisa. Deitou-se na cama e pela janela olhava as árvores tão vazias de vida quanto ela. Ainda enxergava os pássaros e também os ouvia cantar alegremente como se a vida deles dependessem daquele tão maravilhoso canto que ela nunca tinha percebido o quão bonito era. Mesmo sabendo que a primavera voltaria colorir a paisagem, sabia que não chegaria a vê-la.

“Eu já enfrentei a perda, a solidão, a rejeição, o desamor, várias vezes, mas é a primeira vez que fico cara-a-cara com a minha própria morte. Engraçado eu não estar assustada, pensei que teria outra reação quando estivesse nessa situação. Nunca imaginei que desfalecer seria um alívio. Minha mente diabólica ainda consegue pensar que tem gente que não merece morrer, deve ficar perpetuamente uivando por aí.”

E o pensamento, ou o péssimo pensamento foi se esvaindo, ao poucos também o ar já não enchia os pulmões. Imaginou-se além de um infinito qualquer, sentiu leveza, sorriu e assim sua vida se desfez.

17 de mai de 2010

Na linha do tempo

“Minha filha pensa que me passa pra trás. Só naquela cabeça oca mesmo pra pensar uma coisa dessas. Tudo bem que com a idade dela eu já era mãe, dela, óbvio, mas eram outros tempos. Antigamente ter filhos com 15 anos era normal. Tá, nem tão antigamente assim, não sou tão velha, mas era normal.”

“O espelho mostra que estou em forma. Credo! Que corpo que tô, praticamente igual ao da minha filha, não falo nada pra ela não se sentir ofendida, mas que estou com tudo em cima, isso tô.”

“Nem pensar que ela vai arrumar um namorado, minha garotinha é uma criança, não deve nem saber beijar na boca direito. Eu, com a idade dela era muito mais madura, visivelmente, estava no segundo namorado, nunca deixei eles me fazerem de boba.”

“O pai dela foi o grande amor da minha vida, eu sabia disso já naquela época. Um homem muito culto e honesto, nunca precisou de escola e, quando soube da minha gravidez comprou uma moto e foi viajar a procura de um emprego que desse melhores condições a nossa filha. Humilde que só ele, levou apenas uma mochila nas costas. Lamento tanto o destino que teve. Ser seduzido por uma mulher da vida e ser obrigado a casar com ela não deve fazê-lo feliz. Como casar sem amor? Nem imagino como o coitado se sente.”

“É fogo, viu? Não é fácil trabalhar 20 horas por semana, cuidar da minha filha, da casa, ir fazer compras, atender as amigas e tudo estando de ressaca... mas vale à pena. Essas festas em plena quarta-feira é o que há de bom. Só vai gente de nível, trabalhadores mesmo, de terno e gravata. Celular de última geração e ficam falando difícil pra tentar impressionar, certo que é.

“Tolinhos!”

“Eu sei muito bem que eles estão querendo me namorar e disfarçam. Tentam disfarçar, melhor dizendo, mas eu vejo os olhares e faço até leitura labial. Sei que eles falam das minhas coxas à mostra pela minha ‘micro-minissaia’ laranjada. Adoro ela. Combina com minha blusinha azul que salienta as curvas do meu corpo.”

“Me respeito! Não vou namorar quem só me acha bonita, eu tenho minha inteligência e ninguém parece notar porque a visão do meu corpo toma conta, preferem que eu fique calada. Injusto! Essa sociedade só dá valor à imagem”.

“Ainda bem que a mamãe resolveu ficar com minha filha por uns tempos. Ela me cuidou muito bem, vai saber lidar com a minha filha que agora eu mesma me cuido, e muito bem, por sinal”.

10 de mai de 2010

Tapada de Nojo - I

Ainda tô de cara com esse papo de excomunhão.

Quem esse Papa pensa que é pra expulsar as pessoas de suas casas? Aí precisa vir o outro Papa pra dizer que as pessoas podem voltar. Sacanagem, alguém aí mais alto na hierarquia eclesiástica (adoro termos difíceis) poderia dar o veredicto (adoro!): fica ou não fica. Coitada da mãe da menina, não sabe se pode ou não voltar pra casa.

Palavra esquisita, “excomungar”. Por que não usam expulsar logo? Excomungar me faz pensar em camundongos, e Igrejas normalmente são lugares velhos cheio de velhos lá dentro, isso expulsa as pessoas de lá!

Vai ver é por isso que tem esse nome. Mas também não precisava fazer a pessoa procurar outra casa, podia só ficar um tempo sem ir na missa, tipo cartão vermelho no futebol: fica um tempo fora do jogo, mas quando o técnico chama ele já pode voltar.

Aliás, até queriam colocar cartão laranja no futebol, mas já se confundem com o azul e o vermelho, imagina com mais um?

Bom, já desabafei, semana que vem eu volto com mais uma CRÔNICA DA TAPADA DE NOJO, porque o dia-a-dia anda nojento!

Pai - 1

Oi pai!

Sempre me surpreendendo, né meu velho...

Quando eu ia imaginar que você, aos 63 anos, ia aceitar tão bem o divórcio? A idéia de visitar o tio, aí no Mato Grosso, foi genial. Mais genial foi conquistar a vizinha de 30 anos, hein tigrão? Agora me surpreende mandando torpedo pra dizer que tá com internet em casa. Depois te passo os links pros sites de sacanagem que você pediu, tem um de peitudas que é a sua cara!

Ô pai, lembra da Jane? Aquela minha primeira namorada que fugiu com o filho do prefeito pra casar e logo depois ficou grávida e eu quis me matar? Eu a encontrei no orkut, continua uma delícia. Por acaso encontrei a filha dela, Juliana. Sei não, mas ela – a Juliana – é muito parecida com a minha mãe. O formato dos olhos, o dente separadinho na frente, a sobrancelha bem arqueada. Olhei a data de nascimento dela e me assustei, ela nasceu em novembro, exatamente 9 meses depois do carnaval que eu passei com a Jane no camping. E ela fugiu com aquele cara na Páscoa, que pelo que sei é 40 dias depois do carnaval. Tá certo que eu tinha 16 anos e o babaca 21, cheio de dinheiro, coisa que eu sou agora e ele tá falido, a mana me falou. Na boa, tô meio assustado com a possibilidade de ter uma filha de 24 anos, muito bonita, ainda mais filha da Jane que foi meu primeiro amor. Não vem me chamar de viado, ela foi meu primeiro amor mesmo, viadagem é usar camisola rosa igual o jogador do teu time lá.

O que mais me preocupa é que eu poderia pegar a moça na balada sem saber! Ela é muito bonita, tem a idade das mulheres que eu pego normalmente, não sou um maníaco pra comer minha própria filha! Se bem que eu comeria se ela não fosse minha filha, é muito gata! Aliás, se ela for mesmo, você já é avô! Hahahahaha

No mais era isso, ainda não dá pra ir visitar o senhor. Felizmente tô cheio de projetos pra entregar lá na empreiteira, umas obras pra vistoriar, troquei de carro e ainda tô me acostumando a ter que trocar de marcha de novo. Nunca mais compro carro automático, tira todo o prazer de dirigir, bem que você me avisou.

Vê se faz um msn, fica mais fácil de conversar. A Samanta te chamou de pai desnaturado por não mandar torpedo pra ela também, mas a besta trocou de número de celular e nem eu sabia. (e esqueceu da portabilidade, a burra. Tinha que ser loira, mesmo contra a natureza morena.)

Abração pai, fica bem aí!

Alex

P.S.: a Juju, aquela gatinha que eu conheci no carnaval, não me quis, falou que sou muito velho pra ela hahahahah. Quase peguei a mãe, que é bem boa, mas vi na festa à fantasia vestida de Mulher Maravilha acompanhada de um velho, aí perdi o tesão.

7 de mai de 2010

Ao Sr. Mero Desconhecido

Olá Sr. Mero Desconhecido.
Muito provavelmente estás me julgando sem saber quem eu na verdade sou. Contigo eu sou quem eu nunca fui. Sou estrela de cinema e Hollywood não me deve explicações. Eu beijo o mocinho e o bandido sem qualquer pudor. E eu te conto promiscuidades, deito e rolo e você ainda se excita.
Tonto!
Não sabe e nem irá saber que guardo segredos que jamais compartilhei com alguém, e muito menos deve saber que eu escrevo sobre a tua vida.
Ah sim, eu escrevo, e ainda descrevo cada passo teu. Ridículo de minha parte, mas me diverte e me faz tremer em extase ver tua vida cuspida e escancarada.
Eu jamais fiz quaisquer das histórias que te contei. É, são estórias. Estórias não acontecem, tolinho. Tudo o que te digo não passam de devaneios da minha mente cheia de vontades.
Você ainda não sabe que me consideram uma pessoa criativa? Tão criativa que invento mentiras, e todas elas te impressionam. Eu ganho toda a tua vontade de ter a mim inteirinha, tenho a louca vontade dos teus olhos me olhando com um prazer insaciável, e eu quase me entrego, ops... volta por cima!
HAHAHA.
Eu só posso rir da tua bobeira. Minhas idéias diabólicas não passam de idéias de alguém que precisa enganar pra sobreviver. Idéias diabólicas nessa carinha de anjo que eu sei que você não consegue resistir, nem aos meus olhares e insinuações. Idiota!
Tenha todo seu desejo sobre meu corpo, tenha o teu sexo vontade de mim, mas não se engane, não te darei qualquer prazer que espera. Você não me conhece. Ah, Mero Desconhecido, você não faz idéia quem eu sou.
Nem em sonho imagina que o que quero é apenas a sensação dos teus desejos incontroláveis por mim. Só quero a sensação dos teus pensamentos já me comendo de vontade.
Desejos... desejos passam um dia.
O que eu tenho aqui, chama-se sentimento, e esse, Mero Desconhecido, esse tu nunca vai conhecer.

Só sei que sinto

Têm vezes que eu gostaria de não sentir. Eu sinto medo e sinto gosto de sangue na minha boca. Sinto cheiro de vela, sinto minha pele arrepiar, sinto meu olhar se perder e percebo a escuridão.

Minhas veias pulsam querendo rasgar meu corpo. Meus dentes se apertam, meus lábios se cerram, nos pulmões já não entra ar.

Segundos se passam.

Ao voltar os sentidos o pensamento de que tudo foi um pesadelo.

Eu acho…

O homem da minha vida

Conheci o homem da minha vida: analista de sistemas, 30 anos, mora sozinho, descompromissado, sem filhos, antecedentes de relacionamentos sérios e duradouros, boas influências profissionais, rico e bonito. Todas informações tirei dos nossos amigos em comum, exceto o ‘bonito’ que ficou por minha conta.

Reunião de negócios é um saco, fato! Quando aquele cara chegou eu simplesmente perdi o fôlego e automaticamente me diminuí dentro daquela sala. Aquele sorriso branco, perfeito, veio exatamente em minha direção me extasiando e derrubar o café na minha roupa foi quase inevitável.

Entre esse momento e o final da reunião eu me lembro de pouca coisa a não ser a corrida até minha casa pra trocar de roupa. Adoro morar no mesmo prédio do meu trabalho.

Voltando a ele. Ó Deus! Não esperava o convite para sair naquela noite, apesar de que eu quis desde o primeiro instante e não consegui esconder a ansiedade quando aceitei. Foi o ‘quero’ mais gritado da minha vida.

Ele é melhor do que eu imaginava. Tem um carisma de dar inveja. A classe média parecia estar estampada na minha testa a cada segundo do jantar e ele parecia se divertir com isso. Óbvio que ele percebeu que não tenho talento pra comportamento excepcional em restaurantes chiques e carérrimos, mas a simpatia dele me fez sentir à vontade naquele lugar cheio de gente que brilha. Ah sim, brilham mesmo, tanto na roupa quanto nas jóias e pasmem, até nos sapatos.

Não é o fato de eu estar mal vestida os outros é que realmente exageram. Homem sem terno ali só os garçons. Aliás, o homem da minha vida de terno é tudo de bom. Pensamentos depravados me fizeram imaginar ele sem o terno, mas isso só fez com que eu bebesse mais vinho do que meu organismo é acostumado. Nunca tinha reparado o quanto vinho deixa as pessoas sensuais. Azar, eu me senti uma diva.

A noite foi bem interessante mesmo, ri muito e nem sei bem dizer o porque, mas eu ri. Tudo foi tão perfeito, ele um gentleman a ponto de puxar a cadeira pra eu sentar, fato este que quase me fez cair no chão mas sempre acredito nas boas intenções das pessoas. Quando ele abriu a porta do carro tanto pra eu entrar quanto pra sair chegou a me arrepiar, até porque eu não tinha outra alternativa, esses carros modernos conseguem trancar a gente dentro deles. Coisa de louco!

Enfim, tantos detalhes e agora estou eu aqui, babando por esse homem que me fez ganhar o dia que pra mim já havia nascido morto e eu sou tonta o suficiente pra ter esquecido de perguntar o nome dele. Como será que ele se chama?