19 de mai de 2010

O ÚLTIMO SUSPIRO

“Nada mais depressivo que o inverno”, pensava ela enquanto olhava pela janela, o lago que há alguns meses estava envolto de gente cantando, gritando e rindo. Não era um inverno qualquer, foi o primeiro inverno em que ela sentiu a solidão bater diretamente em seus ossos, sentia-se fraca, a dor atravessava o peito. Dor não feita pela doença, mas a dor marcada pela ausência de sua própria vida, sentia que era tarde demais para tentar qualquer recomeço.

A única companhia que tinha era seus pensamentos. Só guardava memórias de sua infância e adolescência na casa da tia Thereza, uma senhora rica, bonita, viúva e tímida. “Thereza é realmente nome de tia, nunca consegui imaginar uma criança com esse nome”. Pensamento que a fazia acreditar que sua tia realmente não tivera infância, pois, nunca soube absolutamente nada do passado da tia Thereza em tantos anos de convivência.

“Será que foi minha tia que deu meu nome? Miguelina não parece ser coisa de gente de bom coração. É nome de santo católico frustrado. Meus pais não deveriam me odiar tanto quando eu nasci.”

Mas estava cansada demais para lembrar-se de qualquer coisa. Deitou-se na cama e pela janela olhava as árvores tão vazias de vida quanto ela. Ainda enxergava os pássaros e também os ouvia cantar alegremente como se a vida deles dependessem daquele tão maravilhoso canto que ela nunca tinha percebido o quão bonito era. Mesmo sabendo que a primavera voltaria colorir a paisagem, sabia que não chegaria a vê-la.

“Eu já enfrentei a perda, a solidão, a rejeição, o desamor, várias vezes, mas é a primeira vez que fico cara-a-cara com a minha própria morte. Engraçado eu não estar assustada, pensei que teria outra reação quando estivesse nessa situação. Nunca imaginei que desfalecer seria um alívio. Minha mente diabólica ainda consegue pensar que tem gente que não merece morrer, deve ficar perpetuamente uivando por aí.”

E o pensamento, ou o péssimo pensamento foi se esvaindo, ao poucos também o ar já não enchia os pulmões. Imaginou-se além de um infinito qualquer, sentiu leveza, sorriu e assim sua vida se desfez.

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