24 de jun de 2010

O feijão, ou o Conto Autobiográfico

“Debulhando andu, olha só onde vim parar” pensava ela, chateada.Acabara de fazer o filho dormir, escutava seu ressonar pela babá eletrônica. O outro som era a música que vinha do notebook do seu marido, que trabalhava em uma mesa à sua frente. E ela debulhava andu de cabeça baixa, no escuro. Chateada, incomodada com seu presente, sem perspectivas para um futuro próximo, sentindo-se sozinha e pouco estimulada.
Andu, um tipo diferente de feijão. Feijão dá gases em seu bebê, ela nem vai poder comer a tal famosa farofa de andu. Ela plantou, ela cuidou, ela colheu, ela debulhou, ela vai cozinhar, ela vai temperar. E ela não vai comer.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela começou a reparar que o marido escutava uma pasta de músicas que ela criou. Mais, percebeu que ele cantarolava. Começou a cantarolar com ele.Passaram a conversar sobre as músicas, sobre as sensações que lhes traziam. Lembraram de situações que tiveram essa ou aquela música como trilha sonora. Falaram do crescimento do seu filho, falaram de como sua casa está bonita, ainda que inacabada. Riram do mau cheiro do cachorro, preocuparam-se com as contas bancárias.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela foi percebendo que seu presente estava bem melhor do que previra há alguns meses. Previra que não conseguiria emagrecer após o parto, que não conseguiria cuidar bem do filho, sequer sonhara em dar banho ou trocar fraldas. Imaginara que passaria por tudo isso sozinha, sem auxílio, sem diversão ou momentos para desopilar.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, sentia o vento de inverno que finalmente trazia frescor para uma cidade tão quente. Sem levantar os olhos, sentiu-se bem por estar em sua casa, com seu filho lindo e saudável dormindo calmamente, com seu marido que cantava á sua frente.
Ali, debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela viu-se feliz. Sem enxergar um palmo à sua frente, no escuro, sem perspectiva de uma melhora em sua condição visual, sem se preocupar com isso.Ali, debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, começando a sentir frio nos pés, sorriu e disse, sem erguer os olhos:
- Acabei de viver um momento feliz.