31 de dez de 2010

Conto do pesadelo final

Ela não conseguia conter sua felicidade naquele amanhecer. Consciência leve, recuperou o amor de sua vida e o resultado desse amor ela carregava no ventre. Ela sabia que tudo iria melhorar, que o perdão a deixou de coração leve e agora havia um motivo a mais para viver. Ele acordou e sorriu para Ela, segurou-lhe a barriga e beijou, dizendo “bom dia, minha filha”.
Eles riram porque sempre quiseram uma menininha, sempre comentavam quando eram namorados e, depois da turbulência pela qual o casamento passara, falar em filhos era quase uma agressão.
Na verdade, não importava se o bebê era menina ou menino, Ele apenas quis relembrar os bons e antigos tempos que agora pareciam ter voltado àquela casa.
A felicidade era tanta que resolveram ir, naquela manhã, visitar os pais d’Ele que moravam numa cidade próxima, para contar-lhes a novidade.
Ela sentia-se vivendo em um filme, cuja trilha sonora era “Oh, Happy Day”:
Oh happy day
Oh happy day
When Jesus washed
Oh when He washed
Oh when He washed
Whased my sins away
Oh happy day
Oh happy day
Oh happy day
When Jesus washed
Oh when He washed
And then He washed
Washed my sins away
Oh its a happy day
He tought me how
To watch watch and pray
Watch and pray
And live rejoicing averyday
Everyday

Ao saírem de casa se deram conta que o carro havia sido quitado há 2 meses e nem sequer houve comemoração do feito. Assim, beijaram-se demoradamente e pegaram a estrada.
No caminho, conversavam animadamente escolhendo o possível nome do bebê.
- Nosso filho! Não consigo acreditar nisso, amor. Ele veio para nos unir, pra tirar a venda que estava em nossos olhos!
- Sim, acredite, é o nosso filho que veio. Ele é resultado do que sempre sentimos um pelo outro e quase esquecemos. Nosso bebê...
- Tu não acha estranho aquele caminhão?
- Sim, parece que vem ziguezagueando.
- Amor, freia o carro!
- Calma...
- Freia!
- Eu não to conseguindo parar!
- Vai bater na gente!
- Eu to tentando desviar!
- PÁRAAAAA...
E qualquer que tenha sido o grito posterior, foi abafado pelo estrondo da colisão. O motorista do caminhão havia dormido ao volante e Ele não conseguiu evitar o encontro frontal dos veículos. A morte d’Eles foi instantânea. Ela, com o pescoço quebrado por estar com o cinto de segurança, e Ele pelo impacto da queda ao voar do automóvel. O bebê? Esse ainda era chamado pelos peritos de feto.
Foi o fim de uma história que teria muito a contar, mas foi interrompida assim, como outras tantas também são.

30 de dez de 2010

Xi-ri-gui-dum

“Ai ai! Acho que essa temporada na casa do meu pai vai ser boa pra minha cabeça, a vida aqui é bem mais zen. Tirando o fato do meu pai ter uma adoração excessiva por Shakespeare, ele até é uma pessoa normal e inteligente. Até já to sentindo saudade daquele gordo desnecessário do Paulo Afonso, mas pensando o quanto ele me azucrina, a saudade já passa. E vai ser bom para a mãe criar juízo e assumir as responsabilidades... Ai não!

- Paieeê, o Hamlet tá aqui no meu quarto, tira esse rato daqui!

- Não é rato, filha, é um esquilo. E trate bem dele, tu não tens noção o quanto foi difícil conseguir licença pra criá-lo aqui. E domesticar, então...

- Tu diz domesticar um animal que espalhou minhas maquiagens por todo o quarto?

- Ele é uma criança brincalhona.

- E bagunceira, agora tira ele daqui. Preciso me arrumar.

- Vai sair hoje?

- Vou.

- Posso saber com quem?

- Um carinha que conheci no carnaval. Mário.

- E o que ele faz?

- É traficante, tem 2 piercings na boca. Ficam lindos nele.

- JULIETA CRISTINA! Eu não vou...

- Relaxa pai. Ele é recém formado em Direito, quer ser advogado, semana que vem é a prova da OAB dele.

- Formou-se e continua sendo nada. Típico de estudantes de Direito. Entre o advogado e o traficante não sei qual escolher.

- A escolha é minha, pai.

- Eu sei, amada minha. Eu sei. Boa sorte e juízo nesse corpinho.

- Obrigada pai.

“É outro nível esse meu pai. Vou com meu vestido vermelho. Tá, tô nervosa. O Mário é tão gatchinho”.

(Ao chegarem ao restaurante em que iriam jantar).

- Ai, me solta!

- O que houve, Ju?

- Enrosquei minha bolsa na cadeira.

- Ah sim, as cadeiras tem essa louca mania de segurar as pessoas.

- Obrigada por contribuir com a vergonha que sinto nesse momento.

- Gosto da cara que tu faz quando fica com vergonha e a tua auto-indignação me diverte.

- Sem graça, você, hein?

- Não sabe receber elogio?

- Ah! Foi um elogio? Muito obrigada.

- De nada. Bebemos vinho?

- Ótimo.

- Faz dois meses que a gente se conhece, conversamos seguidamente, só agora que a gente está saindo juntos, mas tinha certeza que seria divertido.

“Ai, nervosa. Que fofo! Eu tava louca pra sair contigo, bofe. Toma um gole de vinho, Cris, fazer charminho pra responder é o que há. Não tire os olhos dele, fixe. Merdê. Ai, não, derrubei o vinho dentro do meu prato. Desastre!”

- Opa.

- Vai dizer que você gosta de tomar vinho de colher?

- Ai, não brinca, tu ta vendo o desastre que eu sou, se quiser, podemos ir embora.

- Por isso? Eu to adorando estar aqui.

- Isso não me faz sentir melhor.

- Ju, olha pra mim.

- Oi, tô olhando!

- Quer namorar comigo?

28 de dez de 2010

Conto do outro começo

Ela acordou enjoada. Tremendamente enjoada. Olhou em volta e, pouco a pouco, lembrou do que aconteceu. Ou pelo menos teve uma vaga lembrança. Estava vestida, isso já era um bom indício de que nada de pior aconteceu. Mas onde Ele estava?

Lembrou-se das palavras duras, as insinuações da transa com o outro Ele, o André. Não foram insinuações, ela disse que transou, disse como e onde foi, e com detalhes sórdidos.

"Droga, ele comeu a Sabrina."

A voz dele passou a ecoar... "Grande merda que tu deu pro André, no mesmo dia eu comi a Sabrina, aqui nessa sala. E ela continua gostosa como sempre!"

O diálogo veio como um turbilhão.

"Bom, se tu fosse tão gostoso como acha que é, ela não tinha virado sapatão!"

"E se o André fosse tão maravilhoso, ela tava contigo e não na cama da Sabrina."

Lembrou de ter visto André e Sabrina na cama, sem roupa e pelo visto sem pudores, porta aberta e gritaria.

Tentou levantar-se, mas o enjôo foi mais forte. Engraçado, o porre não foi assim tão forte, o vinho era bom, tinha se alimentado bem...

"Onde Ele tá?"

De repente sentiu-se fraca, dependente e desprotegida. Sentou-se na cama, abraçou as pernas e começou a chorar. Parecia uma criança assustada, mas a única vontade que sentia era de chorar.

"Não acredito que perdi Ele".

Passou um filme rápido em sua cabeça, desde a primeira troca de olhares naquele show em que se conheceram, as caminhadas nas tardes de sábado, as viagens, os passeios, o primeiro carro que compraram juntos, a última parcela da casa, quitada há dois meses.

"Não posso jogar tanto amor fora."

Soluçava, gemia, socava a cama.

Não queria olhar pro sofá da sala e só ver almofadas. E os planos de adotar um cachorro? E as roseiras, que só floresciam quando Ele as regava? E o que Ela faria com aquelas toalhas do Grêmio, que ela odiava, mas lavava com carinho mesmo sendo torcedora do Internacional?

O enjôo ficava cada vez mais forte, correu pro banheiro. Nada saiu, nem vermelho como vinho, nem saliva, nem nada.

Quando saiu do banheiro, Ele estava sentado na cama. Ela percebeu-se tão absurdamente ridícula, com o rosto inchado de tanto chorar, a camiseta amassada e molhada pelas lágrimas. Tinha vergonha de encará-lo.

Sentou-se ao lado d’Ele e esperou que falasse. Qualquer coisa, qualquer palavra, ríspida ou seca, qualquer som que acabasse com aquele silêncio.

Ele também chorava, mas ria ao mesmo tempo! No começo ria baixinho, depois começou a gargalhar e soluçar, com as mãos nos olhos, cabeça meio baixa. Ela olhava e não entendia nada, mas começou a sorrir também. Quando ambos gargalhavam, ela sentiu novamente aquele enjôo esquisito.

"Amor, tu tá grávida"!

E ria descontroladamente.

"Do que tu tá rindo?"

"Acordei achando que tinha te perdido, que te encontraria na cama com aqueles dois... Aí te vejo aqui, sozinha, chorando e vomitando. Minha princesa, minha boneca, amor da minha vida, tão forte e tão delicada, tão independente mas que não consegue ficar longe de mim, confessa..."

"Eu te amo."

27 de dez de 2010

Ex bom é ex morto

“Dá a impressão que o ano começou só agora, no mês de abril. Definitivamente. Emprego novo, solteira à procura, último ano de faculdade. Eu preciso mudar minhas energias. Aliás, tem um relógio parado na minha gaveta, é hora de fazer ele voltar a funcionar. Não quero nada parado na minha vida.”

Juju nem tinha levantado da cama e o pensamento já estava a mil, fazendo planos e tranquila, tinha certeza que as coisas começariam a dar certo.

“Merdê, a coleção de revistas dos anos 80 do Enetermos ainda está comigo e eu tenho que devolver. De hoje não passa. Trabalhar no sábado de manhã tem suas vantagens, vou passar na casa dele e deixar com a sogra. Opa, ex-sogra, preciso me acostumar com isso. Pronto, ninguém mandou ele ser dorminhoco... adorava dormir com ele... tá, passou. Não passa. Respirando fundo... passou.”

(Na casa da sog...ex-sogra):

- Oi, Juju

- Oi sogrija... opa, agora é ex.

- Ah! Tudo bem, você sempre será minha nora preferida, mesmo nem sendo mais minha nora.

- Pois é, dona Masoca, mas só passei pra deixar estas revistas do Enetermos caso ele precise. São dele mesmo. Mas já vou indo, tenho que ir trabalhar.

- Não sem antes tomar o meu café, eu sei que tu adora.

- Golpe baixo. Não resisto. Mas não posso me atrasar.

- Serei rápida, a água já está quente. Aproveitaremos o tempo pra pôr as fofocas em dia. Hoje é aniversário do meu irmão, não ta a fim de comemorar com a gente?

- Ah não, obrigada. Não é conveniente. Adoro a família de vocês, mas não é certo eu estar aqui nessa situação.

- Bom, é você que sabe, mas está convidada.

(após o café, já no trabalho)

“Xiriguidum. Esqueci meu celular na casa do Enetermos. Saquê! Droguê, ainda não me livrei do francês. Mas enfim, porque eu sou tão tonta? Vou ter que passar lá depois, e se aquela coisa osca já estiver acordada? Aieeê, eu não quero ver ele. Triste”

- Julieta.

- Oi, Dr. Tusnildo.

“Até meu chefe está na saga dos nomes esquisitos da minha vida”.

- Precisamos conversar. Vou precisar de você hoje a tarde, tempos três pacientes que precisam de sessões extras de fisioterapia. Depois acertamos isso, quem sabe um dia de folga na semana que vem, tudo certo pra você?

“Ótimo, sábado todo trabalhando”.

- Tudo certo sim, só vou ligar pra casa pra avisar. E outra, vou precisar usar o telefone da clínica.

- Tudo bem, conto com você então.

(final de expediente)

“É, respirando fundo porque possivelmente vou encontrar o Enetermos em casa. Lixê! Nunca alcanço essa campainha. Pulando, ui, alcancei. Como tá cheio de carros aqui na frente. Ah não, o jantar do tio que não é mais meu tio Esmerildo. Vou sair, amanhã pego esse maldito celular, ou compro outro. Abriram a porta, ai, me viram”

- Oi, Juju, fugindo de alguém.

- Da polícia, não quero que eles me encontrem, vim pedir refúgio.

- Sempre com seu bom-humor.

“E tu sempre com esse sorriso lindo, que vontade de me atirar nos teus braços”...

- É, minha mãe não concorda com isso.

- Combinemos que tua mãe não deve ser muito considerada pra opiniões, não é?

- Sim, mas enfim, só vim buscar meu celular que esqueci hoje de manhã.

- Ah sim, entre, a mãe até comentou comigo.

- Legal participar da festa de família de uma família que não é mais minha família.

- Acontece Julieta. Acontece. Mas tu esqueceu esse celular de propósito, né?

- Agora eu lembro bem porque a gente terminou, pelos tantos momentos que tu me faz te odiar. Não, não esqueci de propósito e nem tava a fim de ver tua cara.

- Opa, ta braba?

- Sim, qual é a pessoa que quando finalmente resolve dar um basta com qualquer lembrança que tenha do ex, consegue esquecer o celular na casa dele?

- Você, ora.

- Sim, eu, por isso que eu tenho plena convicção que pra eu viver, só me matando mesmo.

24 de dez de 2010

Conto do assombro final

Os dois evitavam trocar olhares, palavras, sequer tocavam as taças de vinho. O bar continuava animado, a banda parara de tocar a poucos minutos, o burburinho era ensurdecedor, mas o silêncio entre eles era quase palpável. Gargalhadas, arrastar de cadeiras, o prato da bateria que caiu, mas o som do silêncio era ainda maior.

Contrariando as aparências, fazia tempo que Ela não se sentia tão bem ao lado d’Ele. Sem precisar prestar atenção no que dizia, ou tecer opiniões às quais ele não daria a menor importância, sequer precisava ficar de mãos dadas com Ele.

A música ambiente cobriu qualquer espaço que ainda não havia sido tomado.

Eu só quero estar só

Esse silêncio me faz tão bem

E a distância também

Não queria partir

Mas não me resta nada a dividir

Ainda bem que cada um em sua estrada anda só

Talvez perceba que tem que levantar e viver

Por que todos acabam sós

Sei que eu preciso esperar

Meias medidas virão

Sutilmente ou não

E bem longe daqui

Não vou agradar ninguém além de mim

Ela sentia vontade de rir. Tinha vontade de gargalhar, sentia-se aliviada pelo semi-desabafo. Aquelas palavras estavam engasgadas há tanto tempo que mal podia se lembrar de um dia em que não quis proferi-las.

Quando já era quase impossível conter o riso, Sabrina sentou-se a seu lado, um pouco bêbada e sem limites.

- Anima aí gente, a festa ta só começando e vocês dois com cara de bunda!

Dois? Ah, sim, Ele estava na mesa.

As duas engataram uma animada conversa, falavam até sobre partes do corpo d’Ele, que a cada segundo ficava mais intrigado com a cena.

"Elas mal se olhavam, agora estão amigas assim?" pensava, sentindo-se sufocado pela lembrança do último encontro que tiveram, quando descobriu a bissexualidade de sua ex e seu interesse por sua esposa. Sabrina tocava as pernas e os ombros d’Ela durante a conversa, dando aulas de como trepar no banco da frente de um carro. Ela, interessada, morria de rir com os detalhes sórdidos que a nova amiga incluía na conversa.

"Será que rolou alguma coisa entre as duas e eu não to sabendo?" apavorava-se com a possibilidade de perder sua mulher pra outra mulher.

Ele bebia sem parar. A terceira garrafa de vinho estava no fim e ainda não acreditava no que via. As duas agora conversavam aos sussuros, ao pé do ouvido, e riam incontidamente. Ele pediu outra garrafa de vinho, que foi trazida por André.

"Ufa", pensou, "finalmente alguém pra conversar comigo".

Ledo engano.

André sentou-se entre as duas mulheres, as gargalhadas aumentavam assim como a intimidade entre os três. Percebendo o estado etílico d’Ele, sugeriu que todos fosse à sua casa, logo ao lado do bar, o que foi aceito de pronto, sem que Ele sequer fosse consultado por Ela.

Ele não sabe ao certo como tudo se deu ou o que aconteceu exatamente, mas acordou sozinho na sala. À sua volta, peças de roupa que não reconhecia e, novamente, o silêncio.

23 de dez de 2010

Ne me quite pás

“Apolo, já volto pra te buscar!”

Ui, xiriguidum, o nome do gato é Apolo! Parece um Apolo mesmo... Muito além do bonito, todo loirinho, de olhos azuis... E agora que o outro cara saiu de perto ele tá com essa carinha de perdido! Aieeee coisa fofa!

Essas coisas só acontecem comigo. Definitivamente, a Lua tava minguante no dia que eu nasci. E Nossa Senhora da Bicicletinha tava menstruada, só pode. Tô bem sentada na Redenção, resolvi vir comprar uma Revista Piauí e o tal do Apolo com uma na mão. Óbvio, como eu sou uma pessoa de muita sorte, SÓ TEM UMA. Tá, o guri é tetra lindo, mas será que ele vai demorar muito pra resolver qual revista ele quer? Ah não... Agora ela vai ficar namorando a capa? Chega!

- Oi, com licença... Apolo, né? Por acaso tu não sabe ler? Tá há 2 dias com a Piauí na mão e nada? Te decide!

- Diescoulpa menena, eu nau ser daque, nau consego saber como paga.

Ai tadinhooo... E que vergonha!

- Ah, desculpa. Eu te ajudo! É só essa revista?

- Oui. Sorry, quer dizer, sim.

- Faz assim. Já que tu não vai entender nada do que tá escrito e eu quero levar pra casa (a revista), eu compro, a gente senta ali embaixo daquela árvore e eu leio os textos pra ti. Que tal?

- Magnifique!

- Olha que legal, eu até sei cantar aquela música da Cássia Eller... nooon, riã de riã, nooon, jê ne regrete riãnnn”

- Parece muito com uma da Edith Piaf, mas a letra é diferrant.

- Ah, deve ser outra música mesmo. (Cala a boca, Julieta Cristina!)

Feito, vou conhecer uma língua francesa! Ainda bem que prestei um pouco de atenção às aulas de francês que o pai pagou. E era chato pacas!

O papo fluiu com certa dificuldade, mas Apolo não entendia a real intenção de JuCris.

- Bem, vamos tentar de outra forma. Meu nome é Cris, e o seu?

- Apolinaire, me chamam Apolo.

O Murphy me odeia. Até em francês os caras têm nome estranho?

- Tô te achando meio acanhado, Apolo. Tá com vergonha? Ou é o calor?

- Excuse moi, Cris, eu estar preocupado com Alistair.

- Alistar? Eu tenho um de cada cor, às vezes até saio calçando um de cada cor. Mas deixa isso pra lá. Algum problema com os teus? Nem pisou em nada!

- Non, mon chéri, Alistair ser o que estava comigo. Como se diz em português... boyfriend?

- Amigo? É que aqui no Brasil, quando falam boyfriend, a gente entende como namorado.

- Isso, namorrado! Ele saiu para buscar nosso carro e ainda não voltou.

“Merdê!! Atê em Francê, acontecê essas comiguê. Ajudê!”

21 de dez de 2010

Conto do começo do fim

A rotina já é tamanha que ela acorda mal humorada às sextas-feiras. Sabe que vai sair da cama, preparar o café da manhã, tomar banho, ficar semipronta pra ir trabalhar, lavar a louça do café – ele nunca ajuda – e ir pro trabalho. Às seis da tarde, Ele vai passar para que voltem juntos para casa, mas antes vão passar no mesmo barzinho de toda sexta-feira, onde os amigos tocam. Sempre o mesmo itinerário, os mesmos rostos, os mesmos assuntos, a mesma mesa, o mesmo repertório. Sempre a mesma solidão naquela maldita mesa cheia de gente com quem ela não se identifica, com conversas que não lhe interessam, as mesmas piadas machistas. Hoje não foi diferente. Ela acordou já tremendamente mal humorada, com dor de cabeça e os olhos vermelhos. Chorou muito após a milésima discussão por causa das ligações da Sabrina, pelos vários encontros inesperados d’Ela com o André. Resolveu que tentaria fazer aquele dia um pouco diferente.

- Amor, quem sabe hoje a gente toma café da manhã em uma casa de chá?

- Tá, pode ser.

Com mais tempo para se arrumar e sabendo que não teria reuniões com clientes na agência, caprichou no visual: saia jeans mais curta que o de costume, camisa branca, jaquetinha de couro e botas. Salto alto, há meses ela não trabalhava usando salto!

- Nossa, que linda! Algum cliente especial hoje?

- Sim, eu mesma. Aliás, nós dois.

Mentira. Ela nem lembrou da existência d’Ele, o que vinha se tornando hábito. Ele já não participava de seus planos. O café foi deprimente. Chegaram, sentaram-se, comeram e foram embora, sem trocar sequer duas palavras além de "me passa o mel". Na verdade há tempos eles já não conversavam, não tinham um assunto de interesse mútuo. O restante do dia foi comum apesar dos olhares dos colegas de trabalho dela, admirados com a repentina mudança. Até seu chefe, sempre tão reservado, reparou no brilho em seu olhar.

- Menina, se você não fosse casada, eu apostaria que está apaixonada.

Apaixonada? Céus! Como Ela não havia percebido? Sempre tão perspicaz, tão sensível, não percebeu que estava apaixonada? Que outra explicação teria para a tarde que passou com André, no chão da sala? Qual outro motivo explicaria seu desinteresse pelo próprio marido? Olhou-se no espelho e viu uma mulher com vontade de viver, muito diferente daquela criatura que apenas existia. Retocou a maquiagem e desceu para encontrar-se com Ele.

- E aí, direto pra casa?

- De forma alguma! Você está linda, merece uma noite diferente.

Preferia que ele fosse mais frio. Esses lapsos de atenção a deixam desarmada. Quando deu por si, estavam no mesmo bar de sempre, a banda começando com a mesma música de sempre, sentaram-se na mesa à frente do palco, como sempre. Ele rapidamente colou os olhos no palco e assim ficou, provavelmente ficará assim a noite toda.

“Tão fácil perceber

Que a sorte escolheu você

E você cego, nem nota

Quando tudo ainda é nada

Quando o dia é madrugada

Você gastou sua cota...”


Ela estranhou algo na música, aparentemente o vocalista não errou a letra. Olhou para o palco e... André? Não se viam desde aquela tarde de domingo, ela sentiu o rubor lhe subindo à face. André cantava olhando para Ele...

Mas quando sempre

É sempre nunca

Quando ao lado ainda

É muito mais longe

Que qualquer lugar...
Se a sorte lhe sorriu

Porque não sorrir de volta

Você nunca olha a sua volta

Não quero estar sendo mal

Moralista ou banal

Aqui está o que me afligia...


Parece que a música foi escolhida a dedo para deixá-la novamente deprimida. Retrata sua total entrega a Ele, que retribui com... nada.

Um dia ela já vai

Achar o cara que lhe queira

Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai

Achar alguém prá vida inteira

Como você não quis...

Essa deveria ser sua opção? Acabar com essa farsa que virou seu casamento? Deixar seu marido livre pra voltar com a Sabrina? Ficar livre pra viver uma nova história, pra viver outros momentos quentes com o André... pra viver?


Na mesa ao lado, várias moças mandavam bilhetinhos para André, que lia e respondia com discretos sorrisos, às vezes aparentando vergonha, às vezes aparentando interesse.

"Bando de galinhas...”, pensou e logo em seguida riu de si mesma. Estava com ciúmes!

- Esse André é engraçado, tá de novo querendo tudo que é meu.

- Quê? (Ficou apavorada, será que ele sabia?)

- Agora tá querendo comprar meu baixo. Como se ele soubesse tocar alguma coisa! Foi só eu comentar com esse cara que eu ia montar outra banda e ele saiu correndo pra ser vocalista da banda aqui do bar. Só falta agora querer comprar meu carro e cantar minha mulher, né, amor?

- M-m-mas você não tinha dito que ia chamar o André pra cantar na tua banda?

- Falei sim, mas não quero mais. Ele tá se enfiando muito na nossa vida, o tempo todo te convidando pra almoçar.

- Amor, a gente trabalha na mesma rua e só tem um restaurante que preste, é meio óbvio que nos encontremos!

- Se quisesse você evitava sim, poderia tranquilamente almoçar em casa.

- Ah claro, perder meu horário de almoço todo pra fazer almoço e limpar cozinha, tem graça...

- Eu já falei que você não precisa trabalhar, o meu salário é o suficiente pra nos manter.

- Como é? Tá querendo dizer que eu seria mais útil como empregada?

- Eu fui criado pra ser um provedor, não pra ser seu colega de quarto.

- E eu fui criada pra ser independente, não pra ser empregada doméstica e escrava sexual.

- Não se faz de vítima, eu sempre disse que preferia que você ficasse em casa!

- Baixa o tom de voz, a gente tá num lugar público.

- Não tô nem aí, todo mundo aqui sabe que você é minha!

- Tua o caralho, eu sou minha. Se ainda tô contigo é porque eu ainda quero.

- Ainda quer? Como assim?

- Quer dizer que numa hora dessas, eu vou perceber que fico melhor sozinha.

- Essa não é uma boa hora pra brincadeiras.

- E quem disse que eu tô brincando?

E o silêncio voltou a imperar na mesa.

20 de dez de 2010

A vida é quase uma merda

Xiriguidum, emprego novo! Na real, finalmente um emprego, porque antes eu era escravejária, agora estagiária. Até o toque do celular dizia isso. Trabalhava igual uma condenada, ganhava igual uma mendiga em dia de chuva. Fora que era um escritório, burocracia, papelada, chefe xarope, mulher do chefe insuportável, colegas pedantes. Uix, até “pedante” eu aprendi a falar.

Aí consegui essa vaguinha aqui. Coisa boa, né? Clínica de fisioterapia, bem na minha área! Gente bacana, bem vestida, clientes ricos e limpinhos. Ai, ai, viver é bom!

A única coisa desagradável é essa escadaria. MeL DeLs, até já decorei a sequência: 8 degraus, dois passos, onze degraus, dois passos, nove degraus, um passo, vira à esquerda, seis passos, vira à direita, abre a porta e eis-me aqui. Óbvio que tem um elevador pros clientes, mas subir escada te ajuda a subir na vida!

- Bom dia, senhor, em que posso ajudar?

(Ai, tadinho do tiozinho, subiu pela escada!)

- Bom dia, senhorita... deixa-me ver teu crachá... Julieta Cristina. Olha que legal, é o nome da minha bisavó!

(vou matar esse velho)

- Que coincidência, não é? Em que posso ajudá-lo?

- Tenho consulta marcada com o Dr. Mazandro.

(Aff... isso nunca vai acabar? É cada nome que me persegue...)

- Ah, pois não. Qual é o seu nome?

- Nabucodonosor.

(Pelamordedeus...)

- Um momento, senhor, não estou localizando seu cadastro.

(O enfermeiro engraçado e piadista chega, enquanto o paciente se apoia no balcão para olhar o monitor e acaba soltando um mega peido. Sai correndo, pedindo desculpa, enfermeiro gargalhando, Juju não sabe o que fazer.)

- Senhor, o Dr. Mazandro está aguardando! O elevador é à esquerda! Ai, G-Zuis! Frederico, me ajuda!

- É Ferdinando hahahahahha. Pera, vou buscar o peidorreiro. Õ seu Nabuco, volta aqui!

- Ferdinando, tira a mão do nariz, tadinho do Seu Nabucodoseiláoque.

- Ô seu Nabuco, pelo menos fica respirando aqui até esse fedor passar! Puta merda, tu comeu urubu ensopado? Que futum hein??

- Tá explicado, Fer... O sobrenome dele é Phlattum!

Ai ai. A vida é uma obra!

17 de dez de 2010

Conto do fim dos sonhos

- E eu tenho culpa da incompetência da Sabrina? Já faz tanto tempo que vocês terminaram, a gente tá casado há um tempão e ela não arrumou outro ainda, azar o dela, não o meu!

- Eu também não tenho culpa se você nunca quer fazer nada no domingo a tarde!
- Quer saber? Vai pro jogo com a Sabrina, vai encher a cara com a Sabrina, vai pra puta que te pariu com a Sabrina, vou arranjar coisa melhor pra fazer do que ficar olhando pra tua cara. Some daqui!

E foi o que ele fez.

Pegou as chaves do carro, vestiu a camisa surrada que ganhou quando o time ainda estava na segunda divisão e... saiu. Muito puto com a falta de discernimento d'Ela, com a falta de compreensão, com o ciúme descabido.
Descabido?

Será que Ela estava tão errada assim? Ele nunca engoliu o término do relacionamento com a Sabrina, que simplesmente falou que tava cansada. Nunca disse o que deu errado, o que deu certo, nunca mais conversaram sobre isso apesar da grande amizade que ficou.

- Oi Sabrina!

- Oi gatão, pontual como sempre!

Ele sorriu um pouco tímido, elogios sempre foram seu fraco. Sabrina entrou no carro e foi ocupando todos os espaços: pés no painel, rebaixou o encosto do banco e trocou o cd.

- Tua mulher só escuta essas coisas chatas, né? Vou até ouvir a primeira música..."

Quero ficar no teu corpo

Feito tatuagem

Que é prá te dar coragem

Prá seguir viagem

Quando a noite vem...

E também prá me perpetuar

Em tua escrava

Que você pega, esfrega

Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo

Feito bailarina

Que logo se alucina

Salta e te ilumina

Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos

Do teu braço

Repousar frouxa,

murcha Farta,

morta de cansaço...

- Afe, que coisa chata!! É só isso que ela escuta?

- Não quero falar sobre Ela hoje.

- Ué, normalmente é nosso único assunto!

- Não hoje. Aliás, não quero ir no jogo. Quero ir pra algum lugar tranquilo pra gente conversar e encher a cara.

- Ai saco, Ela brigou contigo de novo, né? Volta lá pra casa, tenho um vinho guardado desde a época que a gente namorava.

E assim fizeram. A casa dela continuava a mesma, com aquele cheiro de incenso que o deixava excitado, aquelas almofadas que por tantas vezes já ficaram por baixo de seus corpos... "Tá, conta, o que houve dessa vez?"
"Ela continua com ciúmes de ti, é isso. Sabe que eu te acho uma gostosa, sabe que a gente se dava bem na cama, sabe que você ainda tá sozinha...”

Sem nem perceber o que fazia, ele se aproximou tanto de Sabrina que acabaram se beijando. Ele sentia tanta raiva, confusão e tesão que não conseguiu segurar um desejo que sentia há tempos, principalmente quando percebeu que Sabrina também o desejava. Transaram como loucos, sedentos e saudosos, sem pudores ou sequer ressalvas.

Exaustos e saciados, tomaram banho juntos e terminaram de beber o vinho. Ele percebeu a impressionante falta de culpa. Não se sentia mal pela traição, pelo descontrole, por ter desejado outra mulher que já fora sua por tantas outras vezes."Agora sim, Ela tem motivos pra ter ciúmes de você”. Sabrina começou a gargalhar quase convulsivamente. Entre uma risada e uma tentativa de recuperar o fôlego, arrumou as almofadas no chão, sentou-se e olhou fixamente nos olhos d'Ele:

- Sempre te achei, digamos, lentinho pra entender as coisas, mas dessa vez acho que não quer ver, né?

- Do que você tá falando? O que eu não tô vendo?

- Fofo, quando terminamos, falei que eu tava cansada, certo? Não foi 'cansada de ti' que eu quis dizer, e sim "cansada dos homens". De vez em quando eu até transo com caras só pra ter um prazer diferente, mas eu gosto mesmo é de mulher!

Ele, atônito, mal conseguia respirar.

- Sempre pergunto sobre a tua mulher porque acho Ela uma delícia, adoraria que rolasse uma brincadeirinha entre nós três, mas acho que você jamais toparia.

- Mas o que te faz pensar que Ela toparia?

- Caramba, você virou um bocó mesmo, hein?

Ele, atordoado, desconcertado e arrependido, levantou-se e saiu, sem se despedir ou mesmo fechar a porta. Ao sair ainda podia ouvir as gargalhadas da Sabrina. Dirigiu a esmo por um tempo depois resolveu ir pra casa de sua mãe.
Ela sempre odiou a Sabrina, saberia como ajudar. O difícil seria voltar pra casa...

16 de dez de 2010

Sábado de sol

(Nossa querida JuCris vai com a mãe para o clube.)

- Mãe, que que é isso?

- Ué, eu de biquíni.

- Mãe, que biquíni é esse? Pelamor!

- Ué, o biquíni de oncinha que te dei e tu não gostou.

- Sim, é minúsculo! Mãe, cadê a parte de trás do biquíni?

- Tá no meio da minha bunda, ué. É fio dental, tu queria que ele fosse do tamanho do teu?

- Mãe, pelamordedeus. Tu tem o dobro da minha idade, o dobro do meu peso e esse teu biquíni é menos da metade do meu!

- Olha aqui guria. Eu não tenho o dobro da tua idade, tu que tá com a idade que eu tinha quando tu nasceu. E se eu tô fora do peso, é porque tive o dobro de filhos que tu teve. E esse teu biquíni era da tua avó!

- O dobro de zero é zero, anta. Eu não tenho filhos, então tu não pode ter o dobro de filhos... Deixa essa parte pra lá. E esse biquíni era da vó quando ela tinha a minha idade e nem pensava em ser mãe. Ela não foi precipitada igual a ti.

- A tua vó era uma vadia quando tinha a tua idade.

- Ah sim, e tu tem toda a moral do mundo pra dizer isso.

- Julieta Cristina, não é porque tu tem vocação pra freira que vai me ofender assim!

- Mas é tu que tá ofendendo meus olhos com esse biquíni! Aliás, unoquíni, porque a parte de baixo inexiste! E me chama de Cris, tem dó.

- Bom, é o seguinte: tem um gatão numa mesa perto da porta do banheiro. Tô de olho, e ele vai ficar babando na gatona aqui. Então me deixa, que hoje eu tô de boleira.

- Ai mãe... é "de bobeira". Nem a letra da música tu sabe e fica se fazendo...

- Monga, ele tava jogando futebol, por isso que eu tô de boleira.

- Tu tá é de maria-chuteira. Parecendo o solado.

- Tá, vamos pra piscina que tá quente aqui dentro.

- Devem ser tuas nádegas se roçando e gerando calor.

- Guria, tu me respeita! Vem logo.

Credo, a mãe tá bi-zar-ra com esse unoquíni. O jeito foi correr dela, a água da piscina tá bem fresquinha, delícia! Ai xiriguidum, o tal do gato é um gato mesmo! E tá vindo pra cá, se eu mergulhar ele não vai me ver, vergonha alheia...

- Oi bonita.

(“Droga. Saí bem na frente dele. Será que meu nariz tá sujo?”)

- Oi, tudo bem?

- Tudo. Tava te olhando desde que tu chegou aqui no clube com aquela... aquela senhora ali. Ela pegou o biquíni da filha, será?

- Me olhando? Hihihi... Assim eu fico tímida! Bem, aquela senhora ali... ela tem problemas mesmo, o médico disse pra não contrariar.

- Que coisa, né... Eu prefiro mulher assim do teu jeitinho, mais comportada, a gente fica pensando no que tá escondendo...

- Capaz, eu sou tão comunzinha! Depois a gente se fala, vou ali tomar um suco com a "estranha" pra ela não surtar.

- Ah, tá certo... Depois eu passo na tua mesa pra pegar teu número de telefone, tá? Quero te conhecer mais.

- Tudo bem. Hihihi. Eu sou a Ju, como é teu nome?

- Eu sou o Bruno.

(“Socorro! Lindo, perfeito, atencioso e com nome normal, tá bom demais pra ser verdade”!)

- Julieta, filha, teu biquíni tá todo transparente! Hahahahaha e eu que sou a oferecida!

- Para de gritar manhê!

Será que, se eu cuspir no chão, consigo sair nadando até o esgoto mais próximo?

14 de dez de 2010

Conto do remorso

Ela acordou e fixou o olhar n’Ele dormindo ao seu lado. Tiveram uma transa de reconciliação e logo dormiram. Ela continuava olhando pra ele e lembrando de quando suas transas faziam qualquer cama ficar pequena. Seus corpos incendiavam em um prazer mútuo e ainda era pouco. A paixão dos dois ardia sobre a pele. “Por que chegamos a esse ponto? Por que me deixei envolver?”

Sentia-se suja, sentia-se falsa. Entregou-se simplesmente pelo prazer e pela atração, sentimentos que vêm e logo vão. Tentava se convencer de que quem não presta assistência abre mão pra concorrência pra sentir-se menos culpada, mas não adiantava. Do lado d’Ela estava o homem que Ela ama. Ele. Ele realmente anda estressado, trabalhando mais que o habitual e Ela entendia que era por uma boa razão, porque ele simplesmente pensa no futuro deles, dos dois, d’Ele e d’Ela... Quem sabe para logo terem filhos. Sentiu-se um monstro. Ela não conseguia aceitar que fizera aquilo e que o remorso em poucas horas já havia tomado conta d’Ela. Beijou-o na testa e saiu para escovar os dentes e fazer o café da manhã. Ele ainda tinha 30 minutos de sono. Na mente a música que ela sempre cantava pra ele quando não entendia as razões por amar tanto aquele homem que do nada apareceu e mudou o rumo de sua vida. Parecia fazer mais sentido:

Sobre o amor, e o desamor, sobre a paixão,
Sobre ficar, sobre desejar, como saber te amar,
Sobre querer, sobre entender, sem esquecer,
Sobre a verdade e a ilusão,
Quem afinal é você,
Quem de nós vai mostrar realmente o que quer,
O coração nesse furacão, ilhado onde estiver,
O meu querer é complicado demais,
Quero o que não se pode explicar aos normais,
Sobre o porquê de tantos porquês,
E responder,
Entre a razão e a emoção
Eu escolhi você!”

Foi Ele quem Ela escolheu pra dividir sua história, não poderia carregar aquela culpa. Ele não merece ser magoado por uma carência dela. Sentiu que a carência a deixou acéfala. Sentia-se cada vez pior. Correu uma lágrima e rapidamente foi escondida com as mãos.

Ele chegou para o café e encontrou a mesa maravilhosamente arrumada. “Ele nem vai notar”. Viu-a na frente da pia terminando de lavar alguns copos, parecendo evitar olhar para Ele, que se aproximou, abraçou-a e sussurrou no seu ouvido:

- Eu te amo.

13 de dez de 2010

O encontro inesperado

"Que saudade que eu tava de ouvir o meu amor no rádio. Não há um mísero dia que eu não sonhe com essa voz rouca e macia. Sonhar é pouco, imagino o beijo e ele falando coisas no meu ouvido. Essas férias dele quase me mataram. Uma semana de absoluta saudade e solidão".

- Bom dia, Julieta...

- Juju, mãe.

- Julieta Cristina, trouxe tuas roupas pra guardar. Qual é a boa pro final de semana?

- Tem festa à fantasia e...

- Que máximo, faz tempo que não vou a uma festa à fantasia, bem que poderíamos...

- Mãe, eu disse que EU vou. EU.

- E eu to dizendo que quero ir, algum problema?

- Sim, tu é minha mãe.

- E tu é minha filha. Devo ir vestida de Mulher Maravilha. Ela é a minha cara.

- Mãe, não é festa do ridículo.

- Me respeita, guria!

- Pode dar licença? Quero ficar sozinha.

- É bom mesmo, reflita.

Óóóódio, Minha mãe acaba comigo. Poxa, tava louca pra ir nesta festa. Curiosíssissíssíssima pra saber quem é o DJ surpresa. Não acredito que a minha mãe vai ir. Ela sempre me esfola a cara de vergonha.

"Deus, se tu existe, dá juízo pra minha mãe!?!?! Juro que não peço mais nada pro resto da vida".

"Caraleo, vou nessa festa nem que seja morta. Preciso de uma boa fantasia pra nem minha mãe me reconhecer. Perfeito! Nada como um havaiana velho, uma calça de abrigo suja e rasgada. Peraí, a tira do havaiana merece um remendo pra garantir que nada dê errado. Camiseta desbotada e manchada pra dentro das calças, ok! Boné, dentes devidamente careados, opa, pintados, maquiagem pra me parecer mais velha, ou melhor, velho. Pelo amor de meu útero, que eu nunca conheça um homem tão feio quanto eu estou. É o quadro da dor na moldura do desespero. Acho que a mãe vai se incomodar um pouco. Pressinto."

Três horas depois, já na festa...

"EU NÃO ACREDITO! SIMPLESMENTE O MUNDO CONSPIRA CONTRA A MINHA PESSOA! O DJ da festa... é ele, o amor da minha vida. Tá ali na minha frente o cara que eu sempre sonhei. Ele, que a voz já me faz desmaiar. Preciso convencer a mamãe a me ajudar. Mamãe? Eu falei mamãe? Ai, ainda bem que só pensei".

- Mãe, tu precisa me ajudar.

- Julieta, é você? HAHAHAHAHA

- Mãe, tô desesperada.

- Tu tinha me avisado que não era festa do ridículo, mas parece que esqueceu.

- Não brinca, tô sofrendo, me ajuda!

- O que foi, meu anjo?

- Mãe, o Dj da festa é meu sonho de consumo, há tempos, como vou conhecer ele desse jeito?

- É, tu vai espantá-lo.

- Tu não entendeu. Quero que troque de fantasia comigo.

- Sai pra lá, jacaré. Te vira!

- Poxa mãe, tu não faz nada pra me ver feliz, né?

- Pressão psicológica, agora?

- Longe disso, queria que essa noite fosse perfeita.

- Ó, minha filha, meu docinho. Dá aqui um abraço, eu vou te ajudar. Vamos no banheiro.

- Obrigada, mãe... Precisamos mesmo ir de mãos dadas?

- Tu quer que eu me arrependa de te ajudar?

- Não. Já estou bastante envergonhada por hoje.

- Uhuu, casalsinho bacana, hein?! A Bela e a Fera.

"Ai não, eu conheço essa voz"

- Ora, seu, eu preciso ajudar a minha filha a conhecer o DJ dessa festa e...

- Esse monstrinho... é tua filha?

- É, desgraçado!

- Mãe...

- Julieta Cristina, não me segure, fica na tua, eu não vou deixar que um qualquer faça piadinhas só porque tu está um lixo humano e...

- Obrigada, mas...

- Mas nada, Juju. E tu, seu idiota! Minha filha ama aquele cara, e vou provar que meu frufruzinho é linda e que ele ainda vai cair aos pés dela.

- MANHÊ! CHEGA!

- Sai daqui, bocaberta. E quanto a ti, Julieta, não te ajudo mais a se encontrar com o amor da tua vida.

- Não te preocupa, tu acabou de espantá-lo.

Você quer dizer que...

- Sim, o cara que levou de ti as cinco bolsadas nas costas era ele.

- Ai, filha.

- Vamos tentar não ter pena de mim? Já estou mal o suficiente.

- Vamos trocar nossas roupas, vou embora.

- Jura? Ta falando sério?

- Já te fiz mal que chega.

- Tu é a pior mãe mais legal do mundo.

- Divirta-se Juju, e juízo. Só mais uma coisa... como é o nome dele?

- Joelmir.

- Mereceu o chute na canela.

10 de dez de 2010

Conto do sonho real

- Por que essa Sabrina não se conforma que você casou comigo e não com ela? Que inferno, agora todo final de semana é isso, ex-namorada te ligando pra ir no futebol! Aliás, desde quando você tem esse fanatismo todo por teu time?

- A Sabrina ganhou entrada livre no camarote do estádio e nunca tem companhia, ela sabe que é o time que eu torço, então me convida, droga!

- E eu tenho culpa da incompetência da Sabrina? Já faz tanto tempo que vocês terminaram, a gente tá casado há um tempão e ela não arrumou outro ainda, azar o dela, não o meu!

- Eu também não tenho culpa se você nunca quer fazer nada no domingo de tarde!

- Quer saber? Vai pro jogo com a Sabrina, vai encher a cara com a Sabrina, vai pra puta que te pariu com a Sabrina, vou arranjar coisa melhor pra fazer do que ficar olhando pra tua cara. Some daqui!

E foi o que ele fez. Pegou as chaves do carro, vestiu a camisa surrada que ganhou quando o time ainda estava na segunda divisão e foi pro estádio. Ela ficou chorando no sofá. Mas não de tristeza, por medo de ser traída ou por ficar sozinha. Era raiva. Muita raiva. Uma raiva que não passava, que só ia trazendo lembranças horríveis do começo do namoro, quando a Sabrina era gorda e ficava no pé deles, querendo que tudo desse errado pra recuperar o homem que havia sido seu.

"Chega", gritou ela. "Quanto mais eu pensar nisso pior eu fico". Rindo de si mesma por falar sozinha, foi tomar um banho. Ligou o som, bem alto, deixou aquele CD rolar. Ela passou o sábado todo baixando músicas pra compor um CD pra eles curtirem no domingo à tarde, namorando e comemorando o aniversário de casamento. Saiu do banho revigorada, cantarolante, colocou o vestidinho curto e cor de laranja que realçava seu bronzeado, abriu o vinho tinto que tinha comprado e foi pra sala dançar. Gargalhava, bebendo direto da garrafa, dançava, cantava... Sentia-se realmente bem, apenas gostaria de estar acompanhada. Toca a campainha.

Ela abre a porta, garrafa de vinho na mão, ainda cantarolando Marina Lima.

- “Meu amor se você for emboraaaa”... Oi André!


- Oi... Teu marido tá aí?

- Acabou de sair.

Isso fez com que ela lembrasse do sonho da semana passada... Sentiu um forte arrepio subindo pela coluna. Subindo não, descendo... "Quer dizer que tá fazendo festa e nem me convidou?" disse o outro Ele, com um sorriso lindo no canto da boca. "Capaz, entra, é meu convidado de honra!"

Puxou André pela mão, empurrou a porta com o calcanhar - estava com os pés descalços - e conduziu seu convidado até o meio da sala. "Pronto, agora é só dançar e cantar. Quer vinho?"

André aparentou surpresa ao perceber que estavam sozinhos em casa, olhou para os lados. "André, tu é meu único convidado, presta atenção!" e gargalhava. Não era efeito do vinho, era felicidade. E uma sensação de liberdade que só sentiu quando mergulhou em Abrolhos. Mas não queria pensar em baleias jubarte agora...

"Então, quer uma taça ou toma comigo?" perguntou, dando um grande gole de vinho e olhando-o nos olhos. Aquele delicioso arrepio voltou, descendo mais um pouco por sua coluna. André pegou a garrafa e deu alguns goles, num misto de sede e busca de coragem. "Qual é o motivo da festa?"

- Tô comemorando meu aniversário de casamento.

- Sem o marido?

- Ele tá comemorando com a Sabrina, lá no estádio.

Não deveria ter dito aquilo. As lágrimas vieram como uma cascata, parou de dançar, sentou-se no sofá com as mãos no rosto. André sentou ao seu lado, passou o braço (aquele braço forte) por seus ombros e puxou-a em direção a seu peito. "Não fica assim, você sabe que ele é esquecido mesmo. E a Sabrina é só uma amiga, eu posso te garantir, também sou amigo dela". O choro foi diminuindo, mas não pelas palavras de André. Foi pelo seu cheiro. Aquele perfume que sempre ficava no carro dela depois das caronas, o cheiro que sentia quando se cumprimentavam. O cheiro que sentiu quando dançou com ele no carnaval. Mesmo suado, cheira bem. "Vocês são o casal mais legal que conheço, parecem perfeitos um para o outro...".

Ela escutava ao longe as palavras de André, mas aquele cheiro enlouquecedor não deixava que pensasse em mais nada. Em busca da fonte do perfume, aproximou-se do pescoço do amigo de seu marido, respirando fundo, como se quisesse tirar para si aquele cheiro todo. O arrepio aumentava, descia cada vez mais, tomava conta de seu corpo todo. Dando-se conta do que estava acontecendo, André tentou por um instante afastá-la de seu corpo, segurou seus ombros mas ela não queria perder o contato e enlaçou-o pelo pescoço. Ficaram com os lábios perigosamente próximos, olhos nos olhos...

"Silenciosamente, Eu te falo com paixão ,Eu te amo calado Como quem ouve uma sinfonia De silêncio e de luz.Nos somos medo e desejo somos.Feitos de silêncio e sons.Tem certas coisas que eu não sei dizer"

As mãos de André passaram dos ombros para as costas dela, enquanto silenciosamente aproximou-se. O centímetro que faltava para que suas bocas se tocassem. Por um breve instante, ficaram imóveis, respiração presa, ainda olhos nos olhos. O beijo começou lento, cuidadoso, quase com medo. Ela, trêmula, descontrolada, gemeu baixinho e colou seu corpo no dele. André, que até então procurava uma maneira de não se entregar ao desejo que lhe consumia há meses, perdeu o último suspiro de moralidade e deixou que seu corpo pesasse sobre o dela. Seja por efeito do vinho ou do tesão, os arrepios aumentavam, a intensidade do beijo crescia, as roupas atrapalhavam a inevitável entrega que não demorou a acontecer ali mesmo, no chão da sala.

O vestido dela foi subindo, as alças descendo. André sem camisa, a calça jogada em algum canto, corpos suados, respiração ofegante, sem camisinha ou qualquer lembrança de que isso realmente fosse necessário.
Ficaram por mais algum tempo aos beijos, recuperando o fôlego e as forças, ainda em silêncio. Sabiam que em algum momento teriam de falar sobre o que estava acontecendo, mas não agora. Esperaram tanto por isso, desejaram-se tanto sem esperanças de matar a vontade, por tantas vezes esconderam a vontade insana que sentiam. Aquele momento seria dedicado apenas ao prazer.

O CD chegou ao fim, assim como o vinho. Conversaram mais um pouco sobre as músicas que ouviram, comentaram da qualidade do vinho, do calor que fazia nesse verão, beijaram-se muito, transaram novamente. Por volta das sete ele se despediu com um longo beijo e um "até amanhã, na academia" e foi embora. Ela ficou deitada no sofá da sala, de vestido mas ainda sem calcinha, sorridente e realizada. "Foi muito melhor do que no mais quente dos meus sonhos, ele é incrível", pensava, inebriada... Deu play no som pelo controle remoto, cantarolava novamente junto com Marina Lima, a campainha tocou novamente. Vestiu a calcinha e foi atender à porta toda sorridente, pensando ser André para um último beijo. Abriu a porta e seu sorriso se desfez. Era Ele, com flores e uma garrafa de champanhe, os olhos muito vermelhos.


- Amor, você me perdoa? Passei a tarde toda na casa dos meus pais, chorando e procurando uma forma de te pedir desculpas.

Confusa, sem saber como, ou melhor, o que deveria sentir, deu espaço para que Ele entrasse, fechou a porta e fico parada, olhando para a bagunça na sala, que ainda exalava o cheiro do André, seu marido parado com os presentes na mão, com um sorriso triste nos lábios.

E agora?

9 de dez de 2010

Miopia Carnavalesca

"Nem dá pra acreditar que minhas pseudo-férias já acabaram. A única coisa que fiz foi assistir BBB e cuidar do abostado do meu irmão. Aquele maldito estágio me mata. Sem décimo terceiro, sem férias, é pra frustrar qualquer ser humano em transição para o mercado de trabalho. Apesar de tudo, o carnaval foi interessante. Muito interessante, eu diria. Tudo bem que amor de carnaval não deve ser levado a sério, mas aquele sorriso... Nossa Senhora da bicicletinha, daí-me equilíbrio pra não enlouquecer. Quer sorriso!!! Ai, morri..."

"Ele só pode ser gay, não é possível que exista um cara tão perfeito pra mim e, o melhor, com nome normal: Mário. Chega a ser mágico.
Mário. Aiii que coisa fofa!".

- Jujuuuuuuuuuuuu. Não esquece da tua aula, tu vai se atrasar.

Sempre tem uma mãe..."

Não vou me atrasar e jamais esqueço quando o inferno bate na minha porta, não se preocupe... mãe!

Por que ela insiste em me deixar de mau-humor? Saco. Mas e o Mário? Que coisinha, me fez até esquecer o Enetermos. Aliás, Enetermos superou todas as minhas expectativas em relacionamento. Óbvio que o nome foi a primeira coisa que me fez achar que ele fosse o amor da minha vida".

É, eu fui feliz ao lado de um cara que se chama Enetermos, e eu gostei dessa mala. Pronto, passou. Não tinha como continuarmos juntos. Jamais aceitaria ter um filho com nome de Pedeferimento. Nem morta."

Brr.. brr.. brr...

"Meu celular ta vibrando em algum lugar"

Brr... brr.. brr.

- Sinfoniaaa, devolve isso... Aaaaah, olha o que tu fez com meu celular! Agora ta babado de cachorro... cadela.. ah, ta babaaadoo.. Que noooojo.. odeio.

"Odeio número desconhecido também"

- Alô?!

- Oi.

- Quem ta falando?

- Já esqueceu de mim?

- Olha, eu nunca lembro de quem eu não conheço.

- Teu carnaval foi tão ruim assim? Que tal um vinho pra acalmar?

- Mário? É você? ("Me sinto idiota neste momento")

- Parabéns, você acabou de ganhar um gambá morto.

- Ah! Só o vinho já me basta. Mas como conseguiu meu número?

- Um amigão meu disse que te conhecia quando comentei de você.

- Andou falando de mim?

- Bem, mas falei.

- Hmm, e posso saber quem é o amigo?

- Você morreria rindo se soubesse o nome dele.

- Se ele tem meu telefone, acho que é bem possível que eu também o conheça...

- É verdade!

- Então diga, não sou preconceituosa quanto a nomes.

- Bem, ele se chama Enetermos.

- Você... tu.. er... tipo... Vocês se conhecem?

- Nossa! Parece que não gosta dele.

- Gosto sim, mas... Vocês?!?!

- É, ele é meu melhor amigo só...

- Mário, tenho que ir pra aula. Adorei que meu ligou, mas preciso ir... beijo.

"Nããão! Não dá pra acreditar que é o mesmo Mário que o Ene queria tanto que eu conhecesse. Aliás, agora conheço, e conheço bem mais que o Ene imagina. Ou agora, sabe. Tentativa de reatar namoro abortada. CUPIDO VESGO!” "

- Julieeeta! Teu ônibus passa daqui a pouco. Já ta pronta?

- Tchau mãe, to indo.

"Preciso de férias, definitivamente"

7 de dez de 2010

Conto do começo

“Foi no dia em que eles se encontraram na praia do Pinhal...”

É, a história poderia muito bem ter começado assim, se Ele não tivesse uma terrível aversão à praia. Na verdade eles se conheceram bem por acaso mesmo, se é que acasos existem... Bem, essa é outra discussão.
Noite de sábado, festa, energia no ar e ele sem o menor ânimo de ir a lugar algum. Tinha dois ingressos comprados para o badalado show da noite, ingressos esses que só foram comprados porque Sabrina, sua namorada na época, tinha insistido que queria ir. A noite se aproximava, Ele ainda sem vontade de sair passa no horário combinado na casa de Sabrina, que o recebe toda desarrumada e vai logo dizendo que não se sentia bem e que não iria sair naquela noite. Ele retruca dizendo que gastou para ver um show que Ele já tinha assistido, e que só comprou os ingressos porque Sabrina queria ir. Sabrina dá de ombros, com ar de quem nada poderia fazer.
Ele sai da casa de Sabrina e liga para um amigo, perguntando se queria comprar os ingressos. O Amigo querendo companhia, o convence a ir vender os ingressos no local da festa, e assim fizeram. Logo que chegaram já conseguiram vender um dos ingressos e esse foi o estopim para o Amigo puxá-lo para dentro da festa.

Ainda meio sem jeito, sem ânimo, fica ali no meio da multidão esperando que algo mágico, ou simplesmente diferente, acontecesse. Se bem que ele nunca acreditou nessas coisas.

Um pouco antes de começar o show, algumas pessoas abordam os dois, Ele e o amigo, para falar do show do dia anterior, no qual eles eram as ‘estrelas’. Uma dessas pessoas era Ela, sorridente e brincalhona que pede para tirar uma foto com os dois, e claro que atenderam ao pedido. A foto? Sim a foto foi um prelúdio do que viria a acontecer, Ele praticamente abraçado com Ela. Naquela noite nada aconteceu além disso, os dois mal se falaram. Ela não iria àquele show nem que pagassem. Mentira. Ganhou o ingresso de amigos e foi. Resolveu que aquele dia cessaria a abstinência de álcool e faria festa com os amigos. Foi o que ela fez.

Ela se divertia se escondendo do ex, no meio da multidão. Divertia-se assustando pessoas desconhecidas, gritando nos ouvidos delas. Divertia-se tirando fotos com os carinhas que Ela viu em cima do palco na noite anterior, e um deles era Ele. Ele ria (dela? Da situação?) No outro dia, Ela se lembrava dele, sem saber se era pela vergonha da própria cara-de-pau ou porque ele trazia alguma lembrança que ela não sabia definir, e assim o procurou pela internet. E... achou.

Descobriram várias coisas em comum, músicas, textos, filmes, comidas e até aquela aversão à praia.

Tornaram-se amigos... E que amizade! Assim passaram-se alguns meses, com raros encontros, mas com uma afinidade e intimidade, mesmo que virtual, até então sem explicação. Ela desacreditava em sentimentos, ele desacreditava em relacionamentos...

"Wouldn't it be nice if we were older
Then we wouldn't have to wait so long
And wouldn't it be nice to live together
In the kind of world where we belong
You know its gonna make it that much better
When we can say goodnight and sleep together
Wouldn't it be nice if we could wake up
In the morning when the day is new
And after having spent the day together
Hold each other close the whole night through
The happy times together we've been spending
I wish that every kiss was never ending
Oh Wouldn't it be nice
Maybe if we think and wish and hope and pray it might come true (run, run, run)
Baby then there wouldn't be a single thing we couldn't do
We could be married (we could be married)
And then we'd be happy (then we'd be happy)
Wouldn't it be nice (ba ba ba ba ba ba ba ba)
You know it seems the more we talk about it

It only makes it worse to live without it
But lets talk about it
Oh, wouldn't it be nice
good night my baby
sleep tight my babygood
night my baby
sleep tight my baby
good night my baby
sleep tight my baby
good night my baby
sleep tight my baby"

Ela está melancólica. Só quer saber onde foi que se perdeu.

6 de dez de 2010

A cada 4 horas

"Eu sei que tenho sorte em trabalhar só um sábado por mês, mas a maldita da escala tinha que me escolher bem no fim de semana que menstruei?

Pior é que hoje tem festa, queria ir de calça branca, mas aí teria que usar absorvente interno. e sempre esqueço de trocar depois de 4 horas... Azar, vou trabalhar usando absorvente interno, mesmo,. pra acostumar com a troca.

Puta que pariu, logo hoje esse escritório tinha que ficar tão cheio de gente? Aiii, xiriguidum, que estagiário lEEEndo! Ainda bem que vim de saia!

- Bom dia Julieta Cristina, já conhece o novo estagiário?

- Ainda não Dr. Roque, bom dia pro senhor também ("Velho filho de uma puta gorda, pra que me chamar por essa maldição de nome? Aposto que a vadia da secretária dele não foi apresentada como Ginólea...").

- Oi, tudo bem? Meu nome é esse que o chefe disse, mas o pessoal me chama de Cris.

- Olá Cris, estou um tanto quanto nervoso mas vou bem... Sou o Aélcio.

“Putz grila, Aélcio... meu pai, pelo menos, buscou inspiração em Shakespeare..."

- Onde vai estagiar, Aécio?

- É Aélcio. Vou ser teu estagiário, o chefe não te falou?

- É mesmo? Legal, o serviço ta acumulando aqui mesmo, tô sozinha nesse setor.

"E fico aqui sem fazer nada, descalça e jogando paciência. Já vi que esse guri vai me atrapalhar. E logo hoje, que menstruei e comi feijão na janta de ontem? O banheiro vai ficar pesteado e ele vai saber que fui eu!"

- Bem, vamos trabalhar. A esposa do chefe trocou o mobiliário do escritório, precisamos organizar os fichários.

- O Dr. Roque já havia me solicitado este procedimento.

- Élcio, tu sempre fala assim tão certinho?

- Meu nome é Aélcio, e sim, sempre busco a correção ortográfica.

"Caralhos me fodam, que guri chato! E já tá passando da hora de trocar a porra do absorvente! Deixa-me ver: celular, bolsinha com absorv... Saco, a saia não tem bolso. Azar, vai mocadinho na mão. Droooga, a pia ta toda molhada, vou ter que ficar com o celular pendurado na boca, ainda bem que ele tem piercing! Vamos lá... tira, coloca nãããooo acreditoooo! A porra do absorvente. caiu dentro do vaso! Não, para o mundo que eu quero descer aqui... O banheiro tava entupido até ontem, o chefe gastou um dinheirão pra arrumar... Tô fudida, sei que to... E a culpa é desse merda aí, o Sr. Certinho, se não fosse ele eu podia ter deixado o celular na sala! Tá, azar, já era, vou colocar o outro e sair dessa merda de banheiro. Putz, agora até o plastiquinho caiu no vaso! Foda-se."
- E aí AÉLCIO, tudo certinho?

- Tudo certo, Cris. Já organizei os fichários em ordem alfabética, e dentro desta ordem a cronológica, assim fica mais fácil a localização dos clientes.

"Desgraçado! Eu ia enrolar a semana inteira com a porra do fichário!"

- Puxa vida, quanta competência! O que você ta estudando?

- Biblioteconomia.

"Já vi tudo. Um estudante de biblioteconomia e uma de fisioterapia, assunto zero.".

Quatro horas de silêncio depois...

"Beleza, meio dia, hora de fugir daqui e ir direto pra casa me arrumar pra festa da noite!"

(Festa perfeita, JuCris estava linda e ficou bêbada, como sempre).

"Podiam inventar um absorvente interno que pudesse ficar 24 horas. Saco. Ainda vou ter que trocar a calcinha, porque a merda do absorvente não gruda em calcinha de lycra. Se eu ficar me mexendo muito vou acabar vomitando. Ó, já tô enjoada e nem colei a merda da aba da merda do absorvente na merda da calcinha... tem que dar tempo, tem que dar tempo, deu tempo, bléééé"
(comentários se fazem desnecessários).

- Sinfonia, sai do quarto, quero dormir!

- Julietaaaaaa!

- Que tu quer, ET de São Tomé das Letras?

- Esse paninho vermelho no chão do banheiro é teu?

"Puta que me pariu, esqueci a merda da calcinha no banheiro”.

- Dá isso aqui, guri fedorento.

"Ai que vergonha, os amiguinhos dele tão aqui em casa, será que viram?
Estranho, coceirinha na perseguida...Drogaaa... esqueci de tirar o absorvente interno antes de dormirrr..."

3 de dez de 2010

Conto de Machado de Assis

Os constantes sonhos com André deixaram-na abalada. A crescente amizade entre seu marido e seu “amante onírico” aumentava sua confusão. André virou visita e companhia constante, parecia agora uma extensão do casal.

Ela não sabe se sonha tanto com o outro ele por seu casamento estar morno. Sim, morno, pois Ele está uma pedra de gelo e Ela anda pegando fogo. Por que Machado de Assis continua escrevendo a história de sua vida? Por que não o Drummond, com suas poesias eróticas, ou pelo menos Nelson Rodrigues pra acrescentar alguma emoção – mesmo que adicione um fim trágico. Mas Machado de Assis?

Sente-se Capitu, num dilema interminável... Bentinho já não a satisfaz, é quase um ser desinteressante que co-habita sua casa. E sempre olha de uma forma estranha quando Ela está conversando com Escobar/André... Aquela noite de carnaval, quando Ela animadamente sambava, fantasiada de Mulher Maravilha, Ele sentado bebendo mais cerveja, o outro ele ao lado dela, animada e desajeitadamente sambando, também. “Bentinho” olhava, mas quem pode saber o que se passava na cabeça dele? Ela não sabe se desconfiança, se ficou alegre por ver um (ultimamente) raro sorriso no rosto de sua esposa, ou se simplesmente pensava que a cerveja estava quente.

“Mas toda essa confusão já pode ser considerada uma traição?” pensava ela... Não é só confusão, sempre que olha para André sente um calor inexplicável. Sente arrepios, às vezes fica com a boca seca. Ela sabe perfeitamente o que isso quer dizer: tesão. Capitu morre de tesão por Escobar, mas a existência (marital) de Bentinho a impedem de dar o tão desejado passo à frente.

“Tenho um peito de lata

E um nó de gravata

No coração

Tenho uma vida sensata

Sem emoção

Tenho uma pressa danada

Não paro pra nada

Não presto atenção

Nos versos desta canção

Inútil

Tira a pedra do caminho

Serve mais um vinho

Bota vento no moinho

Bota pra correr

Bota força nessa coisa

Que se a coisa pára

A gente fica cara a cara”

“Cala a boca, Chico Buarque, minha vida tragicômica já tá sofrida demais, não preciso da tua voz me lembrando de que sou covarde”, Ela disse em voz alta. Sentado à sua frente, Ele olhou por cima da página do jornal, por cima das lentes dos óculos demodê, sorriu com um dos cantos da boca e perguntou: “Covarde por que, amor?”.

Ela voltou à realidade, incorporou a Capitu que gritava dentro de si e, com olhos típicos da ressaca em que estava, responde “de trocar de carro. Teria que fazer um leasing, mas o IOF tá me matando”...

Ele resolve deixar o caderno de esportes para mais tarde e ataca os classificados, na seção de veículos, e Ela vai lavar a louça do café da manhã, já que hoje é domingo e André vem para o almoço...

2 de dez de 2010

Ado, a-ado, o sonho tá acabado…

- Bomxibomxibombombom, Julieta! Bomxibomxibombombom, Julieta!

- Sai daqui, gordo desnecessário!! Tô me maquiando e tu me atrapalha,vai ver se eu tô na esquina lá em Passo Fundo, seu merda superdesenvolvido!

Vê se isso é música que se cante... Credo. Vai saber o que a mãe e o pai do PA tavam escutando quando fizeram ele? Devia ser Gera Samba. Será por isso que ele é um bundinha, aprendiz de bundão? Azar o dele, pelo menos meu pai curte música erudita. Tá, ele também é um pé no saco, mas pelo menos é culto e instigante. Cris, abstrai esse papo de família, hoje é o teu dia, a formatura vai ser tudibão e tu emagreceu os quinhentos gramas que te impediam de usar o top tomara-que-caia de paetês!

- Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia! Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia! Afffff... fiquei com essa tranqueira na cabeça. Azar, tô feliz! Daqui a pouco a Lidy passa aqui pra me pegar, depois é só alegria,xiriguidum!

- Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia! Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia!

- Lidy, que loucurama, só tem gato nessa formatura! Que curso é mesmo?

- Astrologia, Física Quântica e Medicina Alternativa, eles se juntaram se não seriam poucos convidados...

- Se eu soubesse que esses cursos eram tão bem freqüentados, eu não teria feito vestiba pra Jornalismo! Aliás, isso ia me poupar de ouvir muitas piadas sem graça...

- Cris, sua bocó, 90% dos gatos dessa festa são bibas, os outros 10%ainda não se decidiram se são álcool ou gasolina...

- Ui! Medo! Será que eu consigo trazer algum indeciso pra luz?

- Ué, tenta, tu tá linda!

- Tá, vou ligar o radar e vamos ver no que dou, quer dizer, no que dá...

Hmmm... Esse tá de sapato roxo, certo que é biba. Calça xadrez... não. Óculos fundo double de garrafa, tô fora! Cabelo com luzes, fora também. Aquele ali parece que fez a barba com cera quente, credo! Uma guria com o vestido igual ao da mãe... hahahaha, na mãe fica melhor! Aquele ali tá dançando Kung Fu Fighting, também deve ser biba... Tá ficando difícil!

- Lidy, olha que gracinha aquele ali de preto, cabelo meio arrepiadinho, com um copo de uísque na mão, ali... encostado na parede, tá vendo?

- Criiis, eu já vi essa diliça na facul! Ele veio de outra cidade, acho que de São Paulo. Tá no quinto semestre de economia, a Cami tá de olho nele.

- Azar, detesto a Cami, vou furar a fila! Ele parece bem desnorteado, teoricamente não é indeciso. Conhece algum daqueles nerds ao lado dele?

- Conheço o meu primo, o Davaldísio, que tá de camisa xadrez vermelha, o de óculos.

- Davaoquê? Fala sério, Lidy...

- Qualé, Julieta Cristina!

- Tá, parei, Lidisleinny...

Respira fundo, Cris. Não é pra parecer atirada, nem quando a gente tá se atirando!

- Oi, Vadinho, oi, meninos! Gostando da festa?

- Oi Cris. Até que enfim alguém que não me chama pelo nome inteiro...

- Eu posso dizer o mesmo (“Xiriguidum, até a voz dele é interessante! Mas pela frase, o nome dele deve ser uma derrota também. Mas quem sou eu pra reclamar?”)

- Oi, acho que ainda não nos conhecemos, sou a Cris, do terceiro semestre de jornalismo, muito prazer.

(Grande, menina! Baita profissional!).

- Oi Cris, meus amigos me chamam de Focé, acabo de me transferir de São Paulo pra cá, estudo Economia.

- Interessante, meu pai se formou em Economia.

- Ah é? E ele exerce a profissão?

- Na verdade não, depois de se formar, ele estudou Filosofia e passa a vida pensando e tocando violino.

- Nossa, que coincidência, aconteceu exatamente a mesma coisa com o meu pai!

Momentos de silêncio, daria pra ouvir o cricrilar de um grilo, até a música teve uma pausa súbita. Começa a tocar a Dança do Quadrado. Cris, muito desconfiada:
- Focé, esse é o teu apelido, né?

Focé, aparentemente muito desconfiado:

- Sim... Cris, né?

- É. Meu nome é meio esquisito, não tanto quanto Davaldísio, mas meu pai tem uma certa fixação por Shakespeare, meio que se empolgou quando foi me registrar. Aliás, meu nome foi a causa da separação dele com a minha mãe.

- Não acredito. Tu é a Julieta Cristina, minha irmã?

- Adolfo Célio, o que começa os emails com "não sou dado a redigir longas missivas"? É pra rir ou pra chorar?

- Deve ser pra rir, a única menina que me interessou na festa é minha irmã, tem coisas que só acontecem comigo mesmo!

- Não mano, isso é de família! Vamos dançar?

- Eu não sei dançar funk...

- Sem problemas, minha amiga Antônia me ensinou a dançar essa lá na facul. É assim ó: ado, a-ado, cada um no seu quadrado...

30 de nov de 2010

Conto da traição

Ele sentou-se à mesa para tomar o café da manhã, e dando-se conta do quão atrasado estava, saiu correndo de casa. Ela, aproveitando sua manhã de folga, acorda e resolve que vai fazer yoga. A campainha toca, Ela respira fundo mas atende. Quem quer que fosse já estava atrapalhando seus planos para a manhã. Ela abre a porta: era o outro Ele, André. Simplesmente perfeito, na sua frente, parecendo que os olhos realmente a procuravam.

- Bom dia. Seu marido está em casa?

- Acabou de sair – diz Ela, ainda desconsertada.

- Era tudo o que precisava saber.

André a agarra pela cintura e os olhares se encontram. Ela empurra a porta, que fecha em uma ‘bac’, ainda meio assustada, confusa, sem saber direito como reagir. Ela apenas o olha, sem saber também se a vontade era de se entregar ou de fugir.

André diz o quanto a deseja, que não agüenta mais controlar seus instintos, e a domina com suas palavras.

Beija-a.

Ela beija... o outro Ele, que passa suas mãos quentes pelo corpo dela e a deixa louca de desejo, e o beija com mais fervor e arranha, lhe tira a camiseta. Assim, atracados, sobem até o quarto. O outro ele deita Ela na cama e beija todo seu corpo, tirando-lhe a roupa aos poucos, passando as mãos como que decorando cada detalhe do que sentia. A pegada dele, o jeito que André a tocava e a fazia sentir-se desejada, isso a enlouquecia, fazia Ela querer mais.

No radio, Prince – Purple Rain, abraçando o momento.

I never meant to cause to any sorrow
I never meant to cause you any pain
I only wanted to one time see you laughing
Only wanted to see you laughing
In the purple rain
Purple rain
Only wanted to see you bathing
In the purple rain
I never wanted to be your weekend love
I only wanted to be some kind of friend,
hey, Baby,
I could never steal you from another
It's such a shame our friendship had to end
Purple rain
Only wanted to see you under neath the purple rain
Honey, I know, I know, I know
Times are changing
It's time we all reach out for something new
That means you to
You say you want a leader
But you can't seen to make up you mind
I think you better close it
And let me guide you
Until the purple rain
Purple rain
Only wanted to see you In the purple rain

As mãos dela envolvem o corpo dele agora, ele a beija no pescoço. Arrepios. As mãos dela o agarram com mais força. Ela o quer, deseja, quer ali e já. O outro Ele a quer, sussurra em seu ouvido o quanto ele quer devorá-la todinha, ali mesmo.

Os corpos se unem, se fazem um só.

De repente o celular toca, Ela não quer atender, ignora. O celular não para. Pode ser Ele. Sim, é Ele. Ela deve atender. Estica o braço pra alcançar o aparelho, o outro Ele a beija no pescoço, morde seu queixo. Ela o encara, o beija. Celular tocando, ela atende enquanto André passa a língua no corpo dela. O corpo que tantas vezes o fez perder a linha, agora ali, todo dele. Celular toca. Ela agarra André, fica por cima dele, dominando o outro Ele, beijando o outro Ele, fazendo entender o quanto o outro ele a excita, a enlouquece. Continua tocando o maldito celular. Ela atende. Celular toca. Ela já havia atendido. Celular não para.

Ela acorda com o despertador na orelha. Um misto de sentimentos. Não gostou de ter acordado, sentia-se feliz. Contrariada, foi tomar uma ducha fria.

29 de nov de 2010

Um brinde às amigas

- Juju, eu ganhei uma garrafa de cachaça de pitanga, tem um sabor maravilhoso. Me deu um ânimo que estou com vontade de fazer um jantar pra gente beber.

- A gente? Mãe, onde eu entro nessa história?

- Convidando nossas amigas para virem aqui em casa.

- Minhas amigas, você quer dizer.

- Nossas.

- Mãe, elas são minhas amigas. M-I-N-H-A-S. Não é porque você escuta atrás da porta pra dar conselhos furados, que elas te consideram amiga.

- Elas gostam de saber minha opinião.

- Elas fingem que gostam.

- Elas sempre me ouvem.

- Pra fazer o contrário do que você diz.

- Convida elas, assim saberemos.

- Tá.

- Manhêêê, o que são essas bolinhas vermelhas no fundo dessa garrafa?

- É filhote de abóbora, bocaberta, não mexe nisso, coisa.

- Mãe, olha a Julieta me xingando.

- Parem vocês dois. Juju, vai ligar ‘pras’ nossas amigas e Paulo Afonso, me devolve isso aqui que não é pro teu bico.

- O que são mamãe?

- Pitangas.

- Ah! Adoro tudo o que tem pitanga.

- E o que não tem também, gordo infame.

- Sai Julieta. Não ouviu a mãe dizer pra você ligar para as amigas de vocês? Né mãe?

- É... vocês dois!

E no jantar, com as amigas...

- Quero propor um jogo.

- Mãe, isso não vai dar certo.

- Ah Cris, deixa tua mãe falar, pode ser divertido.

- Ouviu, Juju? Bom, a idéia é a seguinte: como aqui estamos apenas entre amigas, vamos fazer o jogo da verdade, quem mentir e ser desmascarada toma um ‘martelinho’ dessa maravilha que ganhei.

- Mãe, do jeito que as gurias são, vão mentir de propósito.

- Cala a boca Cris, a gente não vai fazer isso.

- O jogo acaba quando acabar a bebida.

- Feito.

“Jogo já terminou? Ah sim, todas bêbadas, menos a mãe, ela conseguiu perguntar pra todo mundo se elas realmente a consideravam como amiga. Hahaha, deve estar desolada. Azar, foi ela quem inventou o jogo.”

“Ei, eu não consigo me fixar na conversa, tô me sentindo atolada nesse sofá. Mãe, o PA ta comendo as pitangas. Mãe, olha ele. Mãe, cuida. Peraí, eu não consigo falar, minha língua ta amortecida”
- Que porcaria de lugar é esse? Acho que já estive aqui. PA, o que você faz nessa cama... com soro?!?!

- Você também tá tomando.

- Como é? Opa. É verdade!

- Mana, enfim concordamos em algo. Entramos em coma alcoólico.

- Ai não. Morri!

26 de nov de 2010

Conto dos braços malhados

Outra noite quente na academia, ela ta de tpm e com fome. Nada de anormal, nada que cause uma queda de pressão, mas queria comer algo bem gostoso, frito, grande... uma gordice, tipo X-Tudo com muita mostarda. Nada de H2O ou Coca Zero, queria uma cerveja gelada... Mas ao invés disso tava lá, toda suada, fazendo força naquele maldito supino. "Pra quê?", pensava ela... Quando experimenta uma calça, não é com os braços que se preocupa. Quando vai de biquíni á praia, não é pra ver o bíceps que ela se contorce de costas no espelho.
E o pior da seção de tortura: ele. Agora resolveu que vai ser o personal trainer dela, "ajudando" a malhar. Está posicionado atrás do aparelho, contando os movimentos e falando palavras de incentivo como "vai amor, só faltam três". Ela só conseguia pensar no som de “Bili Rubina”:

"Meu amor, eu te odeio
Você me perturba
E um dia ainda vou conseguir te matar

Meu amor, não sei o que eu sinto
Tô num labirinto
E esqueci de trazer um fio prá retornar

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo

Meu amor, não fale comigo
Sou teu inimigo
E um dia ainda vou conseguir te matar

Amor, cale tua boca
E tire tua roupa, benzinho
E vamos acalmar nossa dor

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo"

E ele ainda ali, animado, achando que ela contorcia o rosto por fazer força pra levantar o peso. Mas era raiva mesmo... ele, como sempre, cheio de boa vontade, querendo ajudar. Foi o primeiro homem que a convenceu a malhar, mesmo dizendo que ela é a maior gostosa da face da terra. Ela sabe que não é, mas ele a faz acreditar nisso sempre. Ele a mantém com a auto-estima lá em cima... "bora, amor, é o último". Ela sorriu de leve, respirou fundo, terminou o exercício e passou para o próximo aparelho. "Zeus, como eu odeio malhar braço..."

25 de nov de 2010

Pra toda regra há uma exceção

Cóóóliicaaa!

Quem vai conseguir se concentrar com uma dor dessas? Ainda mais que vou me encontrar com o Gustavo depois da aula.

Ai...

Gustavo, um nome normal! Obrigada meu anjinho dos nomes esquisitos, dessa vez tu foi bem legal comigo. Até to vendo (ai, que dor) eu chamando ele de Gu, quanto estivermos juntos.

Dóóóíiiii.

“Meu” Gu.

Ai ai"

Ah!, Só podia ser eu, vou ter que mandar mensagem pra mãe. O Gu..., vou ver ele hoje: alegria mode ON.

* Mãe, troquei a bolsa e acabei me esquecendo de pegar absorvente, quando passar aqui já traz um pra mim e algo pra dor. Bjo*

(mensagem enviada com sucesso para Gustavo)

Pra quem?

Eu não posso acreditar que eu fiz isso! Não. Fruta que partiu, eu fiz. O que o Gu vai pensar? Que mandei a mensagem errada de propósito só pra ver a reação dele? Idiota!

Telefone ta tocando, é ele. Vou correr pra fora da sala de aula. Cris, não precisa tropeçar na mesa... nem na cadeira... nem na mochila do colega... nem no fio do retro-projetor. Quem enfiou esse lixo de lixeira no meu caminho?

- Alô.

- Oi Julieta

- Oi, Gu... Gustavo!

- Problemas?

- É... e.. bem capaz, nenhum. Por?

- Recebi uma mensagem tua.

- Recebeu (como se não soubesse - Idiota ao cubo)?.

- É, você está bem?

- Sim, ótima!

- Pois então...

("Já sei onde vai parar, vou sair por cima nessa história.")

- Olha só, Gustavo, não tô a fim de sair contigo mesmo, você não me merece, é imaturo, espero que não me procure mais.

"Cóóóólica"

- Julie...

- Sem mais Gustavo, preciso voltar pra aula, você está atrapalhando. Passar bem!

Desligo o telefone. Cinco minutos depois...

- MENSAGEM RECEBIDA -
* Não sei o que houve, só queria combinar um programinha mais 'light', caseiro, já que imagino que você esteja com dores, mas se preferiu assim, passar bem*.

Juro que fico bem. Alguém tem um revólver aí?

23 de nov de 2010

Conto do telecatch

“Amor, tá começando a luta, vem logo!”

“Eba” pensa ela, “adoro essas lutas coreografadas do SBT”, pega a pipoca no microondas e vai pra sala. Aconchega-se no sofá, deita a cabeça sobre a coxa dele e começa a rir da indumentária do desafiante. “Linda, se um dia eu pensar em aceitar dinheiro pra fazer isso, com esse tipo de roupa, me interna, tá?”, e os dois caíram na risada.

A luta seguia, descaradamente coreografada. Ela ganhava cafuné na nuca, foi ficando preguiçosa e acabou por dormir. Ele percebeu e diminuiu o volume da televisão, afinal ela acordou cedo pra fazer faxina em pleno sábado, enquanto ele passeava com os cachorros. Pensava em como ela é dedicada a tudo o que faz, desde uma faxina até a preparação de material para uma reunião importante no trabalho, sem descuidar dele, da casa e da própria aparência. Aliás, que aparência! Ela tem estilo, tem classe até de biquíni fio dental. É alegre, criativa, uma santa na rua e uma... “Eu devo ter sido uma pessoa muito boa em outra vida.”

Ela abre os olhos por um momento, quando o locutor grita “fim de luta por nocaute”, parece um pouco assustada. Olha em volta e lembra que está no sofá com ele. Sorri, ajeita-se melhor e cochila novamente.

Ao se virar, o vestido subiu e deixou seu corpo á mostra. Ele esqueceu a luta que recomeçava e ficou olhando as curvas de sua esposa. Malhada, bronzeada, as formas mais bonitas do que quando se conheceram, e já se vão anos do começo da relação. Lembrou da música que dedicou a ela num karaokê, totalmente bêbado, quando a pediu em casamento...”tens um não sei o que de paraíso e o corpo mais preciso que o mais lindo dos mortais, tens uma beleza infinita e a boca mais bonita que a minha já tocou...”

Seus olhos, repentinamente, se encheram de lágrimas, sentiu-se culpado.

“Se eu amo tanto minha mulher, se admiro tanto, porque penso tanto na Sabrina?”

22 de nov de 2010

Não tem cara de tiozinho

- Porra mãe, me acordar cedo no domingo pra ir a almoço beneficente é o fim da várzea, né?

- Julieta Cristina, isso são modos de falar com a tua mãe? Puta que pariu, hein?

Bom, ela mesma respondeu, não preciso dizer mais nada...

- E esse gordo, ele tá indo pra levar o almoço beneficente à falência? Aliás, é em benefício de quem mesmo?

- Sei lá, Julieta, é da igreja do bairro.

- Ah tá, em benefício próprio então.

- Caralho Julieta, isso é jeito de falar?

- Ué, achei que depois da conversão pro espiritismo...

- É zen-budismo, sua aculturada. Droga Paulo Afonso, sai logo do banheiro! Julieta, vai limpar o cocô que a Sinfonia fez no corredor! Se ajeitem logo, o Fernando já deve estar chegando. Vocês só me atrasam, dá pra fazer alguma coisa direito? Julieta Cristina, essa zona que você chama de quarto vai ficar assim? Paulo Afonso, sai do banheiro, quero ajeitar meu cabelo! Cadê o lerdo do Fernando que não chega nunca?

Caramba, parece que o zen-budismo deixou minha mãe meio tensa... Tá, pelo menos a Lidi e a Naty também vão nesse almoço falido. Saco, odeio acordar cedo em domingo, odeio comer nesse tipo de lugar, sempre tem alguém fedido do meu lado.

- Manhêêê, o pápi chegou!

- Ô, abostado, o Fernando não é teu pai. Aliás, nem eu sei quem é teu pai, seu retirado do lixão. Fala pro Fernando que a gente já vai pro carro, vou avisar a mãe.

- Já escutei, não sou surda como vocês. Julieta, isso é roupa que se use numa igreja?

- Ai mãe, não me torra, tua saia é mais curta que a minha

.- Óbvio que não, eu é que sou mais alta que você. E não enche meu saco, criatura!

'Cegonha querida, não tinha um lugar mais 'normal' pra me largar, tipo assim, um centro de estudos psiquiátricos? Gente doida.

- Seu gordo imbecil, já te falaram pra não peidar num ambiente fechado? Ô mãe, teu filho peidou de novo. E ele comeu pizza de atum com ovo ontem de noite, né?

- Paulo Afonso, cadê os modos? Esqueceu a educação que te dei, merda!

- Calma, bonecrinha, tá tão nervosa hoje...

- Ai Fernando, não se mete também que hoje não tô boa.

Céus... não é TPM, porque a mãe menstrua junto comigo e isso foi na semana passada. Então, se a mãe não menstruou semana passada e tá nervosa... e o Paulo Afonso tá com 9 anos e nossa diferença é de 10 anos... Socorro, essa louca tá grávida de novo! Eu vou chorar, juro que vou.

- Tá, chegamos. Vou falar umas coisas e não vou repetir: Julieta, sem gritos histéricos quando encontrar tuas amigas piriguetes, P.A. sem arrotar, peidar e enfiar o dedo no nariz, e não enche a boca de comida. E Fernando, se eu te pegar se engraçando pra alguém eu te defenestro da minha vida, ouviu? Julieta, sem gritar, tá?

- Tá se repetindo, mãe. Pode deixar, não vou gritar, aliás não faço isso desde os 10 anos, sabe...

- Não me retruca que não tô boa!

Medo, muito medo. Cadê minhas amigas? Preciso de carinho... Ai, xiriguidum, o profe novo da academia!

- Cris, te achamos!

- Lidi e Naty, que alííívio encontrar vocês! Viram o gato dos gatos ali na mesa do canto?

- Vimos sim, mas ele tá acompanhado. Tá sentada amiga?

- Ai G-Zuis... Com quem ele tá?

- "Com quem" não, fófis, "contra quem". Sabe a Aline, aquela vadEa láda facul? Segura teu queixo, mas eles chegaram de mãos dadas!

- Tô bege!! Aquela vagabunda que os guris chamam de saco de esperma?

“Odeio, odeio muito, tomara que ela morra de catapora! Ai, não, eles tão vindo pra cá! Disfarça...”

- Oi, gurias. Queria apresentar meu namorado pra vocês, o Ju.

- Oi Ju. A gente te chama de professor Marques, não sabia teu nome.

- Na real, meu nome é Juvêncio.

- Ah sim... (Murphy, seu filho da puta, sai do meu pé. Já não basta o professor 'depois de lindo" da academia namorar essa... essa... essa... essa imoral, ele ainda se chama Juvêncio? O que mais pode piorar?)

- Cris, viu que tristeza a roupa dele?

- Ai nem reparei. Tive um engulho quando escutei o nome, tive que me controlar pra não ter uma síncope, então não vi mais nada.

- Ele tá de papete, bermuda de tiozinho e camiseta pólo. Por dentro da bermuda.

- Papete? Eu até aceito a camiseta por dentro da bermuda, mas... papete? Preciso ver isso, eles sentaram na mesa em frente à minha. Depois a gente se fala, gurias!

Tá, e a vergonha de sentar nessa mesa? O Fernando come igual um ogro, o decote da mãe é tão grande que tem macarrão no meio dos peitos dela, e o P.A. tá com o nariz escorrendo e comendo com a mão. Alguém por favor me trucida? Deixa eu olhar pro pé do querido... Ai credo, não é papete, é sandália Franciscana! Socorro. Nããão, ele tá de pochete!

- E pra beber, moça?

- Cicuta, por favor.