29 de out de 2010

Conto do dèjá vú de Natal

Especial do Roberto Carlos na Globo, os outros canais com a programação ainda pior. Ela zapeia, mas não há muito o que assistir. Ele, de boca aberta, ronca ao lado dela.

"Nos lençóis macios, amantes se dão,

travesseiros soltos, roupas pelo chão"

O dia dela foi horrível, sem colocar o nariz pra fora de casa. Ele saiu pra “pedalar" um pouco e voltou três horas depois, bêbado. Os amigos ligaram chamando-a pra sair, mas ele tinha levado a chave e a carteira. Quando ele chegou, ela já estava com os olhos tão inchados que nem maquiagem disfarçaria. Se reclamar, ele briga. Se chorar, ele briga. Se ficar quieta, ele briga dizendo que ela está disfarçando.

Ela não sabe mais o que fazer, o que dizer, o que vestir pra que ele note que emagreceu. Ela não sabe mais que tipo de atitude tomar para que ele, só uma vez, a elogie. Pode ser um elogio pela escolha adequada da roupa, por sua criatividade, pelo seu bom humor mesmo com tudo que tem passado, ou talvez por ela não precisar usar maquiagem. De fato, não precisa. Só quando ele a faz chorar.

28 de out de 2010

Devaneios da Ju… digo, da Cris

Droga! Em plena sexta-feira, eu não posso sair. Por uma boa causa, minha defrisagem sem química na franja ficou luSHo, mas tá chovendo a cântaros lá fora e eu não posso molhar o cabelo até amanhã às 4 da tarde. As mechas californianas ficaram show também, mas não posso tomar banho de piscina senão vai esverdear tudo. Ah, vou passar o carnaval por aqui mesmo, só tenho um baile pra ir, segunda... Bem feito pra mim, vou arrumar emprego em shopping bem nessa época do ano? Espero que o Beto não vá ao baile. Saco cheio de ficar com ele só pra não dormir no 0x0... Acho que foi por isso que ele ganhou o apelido de Mac, é igual a sanduíche do McDonald’s, a gente sabe que é uma droga mas come do mesmo jeito, e paga caro por isso. Ah não, foi a Tati que deu o apelido, porque o Beto tá sempre de volta pro meu futuro. Inferno! Sempre que eu acho que minha vida vai melhorar, eu tomo uma cacetada. Nem pra ser um pé na bunda, que ia me fazer dar um passo pra frente.

(celular toca)

- Oi, Adolfo (“puta merda, tão lindo e com esse nome podre”)!

- Oi, Cris.

- E aí, tudo certo pro nosso cineminha, amanhã?

- Então...

(“Droga, quando começa por ‘então...’ é porque fudeu).

- É que minha mãe, que mora em Londres, veio pro Brasil e tá me esperando em Porto Seguro, tô indo pro aeroporto agora. Só liguei pra te pedir desculpas, quando eu voltar a gente combina outra coisa. Até mais, bom feriado.

Filho da puta, nem me esperou responder e desligou! Tomara que ele passe todos os dias ouvindo Creu e Bonde do Maluco, tomara que a Ivete Sangalo menstrue em cima do trio, tomara que a Cláudia Leitte azede, tomara que enfiem a banana do Chiclete no meio do rabo desse desgraçado! Péra, não posso chorar, senão molha meu cabelo. Ah, também, que é um peido pra quem já ta cagada?

(liga o rádio)

Ai, xiriguidum, meu amor tá no ar! Que coisa mais de adolescente, paixonite por locutor de rádio... Pior é ter ido ao estúdio visitar a galera e ficar com cara de bunda olhando pra ele. Não ofereci uma bala, não chamei pra tomar uma cerveja, nada. Nem lembrei daquele dia em que ele me viu com o Beto (maldito Beto, sempre me atravancando) no bar...”que desperdício, hein morena?”, olhando pras minhas pernas... Droga! Ainda bem que ele não viu que logo depois eu fui sair de perto do balcão, tropecei na escada por causa do salto fino e caí no meio da pista. Por que eu insisto em usar salto fino? Aliás, por que eu insisto em usar salto? Por que eu faço o possível pra parecer elegante e feminina, se eu não sei ser assim?

Por que eu não saio de All Star? Tá, porque a mãe fala que eu pareço um pingüim, toda de preto e de All Star. Mas o preto disfarça minhas “bordas de catupiry” na cintura, disfarça meu culote... Preto emagrece, porra! Menos, Cris, o que emagrece é regime...

Ai “G-Zuis”, ligo pra rádio? Hora de participação de ouvinte... eu podia pedir uma música bem cabeça, diferentosa, meio Tom Waits, tipo o Fito. Putz, mas nesse horário só toca música modinha. Aieeê, não consegui ligação! Droga de telefone sem fio que demora a fazer redial! Putz, essa imbecil pegou minha vez de falar com meu muso pra pedir Burguesinha? Ah, vai carpir descalça, vadEEEEa!!

Não tem nada pra ver na TV, não tem nada pra ouvir no rádio, não tem nenhum recado no meu Orkut... onde foi mesmo que guardei as giletes e o álcool?

Vou cortar os pulsos...

(abre a porta)

- Jujuuuuuuuuuuuu!!

- Seu gordo agobento, o que tu quer agora???

- Fiz pipoca doce de microondas, a mãe pegou Piratas do Caribe pra gente olhar, vamo pra sala?

Ai ai... eu amo esse guri!

26 de out de 2010

Conto escrito no guardanapo

Repentinamente, surpreendentemente, ele a convida pra jantar.


"E então ela se fez bonita, como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, e cheios de..."


Cheios de silêncio, entraram no carro e foram ao restaurante. Foram recebidos pelo chef, um amigo de vários anos, e conduzidos à melhor mesa, perto da janela, onde uma leve brisa refresca o ambiente e ele pode fumar. E por mais que ela diga que fumar em restaurantes é falta de educação, ele não consegue se abster.


"O que você quer comer, amor?", pergunta ele, esperando que a resposta seja a mesma de sempre. Mas desta vez não foi. "Amor, eu sei que você não gosta de pizza, mas eu tô morrendo de vontade. Quem sabe pedimos uma brotinho de calabreza pra mim e uma porção de filé com fritas, que você gosta tanto?". Ele ficou um pouco emburrado, deu um sorriso que não chegou aos olhos e "quem sabe a gente escolhe algo que os dois gostem, pra comermos juntos?". Ela já sabe o que responder..."certo amor, vamos pedir o filé com fritas e frango a passarinho".

E ficou pensando... “o que adianta eu fazer dieta e ginástica pra depois comer isso? E porque eu sempre peço o que ele gosta de comer, se ele só gosta de comer isso? Ele acendeu um cigarro, ela prestava atenção aos nomes assinados nas paredes do restaurante. O pedido chegou, eles pediram uma cerveja e começaram a comer. Em silêncio. Eles aparentemente não têm mais assunto, por mais que ela tenha tanta vontade de conversar. Tantas novidades, alguns textos interessantes que leu sobre o cd novo daquela banda legal. Mas ela já cansou de monólogos.

25 de out de 2010

Bom Diaaaaaa!

- Jujuuu... você não vai trabalhar hoje? diz Paulo Afonso entrando correndo no quarto da irmã.

- Seu gordo infame, meu celular nem despertou ainda e você vem me azucrinar? Vai chupar uma meia!!!

- Maníssima: “é” 8:25h, já...

- Como assiiim?

Juju, ou melhor, Cris salta da cama e escova os dentes enquanto procura uma roupa pra usar, pega o primeiro jeans rasgado que aparece, uma blusa ‘I love Floripa’ e calça uma mule por ser mais rápido, cospe a pasta de dente, sai de casa correndo, esquecendo de pentear seus cabelos que resolvem imitar uma samambaia naquele dia.

- Boa tarde Julieta!

- Oi Chefinho. Ele fingiu um sorriso. “Sempre tem que ter um engraçadinho. A sorte dele é ser meu chefe”, pensou.

- Desculpe o atraso, mas meu celular ficou sem bateria e...

- Não estou cobrando explicações, apesar que espero que isso nunca mais se repita. São 08h45min, ou seja, quarenta e cinco minutos descontados do teu salário. É ruim para você. Já vi que você não esqueceu do meu aniversário, e dos convidados que teremos, aqueles Desembargadores catarinenses que devem estar por chegar. Formalidade “afú”, como diria meu filho. Você veio no clima.

“PQP. Aniversário do chefe, segunda-feira, formalidades, desembargadores catarinenses, como me vesti tão rápido? Vai cerebrozinho, processa isso, engole, toma no rabo, é isso que você me faz passar? Logo eu que sou tão boa com você? Passo informações legais pra ti o dia todo e é assim que você me retribui?”

- Julieta! Julieta! JU-LI-E-TA!

- O.. er.. OI. Desculpe chefe!

- Acordou, já? Tá em transe?

- Desculpe, não vai se repetir!

- Então faça o que eu lhe mandei!

- Sim senhor, chefe.

- Outra coisa, não me chame de chefe, sou teu superior, porém, devo ser chamado com formalidades.

- Certo Dr. Roque, desculpe mais uma vez. (“Eu ainda mato ele”)

- Agora pode ir

“ O que ele pediu para eu fazer? Cérebrooo! Só me apronta essas.”

- Che... Dr. Roque?

- Fala Julieta - É... tipo... o que é mesmo que o Senhor pediu para eu fazer?

- Julieta, hoje não é teu dia, minha querida. (“Sério? Nem percebi”)

- Eu pedi pra você ajudar a dona Suélen, da cozinha, levar os doces, salgados e cafés até a sala de reuniões, onde receberei meus convidados dentro de 10 minutinhos.

- Ah, sim senhor (“Merdaaa!, eu não acredito que ele pediu pra fazer isso! Me contratou para escravaaa! Lixo de dia, eu quero um emprego novo, quero um dia novo, eu quero ser livreee... ai como eu odeio isso tudo. Ta, respira fundo, 1,2,3..”)

- Dona Suélen, vim ajudar a senhora a levar as coisas para a sala de reunião.

- Minha querida, que bom, os convidados já chegaram, falta só levar o café que já to levando os doces.

- Tudo bem, deixa comigo.

- A propósito, querida, você podia prender o teu cabelo, do jeito que esses ‘home’ são, vão pensar que tu quer esconder alguma coisa aí nessa macega.

- (“eu não acredito que ouvi isso”) Obrigada dona Suelen, já estou fazendo e logo levarei o café!

- Deixa eles servido!

- Deixa-los-ei (“ ó, portuguê-es”)

***

- Companheiros, essa é minha secretária de confiança e estagiária, Julieta.

- Bom dia a todos.

- Bom dia, Julieta.

“Droga, derrubei o café na minha calça, e agora? Aiii. Porcaria, ta me queimando. Assopra, isso, passa vergonha, infeliz”.

- Julieta, chame a Dra Marlene para juntar-se a nós.

- Sim senhor, ela responde, saindo mais rápido para ninguém perceber a sujeira em sua calça, quando vira o pé e cai no meio dos convidados com a cara na porta. “Que vergooonha, seu mule idiota, sapato cretino, eu te odeio, nunca mais coloco os pés em você... e tinha que ser o convidado mais feio pra me ajudar a levantar. Odeio agradecer com vergonha . Odeio convidados feios"

Juro por Deus. Tem dias que é preferível faltar ao trabalho!

22 de out de 2010

Conto de uma tarde qualquer

Mais uma vez, ele... e ela. Local: no parque, centro da cidade.

Estavam os dois sentados na grama ao pé de uma árvore. Ele com seu mp3 ouvindo entre risos, o “Café das 5”. Ela ressonava ao seu lado. Mãos dadas. Ela acorda e aperta a mão dele, que olha pra ela, e sorri. Ela retribui o sorriso.

À frente deles corre uma menina ao encontro de um menino. Deveriam ter aproximadamente 17 anos. Na mesma hora, ela... e ele entenderam: o amor acontecia ali, aos seus olhos.

Então pensaram, cada um em sua individualidade, bem naquela de quem pensa com os próprios botões: “Porque nunca senti isso?”

Ninguém entenderia. Ele, acostumado com a presença dela, o jeito que ela sorria, como resolvia as coisas, tinham gostos parecidos, ela era uma louca tão centrada nas coisas, que ele via nela uma raridade. Ela gostava do abraço dele, do cheiro. Gostava do humor, de como ele era independente, responsável, era seu porto seguro.

O amor, ele e ela duvidavam que existia, mas enxergaram na sua frente essa prova. O amor ao vivo, acontecendo, naquele beijo tão apaixonado. “Porque não sinto a necessidade do beijo dela?” “Porque não sinto necessidade do beijo dele?”, era o que pensavam, ele e ela, enquanto levantavam-se para ir embora.

De mãos dadas, conversando, juntando-se lado a lado num abraço, rindo e conversando sobre o dia que tiveram. Ouvindo a “Hora do rush”, Mauro Borba, o locutor, toma alvejante e coloca Lulu Santos. Ela com o fone dele na orelha direita, ele com o fone no ouvido esquerdo, cantando baixinho:

Eu não pedi pra nascer
Eu não nasci pra perder
Nem vou sobrar de vitima
Das circunstâncias
Eu tô plugado na vida
Eu tô curando a ferida
Ás vezes eu me sinto
Uma mola encolhida
você é bem como eu
Conhece o que é ser assim
Só que dessa história
ninguém sabe o fim
você me leva pra casa
E só faz o que quer
Eu sou teu homem
você é minha mulher
E a gente vive junto
E a gente se dá bem
Não desejamos mal a quase ninguém
E a gente vai à luta
E conhece a dor
Consideramos justa

Toda forma de amor

Eles descobriram com o passar do tempo que o que sentiam era amor, sim, o mais inocente, puro e doce amor. A paixão talvez não habitasse naqueles coraçõezinhos, não fazia nem ele ou ela explodirem um sentimento dentro do peito, não chegavam ao ponto de enlouquecer de saudade, não sentiam falta de ar quando estavam distante, mas eles se amavam...

O acaso (para quem acredita) fez com que conhecessem, um ao outro, e esse mesmo acaso (repito, para quem acredita) faz com que estejam juntos até hoje. Para eles, a certeza que isso já estava escrito na vida de cada um. O destino já havia se encarregado de marcar o primeiro encontro deles, o papo dela e a atenção dele se encarregaram do resto.

Ele a ama. Ela o ama.

21 de out de 2010

E hoje é sexta-feira

- Ah, mãe, hoje não!

- Julieta Cristina, hoje sim! Tenho reunião com a turma da biodança e depois vou tomar um chopp com meu namorado, tu vai ficar com o teu irmão, sim!

- Namorado? Tu não tinha quebrado todos os vidros do carro dele quando descobriu que era casado?

- É outro. E não te mete com a minha vida.

- Mas mãe, passei a semana toda de dieta pra ir nessa festa de hoje e...

- Nem mais mãe nem “menas" mãe, e o cara do salão ligou, tu ta devendo uma tal de defrisagem sem química e umas mechas hollywoodianas.

- Não se fala “menas", mãe, é menos... e as mechas são Californianas, não hollywoodianas. São essas pontinhas mais clarinhas aqui ó... Pelamordedeus, mãe, o gato mais gato dos gatos lá do shopping me convidou pra ir no cinema antes da festa!

- Não me interessa, teu irmão tem nove anos e não pode ficar sozinho em casa. Eu tinha te avisado que eu ia sair.

- Tu falou que ia sair no sábado, hoje é sexta...

- Ah, é tudo com S, tu sabe que eu confundo os dias do final de semana.

- Tá mãe, tudo bem, só não vai fazer outro filho. Eu tenho dezenove e o P.A. tem nove...

- Olha o respeito, guria!

- Tchau, mãe. Boa festa... e fecha esse botão, teu peito ta quase de fora.

Puta merda, que jeito de começar o “findi”. Minha mãe arrumou mais um namorado e eu tô no 0x0 desde o réveillon. E o pior é que a última boca que eu beijei foi a do Mac... maldito ex-namorado que não sai da minha vida. Por que ele não arruma um macho pra ele e me esquece? Saco.

- Manaaa!, to com fome!

- Não enche o saco, guri, to pintando as unhas dos pés.

- Ah, depois tu cuida desses casco aí, pede uma pizza pra gente!

- A mãe não deixou dinheiro, faz um Cup Nudles. E no teu colégio eles não ensinam plural?

- Ah, tri chato esse pico de pluraus aí...

- Ai socorro... é um miguxo surfista...

- Pô Juju, pede uma pizza aí! Tu trabalha, né?

- Guri dos infernos, não me chama de Juju! Meu apelido é Cris, CRI-IS!!! Entendeu, adotado?

- Mentira tua! A mãe já me contou que me fez quando tava brincando de rafting na Bahia, só não lembro o nome da cidade...

- Seu retar, qual é o teu nome?

- Paulo Afonso.

- Então, seu gordo ridículo, por que tu acha que tem esse nome?

- E por que teu nome é Julieta Cristina? Tem uma cidade com esse nome?

- Não, anta batizada... A mãe sempre gostou de Cristina, mas meu pai estudava Shakespeare... Aí, como nunca se entenderam em nada, me deram esse nome abençoado aí.

- Shake quem?

- Deixa pra lá, me dá a porra do telefone da pizzaria...

Juju tem que ficar em casa pra cuidar do Paulo Afonso, de 9 anos. A mãe foi fazer rafting em Paulo Afonso.

19 de out de 2010

Conto de uma noite de verão

Barzinho sem graça e óbvio, atendimento precário, cerveja no máximo fria (e não muito barata), bandinha básica tocando um pop/rock ululante. Sim, hoje é sexta feira...

Aí, eles atacam de Skank:

"Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém prá vida inteira
Como você não quis...

Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu você
E você cego, nem nota
Quando tudo ainda é nada
Quando o dia é madrugada
Você gastou sua cota...

Eu não posso te ajudar
Esse caminho não há outro
Que por você passa
Eu queria insistir
Mas o caminho só existe
Quando você passa...

Quando muito ainda é pouco
Você quer infantil e louco
Um sol acima do sol
Mas quando sempre
É sempre nunca
Quando ao lado ainda
É muito mais longe
Que qualquer lugar...

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém prá vida inteira
Como você não quis...

Se a sorte lhe sorriu
Porque não sorrir de volta
Você nunca olha a sua volta
Não quero estar sendo mal
Moralista ou banal
Aqui está o que me afligia...

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém prá vida inteira

Como você não quis..."

Ela, já bem chateada com o silêncio na mesa - onde só estavam os dois -pergunta, após um longo suspiro:"amor, por que a gente não se beija desde quarta?" Ele, sem desviar os olhos do contra-baixo acústico:"sei lá, tu faz cada pergunta descabida, hein?"

Olhos marejados, outro suspiro, olha em volta e vê aquele cara interessantíssimo que conheceu em uma entrevista para um que ela não conseguiu, na mesa ao lado, sozinho e olhando pra ela. Ele dá um sorriso meio amarelo, levanta a mão direita ensaiando um aceno, olha pro marido dela - que continua vidrado no contrabaixo acústico - volta a olhar pra ela, desfaz o sorriso, aparentemente suspira e vai ao bar buscar outra cerveja pra beber sozinho.

Tão sozinho quanto ela, que está acompanhada na mesa.