17 de mai de 2010

Na linha do tempo

“Minha filha pensa que me passa pra trás. Só naquela cabeça oca mesmo pra pensar uma coisa dessas. Tudo bem que com a idade dela eu já era mãe, dela, óbvio, mas eram outros tempos. Antigamente ter filhos com 15 anos era normal. Tá, nem tão antigamente assim, não sou tão velha, mas era normal.”

“O espelho mostra que estou em forma. Credo! Que corpo que tô, praticamente igual ao da minha filha, não falo nada pra ela não se sentir ofendida, mas que estou com tudo em cima, isso tô.”

“Nem pensar que ela vai arrumar um namorado, minha garotinha é uma criança, não deve nem saber beijar na boca direito. Eu, com a idade dela era muito mais madura, visivelmente, estava no segundo namorado, nunca deixei eles me fazerem de boba.”

“O pai dela foi o grande amor da minha vida, eu sabia disso já naquela época. Um homem muito culto e honesto, nunca precisou de escola e, quando soube da minha gravidez comprou uma moto e foi viajar a procura de um emprego que desse melhores condições a nossa filha. Humilde que só ele, levou apenas uma mochila nas costas. Lamento tanto o destino que teve. Ser seduzido por uma mulher da vida e ser obrigado a casar com ela não deve fazê-lo feliz. Como casar sem amor? Nem imagino como o coitado se sente.”

“É fogo, viu? Não é fácil trabalhar 20 horas por semana, cuidar da minha filha, da casa, ir fazer compras, atender as amigas e tudo estando de ressaca... mas vale à pena. Essas festas em plena quarta-feira é o que há de bom. Só vai gente de nível, trabalhadores mesmo, de terno e gravata. Celular de última geração e ficam falando difícil pra tentar impressionar, certo que é.

“Tolinhos!”

“Eu sei muito bem que eles estão querendo me namorar e disfarçam. Tentam disfarçar, melhor dizendo, mas eu vejo os olhares e faço até leitura labial. Sei que eles falam das minhas coxas à mostra pela minha ‘micro-minissaia’ laranjada. Adoro ela. Combina com minha blusinha azul que salienta as curvas do meu corpo.”

“Me respeito! Não vou namorar quem só me acha bonita, eu tenho minha inteligência e ninguém parece notar porque a visão do meu corpo toma conta, preferem que eu fique calada. Injusto! Essa sociedade só dá valor à imagem”.

“Ainda bem que a mamãe resolveu ficar com minha filha por uns tempos. Ela me cuidou muito bem, vai saber lidar com a minha filha que agora eu mesma me cuido, e muito bem, por sinal”.

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