21 de dez de 2010

Conto do começo do fim

A rotina já é tamanha que ela acorda mal humorada às sextas-feiras. Sabe que vai sair da cama, preparar o café da manhã, tomar banho, ficar semipronta pra ir trabalhar, lavar a louça do café – ele nunca ajuda – e ir pro trabalho. Às seis da tarde, Ele vai passar para que voltem juntos para casa, mas antes vão passar no mesmo barzinho de toda sexta-feira, onde os amigos tocam. Sempre o mesmo itinerário, os mesmos rostos, os mesmos assuntos, a mesma mesa, o mesmo repertório. Sempre a mesma solidão naquela maldita mesa cheia de gente com quem ela não se identifica, com conversas que não lhe interessam, as mesmas piadas machistas. Hoje não foi diferente. Ela acordou já tremendamente mal humorada, com dor de cabeça e os olhos vermelhos. Chorou muito após a milésima discussão por causa das ligações da Sabrina, pelos vários encontros inesperados d’Ela com o André. Resolveu que tentaria fazer aquele dia um pouco diferente.

- Amor, quem sabe hoje a gente toma café da manhã em uma casa de chá?

- Tá, pode ser.

Com mais tempo para se arrumar e sabendo que não teria reuniões com clientes na agência, caprichou no visual: saia jeans mais curta que o de costume, camisa branca, jaquetinha de couro e botas. Salto alto, há meses ela não trabalhava usando salto!

- Nossa, que linda! Algum cliente especial hoje?

- Sim, eu mesma. Aliás, nós dois.

Mentira. Ela nem lembrou da existência d’Ele, o que vinha se tornando hábito. Ele já não participava de seus planos. O café foi deprimente. Chegaram, sentaram-se, comeram e foram embora, sem trocar sequer duas palavras além de "me passa o mel". Na verdade há tempos eles já não conversavam, não tinham um assunto de interesse mútuo. O restante do dia foi comum apesar dos olhares dos colegas de trabalho dela, admirados com a repentina mudança. Até seu chefe, sempre tão reservado, reparou no brilho em seu olhar.

- Menina, se você não fosse casada, eu apostaria que está apaixonada.

Apaixonada? Céus! Como Ela não havia percebido? Sempre tão perspicaz, tão sensível, não percebeu que estava apaixonada? Que outra explicação teria para a tarde que passou com André, no chão da sala? Qual outro motivo explicaria seu desinteresse pelo próprio marido? Olhou-se no espelho e viu uma mulher com vontade de viver, muito diferente daquela criatura que apenas existia. Retocou a maquiagem e desceu para encontrar-se com Ele.

- E aí, direto pra casa?

- De forma alguma! Você está linda, merece uma noite diferente.

Preferia que ele fosse mais frio. Esses lapsos de atenção a deixam desarmada. Quando deu por si, estavam no mesmo bar de sempre, a banda começando com a mesma música de sempre, sentaram-se na mesa à frente do palco, como sempre. Ele rapidamente colou os olhos no palco e assim ficou, provavelmente ficará assim a noite toda.

“Tão fácil perceber

Que a sorte escolheu você

E você cego, nem nota

Quando tudo ainda é nada

Quando o dia é madrugada

Você gastou sua cota...”


Ela estranhou algo na música, aparentemente o vocalista não errou a letra. Olhou para o palco e... André? Não se viam desde aquela tarde de domingo, ela sentiu o rubor lhe subindo à face. André cantava olhando para Ele...

Mas quando sempre

É sempre nunca

Quando ao lado ainda

É muito mais longe

Que qualquer lugar...
Se a sorte lhe sorriu

Porque não sorrir de volta

Você nunca olha a sua volta

Não quero estar sendo mal

Moralista ou banal

Aqui está o que me afligia...


Parece que a música foi escolhida a dedo para deixá-la novamente deprimida. Retrata sua total entrega a Ele, que retribui com... nada.

Um dia ela já vai

Achar o cara que lhe queira

Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai

Achar alguém prá vida inteira

Como você não quis...

Essa deveria ser sua opção? Acabar com essa farsa que virou seu casamento? Deixar seu marido livre pra voltar com a Sabrina? Ficar livre pra viver uma nova história, pra viver outros momentos quentes com o André... pra viver?


Na mesa ao lado, várias moças mandavam bilhetinhos para André, que lia e respondia com discretos sorrisos, às vezes aparentando vergonha, às vezes aparentando interesse.

"Bando de galinhas...”, pensou e logo em seguida riu de si mesma. Estava com ciúmes!

- Esse André é engraçado, tá de novo querendo tudo que é meu.

- Quê? (Ficou apavorada, será que ele sabia?)

- Agora tá querendo comprar meu baixo. Como se ele soubesse tocar alguma coisa! Foi só eu comentar com esse cara que eu ia montar outra banda e ele saiu correndo pra ser vocalista da banda aqui do bar. Só falta agora querer comprar meu carro e cantar minha mulher, né, amor?

- M-m-mas você não tinha dito que ia chamar o André pra cantar na tua banda?

- Falei sim, mas não quero mais. Ele tá se enfiando muito na nossa vida, o tempo todo te convidando pra almoçar.

- Amor, a gente trabalha na mesma rua e só tem um restaurante que preste, é meio óbvio que nos encontremos!

- Se quisesse você evitava sim, poderia tranquilamente almoçar em casa.

- Ah claro, perder meu horário de almoço todo pra fazer almoço e limpar cozinha, tem graça...

- Eu já falei que você não precisa trabalhar, o meu salário é o suficiente pra nos manter.

- Como é? Tá querendo dizer que eu seria mais útil como empregada?

- Eu fui criado pra ser um provedor, não pra ser seu colega de quarto.

- E eu fui criada pra ser independente, não pra ser empregada doméstica e escrava sexual.

- Não se faz de vítima, eu sempre disse que preferia que você ficasse em casa!

- Baixa o tom de voz, a gente tá num lugar público.

- Não tô nem aí, todo mundo aqui sabe que você é minha!

- Tua o caralho, eu sou minha. Se ainda tô contigo é porque eu ainda quero.

- Ainda quer? Como assim?

- Quer dizer que numa hora dessas, eu vou perceber que fico melhor sozinha.

- Essa não é uma boa hora pra brincadeiras.

- E quem disse que eu tô brincando?

E o silêncio voltou a imperar na mesa.

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