16 de mai de 2011

A Rita matou meu sorriso

Eu passei minha infância toda vendo a Rita passar. Ela brincava com os meus amigos, estudava na mesma escola, ia no mesmo pediatra, mas nunca me deu bola. Se bem que eu também nunca tive coragem sequer de me aproximar.
Na adolescência a gente estudava em salas diferentes, mas ela namorava meu amigo. Depois namorou meu primo, que foi um sacana e a fez muito infeliz. Fizemos cursinho juntos, eu sentava no fundo da sala só pra ficar reparando em todos os movimentos da Rita. Sabia quando ela estava disfarçando pra mandar torpedo em horário de aula, sabia quando estava cochilando, sabia as matérias que ela ia bem, sabia até quando ela estava menstruada e tinha cólicas.
Eu sempre amei a Rita. Seu sorriso sempre meu assunto, sempre meu sonho, sempre meu desejo. Cada novo namorado da Rita era como uma punhalada no meu peito, cada beijo que eu assistia era um gole de fel que eu engolia, mas não deixava de olhar pra ela.
Rita, sempre Rita.
Eu passei no vestibular, ela não. No ano seguinte ela tentou de novo e conseguiu. Era minha caloura. “Minha”, nunca, mas a sempre minha Rita continuava sem notar que eu existia. Dias a fio ela fazia perguntas pelos corredores, como sempre perdida com o seu non-sense de direção. Eu sempre me dizia que a Rita é uma canhota destra, sua esquerda fica à direita. Sua Rosa dos Ventos mais se parece um Cravo, ou uma Tulipa.
A Rita... A minha Rita.
Festa de confraternização do curso, ela surgiu como uma deusa evanescente. Sensualidade brotando pelos poros, lábios entreabertos em um sorriso que nunca foi pra mim. Minha Rita, suas pernas semidescobertas, entrecoxas e entrepeitos que eu só entreolhava. E a cada gole que sorvia, eu me imaginava um copo, um canudinho, um gargalo de garrafa longneck que recebia o doce toque de seus lábios. E bebia.
Eu olhava para a Rita, a minha Rita, e bebia. Cada mexer de cabelos da Rita era um novo copo que eu servia e sorvia. Cada passo da Rita me levava a seu encalço, até que, quando percebi, estava à sua frente.
Ela sorriu, olhou para a garrafa em minhas mãos e, sem cerimônia, tomou-a para si. Senti-me no direito de agir da mesma forma, tomei-a para mim. A Rita, a garrafa não sei onde foi parar.
Não lembro bem o que houve depois. E não me sinto capaz de transcrever tudo o que aconteceu depois, o turbilhão que tomou conta de mim. Mas jamais esquecerei as primeiras palavras que Rita me dirigiu, pela primeira vez falando comigo intencionalmente: “ Engravidei. Vou tirar hoje à noite, você vem ficar comigo”? Eu fui, claro, sem qualquer outra pergunta. Sempre soube seu endereço, sempre soube tudo da minha Rita.
Ao chegar, ela já estava dormitando, anestesiadamente linda. Sua amiga – acho que jamais me lembrarei de seu nome, ou esquecerei seu rosto – já aplicara os medicamentos e, sem dizer nada, entregou-me duas folhas de papel, uma impressa e outra escrita à mão.
A impressa me dava instruções para os procedimentos que viriam a seguir, uma resposta para cada possível pergunta. Praticamente um FAQ do aborto doméstico. A outra folha, escrita com letras arredondadas e linhas impressionantemente tortas, era uma carta da Rita. Minha, sempre minha Rita, escrevera uma carta para mim. Dolorosa, quase insuportável, dura e direta.
“Não sei seu nome, e mesmo que soubesse teria esquecido. Bem feito pra mim por transar sem camisinha com um desconhecido, e quero que você saiba que não quero te ver quando eu acordar. Fique ao meu lado durante o procedimento, isso também é culpa sua e você tem que participar, mesmo sabendo que a dor física é só minha. Não sei se o arrependimento também é seu, mas sei te dizer que, se arrependimento matasse, eu estaria dura e fria à sua frente. Tenho um tumor no seio direito, sou hipertensa e alérgica a vários medicamentos, não posso ser mãe e não quero ser nada daquilo que você falou naquela noite. Não quero ser idolatrada, não quero ser admirada, não quero ser musa inspiradora, não quero nada de você a não ser distância. Felizmente ninguém nos viu juntos, espero que não tenha contado pra ninguém. Não me dirija a palavra quando me encontrar sei lá onde você me veja, não me importo com seus passos. Me deixe em paz”.
Estou a seu lado agora. Seu rosto, lindo e sereno, não deixa transparecer a dor que sentiu. Seu corpo, perfeito e frio, parou de tremer. Seus gritos cessaram, a convulsão também.
Ficarei a seu lado, minha Rita, minha eterna Rita, até que a ambulância chegue e leve seu corpo. Depois disso nada mais importará.

2 comentários:

Anderson disse...

De tirar o fôlego! Envolvente como a Rita!

André Santos disse...

Escrever do ponto de vista do personagem com tamanha propriedade, definitivamente, não é pra qualquer um.

O texto é excelente, ainda que eu tenha torcido por outro final...