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4 de jan. de 2011

Conto da história sem fim

Ela acordou assustada, com uma insuportável dor no pescoço e com calor. Olhou em volta e percebeu que, novamente, deixou as cortinas abertas e o sol iluminava todo o quarto. Sentiu-se só, imensa e absolutamente só. Sorriu e pensou “etimologicamente só”.
“Alone” vem de “all one”, algo como estar em perfeita conexão consigo, sem precisar de nada nem ninguém. Caminhou só de calcinha pelo quarto, abriu o vidro da imensa janela de seu apartamento. Novamente passou os olhos pelo quarto.
Tudo novo. Branco.
A cama nova, coberta por lençóis de cetim branco, combinava perfeitamente com o grande espelho que tomava conta de uma das paredes. Depois de muito tempo, Ela olhava e se via. Não era uma imagem falsa, forjada de acordo com os moldes que Ele queria, ou que Ela achava que Ele merecia. Aquela mulher no espelho era Ela. Viu-se sorrir, primeiro com olhos, depois os lábios entreabertos se abriram e começaram a cantar:

Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo o que eu queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto à você
E em tudo o que eu faço
Existe um por que
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci pra saber
Pra saber o quê?
E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou


Ficou séria.
Não, definitivamente, agora não falta ninguém.
Faltava ela, Ela se percebeu ausente dos últimos anos de sua vida. Sempre contida, sempre precavida, sempre pensando e repensando atos e palavras, tanto que acabava por silenciar.
“Chega!”
Gostava de se ouvir assim, em alto e bom som. Ainda com os olhos fixos no espelho, virou-se lentamente e deu uma boa olhada no próprio corpo. Passou a mão pela barriga e sorriu.
    Lisinha.
    Conseguiu passar por todo esse período conturbado sem engordar ou emagrecer, manteve-se com o mesmo peso. Pensando bem, por que haveria de mudar? Foi tudo tão rápido... Divórcio, demissão, viagem, casa nova, empresa nova.
Ela, de novo.

31 de dez. de 2010

Conto do pesadelo final

Ela não conseguia conter sua felicidade naquele amanhecer. Consciência leve, recuperou o amor de sua vida e o resultado desse amor ela carregava no ventre. Ela sabia que tudo iria melhorar, que o perdão a deixou de coração leve e agora havia um motivo a mais para viver. Ele acordou e sorriu para Ela, segurou-lhe a barriga e beijou, dizendo “bom dia, minha filha”.
Eles riram porque sempre quiseram uma menininha, sempre comentavam quando eram namorados e, depois da turbulência pela qual o casamento passara, falar em filhos era quase uma agressão.
Na verdade, não importava se o bebê era menina ou menino, Ele apenas quis relembrar os bons e antigos tempos que agora pareciam ter voltado àquela casa.
A felicidade era tanta que resolveram ir, naquela manhã, visitar os pais d’Ele que moravam numa cidade próxima, para contar-lhes a novidade.
Ela sentia-se vivendo em um filme, cuja trilha sonora era “Oh, Happy Day”:
Oh happy day
Oh happy day
When Jesus washed
Oh when He washed
Oh when He washed
Whased my sins away
Oh happy day
Oh happy day
Oh happy day
When Jesus washed
Oh when He washed
And then He washed
Washed my sins away
Oh its a happy day
He tought me how
To watch watch and pray
Watch and pray
And live rejoicing averyday
Everyday

Ao saírem de casa se deram conta que o carro havia sido quitado há 2 meses e nem sequer houve comemoração do feito. Assim, beijaram-se demoradamente e pegaram a estrada.
No caminho, conversavam animadamente escolhendo o possível nome do bebê.
- Nosso filho! Não consigo acreditar nisso, amor. Ele veio para nos unir, pra tirar a venda que estava em nossos olhos!
- Sim, acredite, é o nosso filho que veio. Ele é resultado do que sempre sentimos um pelo outro e quase esquecemos. Nosso bebê...
- Tu não acha estranho aquele caminhão?
- Sim, parece que vem ziguezagueando.
- Amor, freia o carro!
- Calma...
- Freia!
- Eu não to conseguindo parar!
- Vai bater na gente!
- Eu to tentando desviar!
- PÁRAAAAA...
E qualquer que tenha sido o grito posterior, foi abafado pelo estrondo da colisão. O motorista do caminhão havia dormido ao volante e Ele não conseguiu evitar o encontro frontal dos veículos. A morte d’Eles foi instantânea. Ela, com o pescoço quebrado por estar com o cinto de segurança, e Ele pelo impacto da queda ao voar do automóvel. O bebê? Esse ainda era chamado pelos peritos de feto.
Foi o fim de uma história que teria muito a contar, mas foi interrompida assim, como outras tantas também são.

28 de dez. de 2010

Conto do outro começo

Ela acordou enjoada. Tremendamente enjoada. Olhou em volta e, pouco a pouco, lembrou do que aconteceu. Ou pelo menos teve uma vaga lembrança. Estava vestida, isso já era um bom indício de que nada de pior aconteceu. Mas onde Ele estava?

Lembrou-se das palavras duras, as insinuações da transa com o outro Ele, o André. Não foram insinuações, ela disse que transou, disse como e onde foi, e com detalhes sórdidos.

"Droga, ele comeu a Sabrina."

A voz dele passou a ecoar... "Grande merda que tu deu pro André, no mesmo dia eu comi a Sabrina, aqui nessa sala. E ela continua gostosa como sempre!"

O diálogo veio como um turbilhão.

"Bom, se tu fosse tão gostoso como acha que é, ela não tinha virado sapatão!"

"E se o André fosse tão maravilhoso, ela tava contigo e não na cama da Sabrina."

Lembrou de ter visto André e Sabrina na cama, sem roupa e pelo visto sem pudores, porta aberta e gritaria.

Tentou levantar-se, mas o enjôo foi mais forte. Engraçado, o porre não foi assim tão forte, o vinho era bom, tinha se alimentado bem...

"Onde Ele tá?"

De repente sentiu-se fraca, dependente e desprotegida. Sentou-se na cama, abraçou as pernas e começou a chorar. Parecia uma criança assustada, mas a única vontade que sentia era de chorar.

"Não acredito que perdi Ele".

Passou um filme rápido em sua cabeça, desde a primeira troca de olhares naquele show em que se conheceram, as caminhadas nas tardes de sábado, as viagens, os passeios, o primeiro carro que compraram juntos, a última parcela da casa, quitada há dois meses.

"Não posso jogar tanto amor fora."

Soluçava, gemia, socava a cama.

Não queria olhar pro sofá da sala e só ver almofadas. E os planos de adotar um cachorro? E as roseiras, que só floresciam quando Ele as regava? E o que Ela faria com aquelas toalhas do Grêmio, que ela odiava, mas lavava com carinho mesmo sendo torcedora do Internacional?

O enjôo ficava cada vez mais forte, correu pro banheiro. Nada saiu, nem vermelho como vinho, nem saliva, nem nada.

Quando saiu do banheiro, Ele estava sentado na cama. Ela percebeu-se tão absurdamente ridícula, com o rosto inchado de tanto chorar, a camiseta amassada e molhada pelas lágrimas. Tinha vergonha de encará-lo.

Sentou-se ao lado d’Ele e esperou que falasse. Qualquer coisa, qualquer palavra, ríspida ou seca, qualquer som que acabasse com aquele silêncio.

Ele também chorava, mas ria ao mesmo tempo! No começo ria baixinho, depois começou a gargalhar e soluçar, com as mãos nos olhos, cabeça meio baixa. Ela olhava e não entendia nada, mas começou a sorrir também. Quando ambos gargalhavam, ela sentiu novamente aquele enjôo esquisito.

"Amor, tu tá grávida"!

E ria descontroladamente.

"Do que tu tá rindo?"

"Acordei achando que tinha te perdido, que te encontraria na cama com aqueles dois... Aí te vejo aqui, sozinha, chorando e vomitando. Minha princesa, minha boneca, amor da minha vida, tão forte e tão delicada, tão independente mas que não consegue ficar longe de mim, confessa..."

"Eu te amo."

24 de dez. de 2010

Conto do assombro final

Os dois evitavam trocar olhares, palavras, sequer tocavam as taças de vinho. O bar continuava animado, a banda parara de tocar a poucos minutos, o burburinho era ensurdecedor, mas o silêncio entre eles era quase palpável. Gargalhadas, arrastar de cadeiras, o prato da bateria que caiu, mas o som do silêncio era ainda maior.

Contrariando as aparências, fazia tempo que Ela não se sentia tão bem ao lado d’Ele. Sem precisar prestar atenção no que dizia, ou tecer opiniões às quais ele não daria a menor importância, sequer precisava ficar de mãos dadas com Ele.

A música ambiente cobriu qualquer espaço que ainda não havia sido tomado.

Eu só quero estar só

Esse silêncio me faz tão bem

E a distância também

Não queria partir

Mas não me resta nada a dividir

Ainda bem que cada um em sua estrada anda só

Talvez perceba que tem que levantar e viver

Por que todos acabam sós

Sei que eu preciso esperar

Meias medidas virão

Sutilmente ou não

E bem longe daqui

Não vou agradar ninguém além de mim

Ela sentia vontade de rir. Tinha vontade de gargalhar, sentia-se aliviada pelo semi-desabafo. Aquelas palavras estavam engasgadas há tanto tempo que mal podia se lembrar de um dia em que não quis proferi-las.

Quando já era quase impossível conter o riso, Sabrina sentou-se a seu lado, um pouco bêbada e sem limites.

- Anima aí gente, a festa ta só começando e vocês dois com cara de bunda!

Dois? Ah, sim, Ele estava na mesa.

As duas engataram uma animada conversa, falavam até sobre partes do corpo d’Ele, que a cada segundo ficava mais intrigado com a cena.

"Elas mal se olhavam, agora estão amigas assim?" pensava, sentindo-se sufocado pela lembrança do último encontro que tiveram, quando descobriu a bissexualidade de sua ex e seu interesse por sua esposa. Sabrina tocava as pernas e os ombros d’Ela durante a conversa, dando aulas de como trepar no banco da frente de um carro. Ela, interessada, morria de rir com os detalhes sórdidos que a nova amiga incluía na conversa.

"Será que rolou alguma coisa entre as duas e eu não to sabendo?" apavorava-se com a possibilidade de perder sua mulher pra outra mulher.

Ele bebia sem parar. A terceira garrafa de vinho estava no fim e ainda não acreditava no que via. As duas agora conversavam aos sussuros, ao pé do ouvido, e riam incontidamente. Ele pediu outra garrafa de vinho, que foi trazida por André.

"Ufa", pensou, "finalmente alguém pra conversar comigo".

Ledo engano.

André sentou-se entre as duas mulheres, as gargalhadas aumentavam assim como a intimidade entre os três. Percebendo o estado etílico d’Ele, sugeriu que todos fosse à sua casa, logo ao lado do bar, o que foi aceito de pronto, sem que Ele sequer fosse consultado por Ela.

Ele não sabe ao certo como tudo se deu ou o que aconteceu exatamente, mas acordou sozinho na sala. À sua volta, peças de roupa que não reconhecia e, novamente, o silêncio.

21 de dez. de 2010

Conto do começo do fim

A rotina já é tamanha que ela acorda mal humorada às sextas-feiras. Sabe que vai sair da cama, preparar o café da manhã, tomar banho, ficar semipronta pra ir trabalhar, lavar a louça do café – ele nunca ajuda – e ir pro trabalho. Às seis da tarde, Ele vai passar para que voltem juntos para casa, mas antes vão passar no mesmo barzinho de toda sexta-feira, onde os amigos tocam. Sempre o mesmo itinerário, os mesmos rostos, os mesmos assuntos, a mesma mesa, o mesmo repertório. Sempre a mesma solidão naquela maldita mesa cheia de gente com quem ela não se identifica, com conversas que não lhe interessam, as mesmas piadas machistas. Hoje não foi diferente. Ela acordou já tremendamente mal humorada, com dor de cabeça e os olhos vermelhos. Chorou muito após a milésima discussão por causa das ligações da Sabrina, pelos vários encontros inesperados d’Ela com o André. Resolveu que tentaria fazer aquele dia um pouco diferente.

- Amor, quem sabe hoje a gente toma café da manhã em uma casa de chá?

- Tá, pode ser.

Com mais tempo para se arrumar e sabendo que não teria reuniões com clientes na agência, caprichou no visual: saia jeans mais curta que o de costume, camisa branca, jaquetinha de couro e botas. Salto alto, há meses ela não trabalhava usando salto!

- Nossa, que linda! Algum cliente especial hoje?

- Sim, eu mesma. Aliás, nós dois.

Mentira. Ela nem lembrou da existência d’Ele, o que vinha se tornando hábito. Ele já não participava de seus planos. O café foi deprimente. Chegaram, sentaram-se, comeram e foram embora, sem trocar sequer duas palavras além de "me passa o mel". Na verdade há tempos eles já não conversavam, não tinham um assunto de interesse mútuo. O restante do dia foi comum apesar dos olhares dos colegas de trabalho dela, admirados com a repentina mudança. Até seu chefe, sempre tão reservado, reparou no brilho em seu olhar.

- Menina, se você não fosse casada, eu apostaria que está apaixonada.

Apaixonada? Céus! Como Ela não havia percebido? Sempre tão perspicaz, tão sensível, não percebeu que estava apaixonada? Que outra explicação teria para a tarde que passou com André, no chão da sala? Qual outro motivo explicaria seu desinteresse pelo próprio marido? Olhou-se no espelho e viu uma mulher com vontade de viver, muito diferente daquela criatura que apenas existia. Retocou a maquiagem e desceu para encontrar-se com Ele.

- E aí, direto pra casa?

- De forma alguma! Você está linda, merece uma noite diferente.

Preferia que ele fosse mais frio. Esses lapsos de atenção a deixam desarmada. Quando deu por si, estavam no mesmo bar de sempre, a banda começando com a mesma música de sempre, sentaram-se na mesa à frente do palco, como sempre. Ele rapidamente colou os olhos no palco e assim ficou, provavelmente ficará assim a noite toda.

“Tão fácil perceber

Que a sorte escolheu você

E você cego, nem nota

Quando tudo ainda é nada

Quando o dia é madrugada

Você gastou sua cota...”


Ela estranhou algo na música, aparentemente o vocalista não errou a letra. Olhou para o palco e... André? Não se viam desde aquela tarde de domingo, ela sentiu o rubor lhe subindo à face. André cantava olhando para Ele...

Mas quando sempre

É sempre nunca

Quando ao lado ainda

É muito mais longe

Que qualquer lugar...
Se a sorte lhe sorriu

Porque não sorrir de volta

Você nunca olha a sua volta

Não quero estar sendo mal

Moralista ou banal

Aqui está o que me afligia...


Parece que a música foi escolhida a dedo para deixá-la novamente deprimida. Retrata sua total entrega a Ele, que retribui com... nada.

Um dia ela já vai

Achar o cara que lhe queira

Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai

Achar alguém prá vida inteira

Como você não quis...

Essa deveria ser sua opção? Acabar com essa farsa que virou seu casamento? Deixar seu marido livre pra voltar com a Sabrina? Ficar livre pra viver uma nova história, pra viver outros momentos quentes com o André... pra viver?


Na mesa ao lado, várias moças mandavam bilhetinhos para André, que lia e respondia com discretos sorrisos, às vezes aparentando vergonha, às vezes aparentando interesse.

"Bando de galinhas...”, pensou e logo em seguida riu de si mesma. Estava com ciúmes!

- Esse André é engraçado, tá de novo querendo tudo que é meu.

- Quê? (Ficou apavorada, será que ele sabia?)

- Agora tá querendo comprar meu baixo. Como se ele soubesse tocar alguma coisa! Foi só eu comentar com esse cara que eu ia montar outra banda e ele saiu correndo pra ser vocalista da banda aqui do bar. Só falta agora querer comprar meu carro e cantar minha mulher, né, amor?

- M-m-mas você não tinha dito que ia chamar o André pra cantar na tua banda?

- Falei sim, mas não quero mais. Ele tá se enfiando muito na nossa vida, o tempo todo te convidando pra almoçar.

- Amor, a gente trabalha na mesma rua e só tem um restaurante que preste, é meio óbvio que nos encontremos!

- Se quisesse você evitava sim, poderia tranquilamente almoçar em casa.

- Ah claro, perder meu horário de almoço todo pra fazer almoço e limpar cozinha, tem graça...

- Eu já falei que você não precisa trabalhar, o meu salário é o suficiente pra nos manter.

- Como é? Tá querendo dizer que eu seria mais útil como empregada?

- Eu fui criado pra ser um provedor, não pra ser seu colega de quarto.

- E eu fui criada pra ser independente, não pra ser empregada doméstica e escrava sexual.

- Não se faz de vítima, eu sempre disse que preferia que você ficasse em casa!

- Baixa o tom de voz, a gente tá num lugar público.

- Não tô nem aí, todo mundo aqui sabe que você é minha!

- Tua o caralho, eu sou minha. Se ainda tô contigo é porque eu ainda quero.

- Ainda quer? Como assim?

- Quer dizer que numa hora dessas, eu vou perceber que fico melhor sozinha.

- Essa não é uma boa hora pra brincadeiras.

- E quem disse que eu tô brincando?

E o silêncio voltou a imperar na mesa.

17 de dez. de 2010

Conto do fim dos sonhos

- E eu tenho culpa da incompetência da Sabrina? Já faz tanto tempo que vocês terminaram, a gente tá casado há um tempão e ela não arrumou outro ainda, azar o dela, não o meu!

- Eu também não tenho culpa se você nunca quer fazer nada no domingo a tarde!
- Quer saber? Vai pro jogo com a Sabrina, vai encher a cara com a Sabrina, vai pra puta que te pariu com a Sabrina, vou arranjar coisa melhor pra fazer do que ficar olhando pra tua cara. Some daqui!

E foi o que ele fez.

Pegou as chaves do carro, vestiu a camisa surrada que ganhou quando o time ainda estava na segunda divisão e... saiu. Muito puto com a falta de discernimento d'Ela, com a falta de compreensão, com o ciúme descabido.
Descabido?

Será que Ela estava tão errada assim? Ele nunca engoliu o término do relacionamento com a Sabrina, que simplesmente falou que tava cansada. Nunca disse o que deu errado, o que deu certo, nunca mais conversaram sobre isso apesar da grande amizade que ficou.

- Oi Sabrina!

- Oi gatão, pontual como sempre!

Ele sorriu um pouco tímido, elogios sempre foram seu fraco. Sabrina entrou no carro e foi ocupando todos os espaços: pés no painel, rebaixou o encosto do banco e trocou o cd.

- Tua mulher só escuta essas coisas chatas, né? Vou até ouvir a primeira música..."

Quero ficar no teu corpo

Feito tatuagem

Que é prá te dar coragem

Prá seguir viagem

Quando a noite vem...

E também prá me perpetuar

Em tua escrava

Que você pega, esfrega

Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo

Feito bailarina

Que logo se alucina

Salta e te ilumina

Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos

Do teu braço

Repousar frouxa,

murcha Farta,

morta de cansaço...

- Afe, que coisa chata!! É só isso que ela escuta?

- Não quero falar sobre Ela hoje.

- Ué, normalmente é nosso único assunto!

- Não hoje. Aliás, não quero ir no jogo. Quero ir pra algum lugar tranquilo pra gente conversar e encher a cara.

- Ai saco, Ela brigou contigo de novo, né? Volta lá pra casa, tenho um vinho guardado desde a época que a gente namorava.

E assim fizeram. A casa dela continuava a mesma, com aquele cheiro de incenso que o deixava excitado, aquelas almofadas que por tantas vezes já ficaram por baixo de seus corpos... "Tá, conta, o que houve dessa vez?"
"Ela continua com ciúmes de ti, é isso. Sabe que eu te acho uma gostosa, sabe que a gente se dava bem na cama, sabe que você ainda tá sozinha...”

Sem nem perceber o que fazia, ele se aproximou tanto de Sabrina que acabaram se beijando. Ele sentia tanta raiva, confusão e tesão que não conseguiu segurar um desejo que sentia há tempos, principalmente quando percebeu que Sabrina também o desejava. Transaram como loucos, sedentos e saudosos, sem pudores ou sequer ressalvas.

Exaustos e saciados, tomaram banho juntos e terminaram de beber o vinho. Ele percebeu a impressionante falta de culpa. Não se sentia mal pela traição, pelo descontrole, por ter desejado outra mulher que já fora sua por tantas outras vezes."Agora sim, Ela tem motivos pra ter ciúmes de você”. Sabrina começou a gargalhar quase convulsivamente. Entre uma risada e uma tentativa de recuperar o fôlego, arrumou as almofadas no chão, sentou-se e olhou fixamente nos olhos d'Ele:

- Sempre te achei, digamos, lentinho pra entender as coisas, mas dessa vez acho que não quer ver, né?

- Do que você tá falando? O que eu não tô vendo?

- Fofo, quando terminamos, falei que eu tava cansada, certo? Não foi 'cansada de ti' que eu quis dizer, e sim "cansada dos homens". De vez em quando eu até transo com caras só pra ter um prazer diferente, mas eu gosto mesmo é de mulher!

Ele, atônito, mal conseguia respirar.

- Sempre pergunto sobre a tua mulher porque acho Ela uma delícia, adoraria que rolasse uma brincadeirinha entre nós três, mas acho que você jamais toparia.

- Mas o que te faz pensar que Ela toparia?

- Caramba, você virou um bocó mesmo, hein?

Ele, atordoado, desconcertado e arrependido, levantou-se e saiu, sem se despedir ou mesmo fechar a porta. Ao sair ainda podia ouvir as gargalhadas da Sabrina. Dirigiu a esmo por um tempo depois resolveu ir pra casa de sua mãe.
Ela sempre odiou a Sabrina, saberia como ajudar. O difícil seria voltar pra casa...

14 de dez. de 2010

Conto do remorso

Ela acordou e fixou o olhar n’Ele dormindo ao seu lado. Tiveram uma transa de reconciliação e logo dormiram. Ela continuava olhando pra ele e lembrando de quando suas transas faziam qualquer cama ficar pequena. Seus corpos incendiavam em um prazer mútuo e ainda era pouco. A paixão dos dois ardia sobre a pele. “Por que chegamos a esse ponto? Por que me deixei envolver?”

Sentia-se suja, sentia-se falsa. Entregou-se simplesmente pelo prazer e pela atração, sentimentos que vêm e logo vão. Tentava se convencer de que quem não presta assistência abre mão pra concorrência pra sentir-se menos culpada, mas não adiantava. Do lado d’Ela estava o homem que Ela ama. Ele. Ele realmente anda estressado, trabalhando mais que o habitual e Ela entendia que era por uma boa razão, porque ele simplesmente pensa no futuro deles, dos dois, d’Ele e d’Ela... Quem sabe para logo terem filhos. Sentiu-se um monstro. Ela não conseguia aceitar que fizera aquilo e que o remorso em poucas horas já havia tomado conta d’Ela. Beijou-o na testa e saiu para escovar os dentes e fazer o café da manhã. Ele ainda tinha 30 minutos de sono. Na mente a música que ela sempre cantava pra ele quando não entendia as razões por amar tanto aquele homem que do nada apareceu e mudou o rumo de sua vida. Parecia fazer mais sentido:

“Sobre o amor, e o desamor, sobre a paixão,
Sobre ficar, sobre desejar, como saber te amar,
Sobre querer, sobre entender, sem esquecer,
Sobre a verdade e a ilusão,
Quem afinal é você,
Quem de nós vai mostrar realmente o que quer,
O coração nesse furacão, ilhado onde estiver,
O meu querer é complicado demais,
Quero o que não se pode explicar aos normais,
Sobre o porquê de tantos porquês,
E responder,
Entre a razão e a emoção
Eu escolhi você!”

Foi Ele quem Ela escolheu pra dividir sua história, não poderia carregar aquela culpa. Ele não merece ser magoado por uma carência dela. Sentiu que a carência a deixou acéfala. Sentia-se cada vez pior. Correu uma lágrima e rapidamente foi escondida com as mãos.

Ele chegou para o café e encontrou a mesa maravilhosamente arrumada. “Ele nem vai notar”. Viu-a na frente da pia terminando de lavar alguns copos, parecendo evitar olhar para Ele, que se aproximou, abraçou-a e sussurrou no seu ouvido:

- Eu te amo.

10 de dez. de 2010

Conto do sonho real

- Por que essa Sabrina não se conforma que você casou comigo e não com ela? Que inferno, agora todo final de semana é isso, ex-namorada te ligando pra ir no futebol! Aliás, desde quando você tem esse fanatismo todo por teu time?

- A Sabrina ganhou entrada livre no camarote do estádio e nunca tem companhia, ela sabe que é o time que eu torço, então me convida, droga!

- E eu tenho culpa da incompetência da Sabrina? Já faz tanto tempo que vocês terminaram, a gente tá casado há um tempão e ela não arrumou outro ainda, azar o dela, não o meu!

- Eu também não tenho culpa se você nunca quer fazer nada no domingo de tarde!

- Quer saber? Vai pro jogo com a Sabrina, vai encher a cara com a Sabrina, vai pra puta que te pariu com a Sabrina, vou arranjar coisa melhor pra fazer do que ficar olhando pra tua cara. Some daqui!

E foi o que ele fez. Pegou as chaves do carro, vestiu a camisa surrada que ganhou quando o time ainda estava na segunda divisão e foi pro estádio. Ela ficou chorando no sofá. Mas não de tristeza, por medo de ser traída ou por ficar sozinha. Era raiva. Muita raiva. Uma raiva que não passava, que só ia trazendo lembranças horríveis do começo do namoro, quando a Sabrina era gorda e ficava no pé deles, querendo que tudo desse errado pra recuperar o homem que havia sido seu.

"Chega", gritou ela. "Quanto mais eu pensar nisso pior eu fico". Rindo de si mesma por falar sozinha, foi tomar um banho. Ligou o som, bem alto, deixou aquele CD rolar. Ela passou o sábado todo baixando músicas pra compor um CD pra eles curtirem no domingo à tarde, namorando e comemorando o aniversário de casamento. Saiu do banho revigorada, cantarolante, colocou o vestidinho curto e cor de laranja que realçava seu bronzeado, abriu o vinho tinto que tinha comprado e foi pra sala dançar. Gargalhava, bebendo direto da garrafa, dançava, cantava... Sentia-se realmente bem, apenas gostaria de estar acompanhada. Toca a campainha.

Ela abre a porta, garrafa de vinho na mão, ainda cantarolando Marina Lima.

- “Meu amor se você for emboraaaa”... Oi André!


- Oi... Teu marido tá aí?

- Acabou de sair.

Isso fez com que ela lembrasse do sonho da semana passada... Sentiu um forte arrepio subindo pela coluna. Subindo não, descendo... "Quer dizer que tá fazendo festa e nem me convidou?" disse o outro Ele, com um sorriso lindo no canto da boca. "Capaz, entra, é meu convidado de honra!"

Puxou André pela mão, empurrou a porta com o calcanhar - estava com os pés descalços - e conduziu seu convidado até o meio da sala. "Pronto, agora é só dançar e cantar. Quer vinho?"

André aparentou surpresa ao perceber que estavam sozinhos em casa, olhou para os lados. "André, tu é meu único convidado, presta atenção!" e gargalhava. Não era efeito do vinho, era felicidade. E uma sensação de liberdade que só sentiu quando mergulhou em Abrolhos. Mas não queria pensar em baleias jubarte agora...

"Então, quer uma taça ou toma comigo?" perguntou, dando um grande gole de vinho e olhando-o nos olhos. Aquele delicioso arrepio voltou, descendo mais um pouco por sua coluna. André pegou a garrafa e deu alguns goles, num misto de sede e busca de coragem. "Qual é o motivo da festa?"

- Tô comemorando meu aniversário de casamento.

- Sem o marido?

- Ele tá comemorando com a Sabrina, lá no estádio.

Não deveria ter dito aquilo. As lágrimas vieram como uma cascata, parou de dançar, sentou-se no sofá com as mãos no rosto. André sentou ao seu lado, passou o braço (aquele braço forte) por seus ombros e puxou-a em direção a seu peito. "Não fica assim, você sabe que ele é esquecido mesmo. E a Sabrina é só uma amiga, eu posso te garantir, também sou amigo dela". O choro foi diminuindo, mas não pelas palavras de André. Foi pelo seu cheiro. Aquele perfume que sempre ficava no carro dela depois das caronas, o cheiro que sentia quando se cumprimentavam. O cheiro que sentiu quando dançou com ele no carnaval. Mesmo suado, cheira bem. "Vocês são o casal mais legal que conheço, parecem perfeitos um para o outro...".

Ela escutava ao longe as palavras de André, mas aquele cheiro enlouquecedor não deixava que pensasse em mais nada. Em busca da fonte do perfume, aproximou-se do pescoço do amigo de seu marido, respirando fundo, como se quisesse tirar para si aquele cheiro todo. O arrepio aumentava, descia cada vez mais, tomava conta de seu corpo todo. Dando-se conta do que estava acontecendo, André tentou por um instante afastá-la de seu corpo, segurou seus ombros mas ela não queria perder o contato e enlaçou-o pelo pescoço. Ficaram com os lábios perigosamente próximos, olhos nos olhos...

"Silenciosamente, Eu te falo com paixão ,Eu te amo calado Como quem ouve uma sinfonia De silêncio e de luz.Nos somos medo e desejo somos.Feitos de silêncio e sons.Tem certas coisas que eu não sei dizer"

As mãos de André passaram dos ombros para as costas dela, enquanto silenciosamente aproximou-se. O centímetro que faltava para que suas bocas se tocassem. Por um breve instante, ficaram imóveis, respiração presa, ainda olhos nos olhos. O beijo começou lento, cuidadoso, quase com medo. Ela, trêmula, descontrolada, gemeu baixinho e colou seu corpo no dele. André, que até então procurava uma maneira de não se entregar ao desejo que lhe consumia há meses, perdeu o último suspiro de moralidade e deixou que seu corpo pesasse sobre o dela. Seja por efeito do vinho ou do tesão, os arrepios aumentavam, a intensidade do beijo crescia, as roupas atrapalhavam a inevitável entrega que não demorou a acontecer ali mesmo, no chão da sala.

O vestido dela foi subindo, as alças descendo. André sem camisa, a calça jogada em algum canto, corpos suados, respiração ofegante, sem camisinha ou qualquer lembrança de que isso realmente fosse necessário.
Ficaram por mais algum tempo aos beijos, recuperando o fôlego e as forças, ainda em silêncio. Sabiam que em algum momento teriam de falar sobre o que estava acontecendo, mas não agora. Esperaram tanto por isso, desejaram-se tanto sem esperanças de matar a vontade, por tantas vezes esconderam a vontade insana que sentiam. Aquele momento seria dedicado apenas ao prazer.

O CD chegou ao fim, assim como o vinho. Conversaram mais um pouco sobre as músicas que ouviram, comentaram da qualidade do vinho, do calor que fazia nesse verão, beijaram-se muito, transaram novamente. Por volta das sete ele se despediu com um longo beijo e um "até amanhã, na academia" e foi embora. Ela ficou deitada no sofá da sala, de vestido mas ainda sem calcinha, sorridente e realizada. "Foi muito melhor do que no mais quente dos meus sonhos, ele é incrível", pensava, inebriada... Deu play no som pelo controle remoto, cantarolava novamente junto com Marina Lima, a campainha tocou novamente. Vestiu a calcinha e foi atender à porta toda sorridente, pensando ser André para um último beijo. Abriu a porta e seu sorriso se desfez. Era Ele, com flores e uma garrafa de champanhe, os olhos muito vermelhos.


- Amor, você me perdoa? Passei a tarde toda na casa dos meus pais, chorando e procurando uma forma de te pedir desculpas.

Confusa, sem saber como, ou melhor, o que deveria sentir, deu espaço para que Ele entrasse, fechou a porta e fico parada, olhando para a bagunça na sala, que ainda exalava o cheiro do André, seu marido parado com os presentes na mão, com um sorriso triste nos lábios.

E agora?

7 de dez. de 2010

Conto do começo

“Foi no dia em que eles se encontraram na praia do Pinhal...”

É, a história poderia muito bem ter começado assim, se Ele não tivesse uma terrível aversão à praia. Na verdade eles se conheceram bem por acaso mesmo, se é que acasos existem... Bem, essa é outra discussão.
Noite de sábado, festa, energia no ar e ele sem o menor ânimo de ir a lugar algum. Tinha dois ingressos comprados para o badalado show da noite, ingressos esses que só foram comprados porque Sabrina, sua namorada na época, tinha insistido que queria ir. A noite se aproximava, Ele ainda sem vontade de sair passa no horário combinado na casa de Sabrina, que o recebe toda desarrumada e vai logo dizendo que não se sentia bem e que não iria sair naquela noite. Ele retruca dizendo que gastou para ver um show que Ele já tinha assistido, e que só comprou os ingressos porque Sabrina queria ir. Sabrina dá de ombros, com ar de quem nada poderia fazer.
Ele sai da casa de Sabrina e liga para um amigo, perguntando se queria comprar os ingressos. O Amigo querendo companhia, o convence a ir vender os ingressos no local da festa, e assim fizeram. Logo que chegaram já conseguiram vender um dos ingressos e esse foi o estopim para o Amigo puxá-lo para dentro da festa.

Ainda meio sem jeito, sem ânimo, fica ali no meio da multidão esperando que algo mágico, ou simplesmente diferente, acontecesse. Se bem que ele nunca acreditou nessas coisas.

Um pouco antes de começar o show, algumas pessoas abordam os dois, Ele e o amigo, para falar do show do dia anterior, no qual eles eram as ‘estrelas’. Uma dessas pessoas era Ela, sorridente e brincalhona que pede para tirar uma foto com os dois, e claro que atenderam ao pedido. A foto? Sim a foto foi um prelúdio do que viria a acontecer, Ele praticamente abraçado com Ela. Naquela noite nada aconteceu além disso, os dois mal se falaram. Ela não iria àquele show nem que pagassem. Mentira. Ganhou o ingresso de amigos e foi. Resolveu que aquele dia cessaria a abstinência de álcool e faria festa com os amigos. Foi o que ela fez.

Ela se divertia se escondendo do ex, no meio da multidão. Divertia-se assustando pessoas desconhecidas, gritando nos ouvidos delas. Divertia-se tirando fotos com os carinhas que Ela viu em cima do palco na noite anterior, e um deles era Ele. Ele ria (dela? Da situação?) No outro dia, Ela se lembrava dele, sem saber se era pela vergonha da própria cara-de-pau ou porque ele trazia alguma lembrança que ela não sabia definir, e assim o procurou pela internet. E... achou.

Descobriram várias coisas em comum, músicas, textos, filmes, comidas e até aquela aversão à praia.

Tornaram-se amigos... E que amizade! Assim passaram-se alguns meses, com raros encontros, mas com uma afinidade e intimidade, mesmo que virtual, até então sem explicação. Ela desacreditava em sentimentos, ele desacreditava em relacionamentos...

"Wouldn't it be nice if we were older
Then we wouldn't have to wait so long
And wouldn't it be nice to live together
In the kind of world where we belong
You know its gonna make it that much better
When we can say goodnight and sleep together
Wouldn't it be nice if we could wake up
In the morning when the day is new
And after having spent the day together
Hold each other close the whole night through
The happy times together we've been spending
I wish that every kiss was never ending
Oh Wouldn't it be nice
Maybe if we think and wish and hope and pray it might come true (run, run, run)
Baby then there wouldn't be a single thing we couldn't do
We could be married (we could be married)
And then we'd be happy (then we'd be happy)
Wouldn't it be nice (ba ba ba ba ba ba ba ba)
You know it seems the more we talk about it

It only makes it worse to live without it
But lets talk about it
Oh, wouldn't it be nice
good night my baby
sleep tight my babygood
night my baby
sleep tight my baby
good night my baby
sleep tight my baby
good night my baby
sleep tight my baby"

Ela está melancólica. Só quer saber onde foi que se perdeu.

3 de dez. de 2010

Conto de Machado de Assis

Os constantes sonhos com André deixaram-na abalada. A crescente amizade entre seu marido e seu “amante onírico” aumentava sua confusão. André virou visita e companhia constante, parecia agora uma extensão do casal.

Ela não sabe se sonha tanto com o outro ele por seu casamento estar morno. Sim, morno, pois Ele está uma pedra de gelo e Ela anda pegando fogo. Por que Machado de Assis continua escrevendo a história de sua vida? Por que não o Drummond, com suas poesias eróticas, ou pelo menos Nelson Rodrigues pra acrescentar alguma emoção – mesmo que adicione um fim trágico. Mas Machado de Assis?

Sente-se Capitu, num dilema interminável... Bentinho já não a satisfaz, é quase um ser desinteressante que co-habita sua casa. E sempre olha de uma forma estranha quando Ela está conversando com Escobar/André... Aquela noite de carnaval, quando Ela animadamente sambava, fantasiada de Mulher Maravilha, Ele sentado bebendo mais cerveja, o outro ele ao lado dela, animada e desajeitadamente sambando, também. “Bentinho” olhava, mas quem pode saber o que se passava na cabeça dele? Ela não sabe se desconfiança, se ficou alegre por ver um (ultimamente) raro sorriso no rosto de sua esposa, ou se simplesmente pensava que a cerveja estava quente.

“Mas toda essa confusão já pode ser considerada uma traição?” pensava ela... Não é só confusão, sempre que olha para André sente um calor inexplicável. Sente arrepios, às vezes fica com a boca seca. Ela sabe perfeitamente o que isso quer dizer: tesão. Capitu morre de tesão por Escobar, mas a existência (marital) de Bentinho a impedem de dar o tão desejado passo à frente.

“Tenho um peito de lata

E um nó de gravata

No coração

Tenho uma vida sensata

Sem emoção

Tenho uma pressa danada

Não paro pra nada

Não presto atenção

Nos versos desta canção

Inútil

Tira a pedra do caminho

Serve mais um vinho

Bota vento no moinho

Bota pra correr

Bota força nessa coisa

Que se a coisa pára

A gente fica cara a cara”

“Cala a boca, Chico Buarque, minha vida tragicômica já tá sofrida demais, não preciso da tua voz me lembrando de que sou covarde”, Ela disse em voz alta. Sentado à sua frente, Ele olhou por cima da página do jornal, por cima das lentes dos óculos demodê, sorriu com um dos cantos da boca e perguntou: “Covarde por que, amor?”.

Ela voltou à realidade, incorporou a Capitu que gritava dentro de si e, com olhos típicos da ressaca em que estava, responde “de trocar de carro. Teria que fazer um leasing, mas o IOF tá me matando”...

Ele resolve deixar o caderno de esportes para mais tarde e ataca os classificados, na seção de veículos, e Ela vai lavar a louça do café da manhã, já que hoje é domingo e André vem para o almoço...

30 de nov. de 2010

Conto da traição

Ele sentou-se à mesa para tomar o café da manhã, e dando-se conta do quão atrasado estava, saiu correndo de casa. Ela, aproveitando sua manhã de folga, acorda e resolve que vai fazer yoga. A campainha toca, Ela respira fundo mas atende. Quem quer que fosse já estava atrapalhando seus planos para a manhã. Ela abre a porta: era o outro Ele, André. Simplesmente perfeito, na sua frente, parecendo que os olhos realmente a procuravam.

- Bom dia. Seu marido está em casa?

- Acabou de sair – diz Ela, ainda desconsertada.

- Era tudo o que precisava saber.

André a agarra pela cintura e os olhares se encontram. Ela empurra a porta, que fecha em uma ‘bac’, ainda meio assustada, confusa, sem saber direito como reagir. Ela apenas o olha, sem saber também se a vontade era de se entregar ou de fugir.

André diz o quanto a deseja, que não agüenta mais controlar seus instintos, e a domina com suas palavras.

Beija-a.

Ela beija... o outro Ele, que passa suas mãos quentes pelo corpo dela e a deixa louca de desejo, e o beija com mais fervor e arranha, lhe tira a camiseta. Assim, atracados, sobem até o quarto. O outro ele deita Ela na cama e beija todo seu corpo, tirando-lhe a roupa aos poucos, passando as mãos como que decorando cada detalhe do que sentia. A pegada dele, o jeito que André a tocava e a fazia sentir-se desejada, isso a enlouquecia, fazia Ela querer mais.

No radio, Prince – Purple Rain, abraçando o momento.

I never meant to cause to any sorrow
I never meant to cause you any pain
I only wanted to one time see you laughing
Only wanted to see you laughing
In the purple rain
Purple rain
Only wanted to see you bathing
In the purple rain
I never wanted to be your weekend love
I only wanted to be some kind of friend,
hey, Baby,
I could never steal you from another
It's such a shame our friendship had to end
Purple rain
Only wanted to see you under neath the purple rain
Honey, I know, I know, I know
Times are changing
It's time we all reach out for something new
That means you to
You say you want a leader
But you can't seen to make up you mind
I think you better close it
And let me guide you
Until the purple rain
Purple rain
Only wanted to see you In the purple rain

As mãos dela envolvem o corpo dele agora, ele a beija no pescoço. Arrepios. As mãos dela o agarram com mais força. Ela o quer, deseja, quer ali e já. O outro Ele a quer, sussurra em seu ouvido o quanto ele quer devorá-la todinha, ali mesmo.

Os corpos se unem, se fazem um só.

De repente o celular toca, Ela não quer atender, ignora. O celular não para. Pode ser Ele. Sim, é Ele. Ela deve atender. Estica o braço pra alcançar o aparelho, o outro Ele a beija no pescoço, morde seu queixo. Ela o encara, o beija. Celular tocando, ela atende enquanto André passa a língua no corpo dela. O corpo que tantas vezes o fez perder a linha, agora ali, todo dele. Celular toca. Ela agarra André, fica por cima dele, dominando o outro Ele, beijando o outro Ele, fazendo entender o quanto o outro ele a excita, a enlouquece. Continua tocando o maldito celular. Ela atende. Celular toca. Ela já havia atendido. Celular não para.

Ela acorda com o despertador na orelha. Um misto de sentimentos. Não gostou de ter acordado, sentia-se feliz. Contrariada, foi tomar uma ducha fria.

26 de nov. de 2010

Conto dos braços malhados

Outra noite quente na academia, ela ta de tpm e com fome. Nada de anormal, nada que cause uma queda de pressão, mas queria comer algo bem gostoso, frito, grande... uma gordice, tipo X-Tudo com muita mostarda. Nada de H2O ou Coca Zero, queria uma cerveja gelada... Mas ao invés disso tava lá, toda suada, fazendo força naquele maldito supino. "Pra quê?", pensava ela... Quando experimenta uma calça, não é com os braços que se preocupa. Quando vai de biquíni á praia, não é pra ver o bíceps que ela se contorce de costas no espelho.
E o pior da seção de tortura: ele. Agora resolveu que vai ser o personal trainer dela, "ajudando" a malhar. Está posicionado atrás do aparelho, contando os movimentos e falando palavras de incentivo como "vai amor, só faltam três". Ela só conseguia pensar no som de “Bili Rubina”:

"Meu amor, eu te odeio
Você me perturba
E um dia ainda vou conseguir te matar

Meu amor, não sei o que eu sinto
Tô num labirinto
E esqueci de trazer um fio prá retornar

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo

Meu amor, não fale comigo
Sou teu inimigo
E um dia ainda vou conseguir te matar

Amor, cale tua boca
E tire tua roupa, benzinho
E vamos acalmar nossa dor

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo"

E ele ainda ali, animado, achando que ela contorcia o rosto por fazer força pra levantar o peso. Mas era raiva mesmo... ele, como sempre, cheio de boa vontade, querendo ajudar. Foi o primeiro homem que a convenceu a malhar, mesmo dizendo que ela é a maior gostosa da face da terra. Ela sabe que não é, mas ele a faz acreditar nisso sempre. Ele a mantém com a auto-estima lá em cima... "bora, amor, é o último". Ela sorriu de leve, respirou fundo, terminou o exercício e passou para o próximo aparelho. "Zeus, como eu odeio malhar braço..."

23 de nov. de 2010

Conto do telecatch

“Amor, tá começando a luta, vem logo!”

“Eba” pensa ela, “adoro essas lutas coreografadas do SBT”, pega a pipoca no microondas e vai pra sala. Aconchega-se no sofá, deita a cabeça sobre a coxa dele e começa a rir da indumentária do desafiante. “Linda, se um dia eu pensar em aceitar dinheiro pra fazer isso, com esse tipo de roupa, me interna, tá?”, e os dois caíram na risada.

A luta seguia, descaradamente coreografada. Ela ganhava cafuné na nuca, foi ficando preguiçosa e acabou por dormir. Ele percebeu e diminuiu o volume da televisão, afinal ela acordou cedo pra fazer faxina em pleno sábado, enquanto ele passeava com os cachorros. Pensava em como ela é dedicada a tudo o que faz, desde uma faxina até a preparação de material para uma reunião importante no trabalho, sem descuidar dele, da casa e da própria aparência. Aliás, que aparência! Ela tem estilo, tem classe até de biquíni fio dental. É alegre, criativa, uma santa na rua e uma... “Eu devo ter sido uma pessoa muito boa em outra vida.”

Ela abre os olhos por um momento, quando o locutor grita “fim de luta por nocaute”, parece um pouco assustada. Olha em volta e lembra que está no sofá com ele. Sorri, ajeita-se melhor e cochila novamente.

Ao se virar, o vestido subiu e deixou seu corpo á mostra. Ele esqueceu a luta que recomeçava e ficou olhando as curvas de sua esposa. Malhada, bronzeada, as formas mais bonitas do que quando se conheceram, e já se vão anos do começo da relação. Lembrou da música que dedicou a ela num karaokê, totalmente bêbado, quando a pediu em casamento...”tens um não sei o que de paraíso e o corpo mais preciso que o mais lindo dos mortais, tens uma beleza infinita e a boca mais bonita que a minha já tocou...”

Seus olhos, repentinamente, se encheram de lágrimas, sentiu-se culpado.

“Se eu amo tanto minha mulher, se admiro tanto, porque penso tanto na Sabrina?”

19 de nov. de 2010

Conto do nanana

Segunda à noite, calor inacreditável, a chapinha do fim de semana desmanchando-se no rabo de cavalo mal fixado, academia cheia e barulhenta.

Ela odeia malhar, mas é um mal necessário. Após alguns meses de exercícios forçados começou a perceber o efeito em seu corpo, que está muito mais firme, sente-se melhor e com mais energia. Aliás, hoje ela se sente linda no short de suplex e camisetinha branca, com top preto por baixo. Até ele comentou que ela anda muito gostosa...

O pior de tudo é a esteira. Fica logo na entrada da academia, parece que querem mostrar pra todos que as pessoas estão se esforçando lá dentro. Ela aumenta o volume no mp4 (o som ambiente é de trincar os tímpanos), respira fundo e começa a correr. Quase cantarolando, sente uma disposição anormal pra se mexer. Aumentou a velocidade. O suor já descia pelas costas e pela barriga, passou a toalhinha pelo rosto. Quando abriu os olhos novamente, achou que estava tendo uma ilusão de ótica. Olhou para os lados, respirou fundo e olhou de novo: era o outro ele sim! Lindo, de bermudão e regata, segurando um squeeze com umas pedrinhas de gelo dentro. E ela sentindo tanta sede...

O mp4 começa a tocar Wonkavision:

"Faltam poucas horas para eu ir

E ainda não sei o que vestir

Pra ter certeza de te impressionar

Já pus o meu armário para o chão

Sem encontrar qualquer solução

Eu queria apenas te agradar

Olho o espelho e vejo alguém confusa

Achando que uma blusa vai fazer

Ele se apaixonar

Faço o que for pra ganhar o seu amor

Nana nananana nananana

Sei que mesmo que a cor do meu batom

Venha a ser do mais perfeito tom

capaz de tirar sua respiração

Não quero que isso aconteça assim

Quero que enxergue através mim

Por baixo de toda essa produção

Olho o espelho e vejo alguém confusa

Achando que uma blusa vai fazer

Ele se apaixonar

Faço o que for pra ganhar o seu amor

Nana nananana nananana

Seja o que for, bom, tudo bem

Vem, sempre tem quem faça a alguém bem

Mesmo sem-sem saber bem-bem

Quem é quem ou de ninguém

Tanto faz, mas quero mais-mais

Foi tão bom-bom, com você-cê

Se quiser mais-mais, tudo bem-bem"

"Droga, tô toda desarrumada, descabelada, nem usando gloss eu tô!", ela se recrimina. Diminui a velocidade da esteira (tropeçar agora não seria uma boa) e finge que é uma samambaia. Olhos fixos na parede à sua frente, passa novamente a toalha pelo rosto. Quando abre os olhos, não vê mais a parede e sim ele e o outro ele, conversando.

- Amor, esse figura vai malhar no mesmo horário que a gente!

Figura? Já tá assim a coisa? "Oi, tudo bem?", cumprimenta, quase sem fôlego, mas pelo menos dessa vez ela falou... "Vais treinar luta também?" perguntou, pra não morrer o assunto, "sim, teu marido me falou que o mestre é tri bom" "legal, começa a alongar que o treino é daqui a pouco!" sugere, sorrindo e suando, e aumenta novamente a velocidade da esteira, como que encerrando o papo.

O outro ele sorriu, deu dois passos em direção à sala de artes marciais mas parou exatamente ao lado dela. Como é muito alto, seus olhos ficaram no mesmo nível, muito próximos, e ela ouviu baixinho "tu é a única mulher que eu conheço que fica linda suada e correndo na esteira, nem assim tu perde a elegância"... e seguiu pra aula.

Logo em seguida acabou a bateria do mp4 e ela foi malhar braço, revezando aparelho com aquelas patricinhas cor-de-rosa da recepção.

16 de nov. de 2010

Conto do Encontro

Madrugada de sábado pra domingo, fim de festa, ela chateada porque dançou pouco, ele chateado porque bebeu pouco. Ela olha pro lado e vê o cara interessantíssimo que conheceu naquela entrevista de emprego, de calça jeans e camiseta branca. Lindo e sorrindo pra ela. Acena e continua andando ao lado de seu marido, que a puxa em direção à saída.

Surpreendentemente, ela vira e diz "amor, te importa de ficarmos mais um pouco? Acabei de ver um conhecido, quero te apresentar a ele." E o tal conhecido era ele. O outro ele, com o qual ela andava sonhando ultimamente. O outro ele povoa seus sonhos sem pedir licença, lépido e fagueiro, serelepe como um menino que faz traquinagens no quintal do vizinho. E é – literalmente – o quintal do vizinho... Eles se cumprimentam, ela o cumprimenta (novamente), ele se lembra que os dois se conheceram na entrevista pro emprego que ela não conseguiu, e a conversa se seguiu. Eles conversavam, mas ela impressionantemente emudeceu. Não queria falar besteiras, não queria transparecer o nervosismo, ficou insegura. Tremia, suava nas mãos, os joelhos sumiram. Ele convidou o outro ele pra um mate no domingo à tardinha, despediram-se e foram pra casa.

Qual era mesmo a música que tocava no som ambiente do escritório, no dia da entrevista? Era um dos Stones, mas qual... não era Angie... ah, era Simpathy for the devil:

" Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long, long year
Stole many a man's soul and faith
And I was 'round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate
Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game
I stuck around St. Petersberg
When I saw it was a time for a change
Killed the Czar and his ministers
Anastasia screamed in vain
I rode a tank
Held a general's rank
When the Blitzkrieg raged
And the bodies stank
Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
What's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah
I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the Gods they made
I shouted out
"Who killed the Kennedys?"
When after all
It was you and me
Let me please introduce myself
I'm a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadors
Who get killed before they reached Bombay
Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's confusing you
Is just the nature of my game
Just as every cop is a criminal
And all the sinners Saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint
So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
Use all your well-learned politesse
Or I'll lay your soul to waste"

Pareceu tão pertinente...

"Amanhã vou acordar cedo e fazer uma big faxina na casa e em mim", pensava ela, enquanto tomava um banho pra ir dormir.

12 de nov. de 2010

Conto da pergunta que não quer calar

Noite de terça-feira, zapeando os vários (e inúteis) canais à espera da NBA, ansiosos pelo jogo entre Lakers x Bulls, conversando sobre a beleza da Luciana Gimenez e a falta de beleza da Suzana Vieira... Benoliel (ela pensa "credo, que nome feio”, mas não comenta, enquanto avalia os personagens da novela) e sua "gatinha" (ele pensa "realmente, ela é uma gata, mas minha princesa tem os cabelos bem mais bonitos”) conversam, trocam declarações e um beijo. Parece ser o primeiro... Que saudade da sensação do primeiro beijo, ela pensa. Olha pra ele, que voltou a zapear os canais, com cara de paisagem.

"Como foi bom nosso primeiro beijo"...

Mas o que mudou? Por que agora ela olha aquela boca e... nada? Não sente mais aquela ânsia louca de ficar grudada naqueles lábios? Ela ainda se sente tão bem dormindo naquele peito com poucos pêlos, com aqueles braços
acariciando suas costas... Sente muita segurança no abraço dele. Mas não tem mais paciência pra beijos intermináveis.

Lembrou do jovem casal do parque, naquele final de tarde. E lembrou-se do que sentiu quando o beijou pela primeira vez. Parecia que não havia ninguém naquela praça à beira da praia em pleno janeiro. Chuviscava, estava quente.
Não lembra mais qual era a música, se é que havia música...


Ele continua trocando de canal e encontra um clip do Evanescence:

"I'm so tired of being here
suppressed by all of my childish fears
and if you have to leave
i wish that you would just leave
because your presence still linger here
and it won't leave me alone

These wounds seem to heal
this pain is just too real
there's just to much that time cannot erase

when you'd cry i'd wipe away all of your tears
when you'd scream i'd fight away all of your fears
and i've held your hand through all of these years
but you still have all of me"

Ela tenta resgatar aquela boca seca, o coração saltitante no peito, o tremor nas pernas, o arrepio que foi subindo (e descendo) pela coluna enquanto as mãos dele tocavam suas costas. Lembrou com tanta saudade da
primeira vez que ele a segurou pela nuca, que chegou a fechar os olhos e dar um pequeno suspiro, quase um gemido. Ele, sem perceber que ela estava com os olhos fechados e a respiração um pouco ofegante, comenta "você gosta dessa música, né? Se importa de eu ver se o jogo já começou?"

Música? Jogo? Ah, sim, pode trocar, sem problemas. Por Deus, pra onde foi toda aquela paixão?

9 de nov. de 2010

Conto do eu falante

- Tchau amor!

- Tchauzinho!

Ele saí. Ela pensa: porque só ele tem que trabalhar em véspera de Natal? Assim, ela pensou em fazer um jantar especial para ele, já que não teriam ceia mesmo, só os dois. A melancolia do Natal tomava conta dela. Chocolate. Vontade repentina de tomar chocolate. Ela liga pra ele. Telefone toca, ele atende. Ela diz: -Amor, tudo bem?

- Aham, o que quer?

- Nossa (respira fundo)! Amor, você pode trazer um pote de chocolate quando vier pra casa?

- Levo.

Ele desliga o telefone. Uma lágrima caiu dos olhos dela. Só o Natal a deixa tão sensível, ele sabia disso. Ou não? Sim, ele sabe. “Nunca deixo transparecer”. Ele sabe. “porque foi tão seco comigo?” Ela se sente só. Longe da família. Longe dos amigos. Fazia algum tempo que a vida deles era assim. Ele e ela e mais ninguém. Com o som ligado, ela arruma a casa para esperar o retorno dele.


“Ele deve estar ocupado... sim, está ocupado”. Varre a casa. “Ele poderia estar ocupado, mas poderia não estar também” “Ele gosta de outra, certo que sim, deve ter medo de me magoar, não quer me fazer sofrer”. Ela chora e arruma a cozinha.

“Porque ele não me contou logo que gosta dela? Me pouparia de tanta coisa” Acha o celular dele em meio as arrumações da sala. “Não vou olhar! Celular é pessoal demais, estaria sendo histérica demais”. O celular pisca, ela se rende e o pega. Larga em cima da estante e resolve fazer um jantar. Talvez o último jantar para os dois. Gostaria de ouvir as confissões dele, olhando em seus olhos. Entre seus passos até a cozinha, pensava o quanto mexer nas coisas dele não fazia parte dela, e ela estava caindo nessas tentações.

“Minha vontade é por veneno no prato dele, ele não tem o direito de fazer isso comigo”.

“Pára, ele sempre gostou de nunca existirem cobranças em nosso relacionamento, porque me sinto assim?” Queima o arroz, ela sente raiva. Joga a panela pra dentro da pia. Lava.

“Quer saber? Ele não merece um jantar”. As lágrimas se misturam ao sabão e à água corrente. Ela vai pro banho. “Dói ter feito as escolhas que fiz. Deixei muita coisa de lado pra tentar ser feliz com ele. E pela maior parte do tempo eu fui, não mereço um final assim”. Sai do banho e se arruma como se fosse à uma festa. Ela resolve ir pessoalmente comprar o chocolate. Sim, se arruma toda para ir ao mercado, as pessoas vão achar que o Natal dela é importante. Sim, é o final de uma história, merece uma roupa à caráter.

“Vou avisá-lo que eu mesma vou comprar o chocolate”. Liga para a empresa, o telefone toca, toca, ninguém atende. Ela baixa a cabeça. “É a prova definitiva, fingiu bem, achei que estava com “nóias”, mas não. Se confirma”. Ela limpa a lágrima que rolava por sua face, para não borrar a maquiagem.
Olhou o celular dele mais uma vez, foi na direção dele, mas desviou o caminho. Foi até sua bolsa e decidiu ir comprar o chocolate, e passear sozinha, pra ver pessoas diferentes.
O rádio toca a canção deles, “More than words”:


Saying I love you
Is not the words
I want to hear from youIt's not that
I want you
Not to say, but if you only knew
How easy it would be to show me how you feel
More than words is all you have to do to make it real
Then you wouldn't have to say that you love me
Cause I´d already know
What would you do if my heart was torn in two
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if
I took those words awayT
hen you couldn't make things new
Just by saying I love you
More than words
Now that I've tried to talk to you and make youunderstand
All you have to do is close your eyes
And just reach out your hands and touch me
Hold me close don't ever let me go
More than words is all
I ever needed you to show
Then you wouldn't have to say that you love me
Cause I'd already know
What would you do if my heart was torn in two
More than words to show you feel
That your love for me is realWhat would you say if
I took those words away
Then you couldn't make things new
Just by saying
I love you More than words...


Ela teve certeza que era hora de acabar com aquele sofrimento, pegou a chave da casa, e no exato instante, ele chega em casa. Dá um beijo na testa dela, diz o quanto está cansado, não nota que ela estava maravilhosamente produzida, saindo de casa. Ela percebe que ele se esqueceu do chocolate. Ele explica que passou o dia trabalhando sob cuidados do chefe, pediu desculpas pela forma que teve que agir no telefone, deseja um feliz natal. Ela viu que ele estava sendo sincero, quando Ele foi pro banho, Ela saiu para comprar chocolate.

5 de nov. de 2010

Conto da epifania ululante

Ela acorda de madrugada e ele não está na cama.
Silêncio na casa. Ou seja: não deve estar no computador, nem assistindo televisão, nem fumando lá fora (ela sabe quando a porta fica aberta, os cachorros entram). De repente aquela cama, já tão grande, parece imensa.
E no instante seguinte, ela se sente livre. Será que ela ficou novamente bêbada, novamente brigou com ele e mandou que saísse de casa?
Será que ele deixou que ela ficasse bêbada pra ter o sono mais pesado, aproveitando pra sair sozinho? E se ele tiver saído sozinho, será que ainda está sozinho?

Sentou-se na cama e ficou olhando pras coisas do quarto. Olhou para o guarda-roupas... ele achou um absurdo comprar um móvel tão grande, e semana passada tiveram que comprar uma cômoda, pois não havia mais lugar pras camisetas dele. Isso porque as saias dela, claro, tomaram o espaço nos cabides. Olhou pra televisão... Eles gostam tanto de assistir os seriados na madrugada da TV... e conversam, trocam carinhos delicados, e acham falhas
no roteiro...

Já com os olhos marejados, ela começa a sentir um aperto no peito.
Entendeu que, se as coisas não estavam lá muito fáceis com ele a seu lado, sem ele ficariam insuportáveis! Quem a convidaria pra ir ao cinema domingo á tardinha (mesmo pra um filme de violência)? Quem traria água no meio da noite, quando ela acordasse de seus frequentes pesadelos?
Quem a acordaria dando mordidinhas em sua nuca toda manhã?

As lágrimas corriam por seu rosto, ela olhava pro travesseiro dele sem coragem de se mexer. Ao fundo, bem baixinho, ouviu Barão Vermelho, provavelmente vindo da casa do vizinho.

"Por Você!
Conseguiria até ficar alegre
Pintaria todo o céu
De vermelho
Eu teria mais herdeiros
Que um coelho..

Eu aceitaria
A vida como ela é
Viajaria à prazo
Pro inferno
Eu tomaria banho gelado
No inverno..."

Soluçava, maldizia a caixa de cerveja que bebeu à noite. "O que eu falei pra ele ir embora?", já estava certa de que a culpa era dela.

Barulho no banheiro do quarto de visitas ("alguém veio pra cá ontem?"), ele entra no quarto enrolado em uma toalha...

"Amor, acordei morrendo de calor e fui tomar banho no outro quarto pra não te... ei, você tá chorando?" perguntou, sentando-se ao lado dela e a abraçando. Abraçou tão forte, como se quisesse tirá-la do aparente transe. Não era transe. Ela ficou hipnotizada de alegria ao vê-lo entrar, e se deu conta de como fazia tempo que não prestava atenção nele. Ele, assim só de toalha, parecia um modelo de outdoor da Teka!

"Foi só mais um daqueles pesadelos, meu amor, não fica preocupado", e o abraçou tão forte, como há tempos não fazia. E aproveitou que ele estava só de toalha...

2 de nov. de 2010

Conto do maldito celular

Noite quente de quarta-feira, festas de final de ano, nada pra fazer. Eles acabam indo pra casa de um casal de amigos, tomar umas cervejas e conversar. Conversar? tsc... E a anfitriã nem sai do quarto, está fazendo escova no cabelo. O dono da casa, um outro amigo e ele conversam animadamente sobre jogos de computador e vídeo-games. Ela odeia violência, mesmo em filmes e jogos. "o pior jeito de morrer é facada" diz o amigo. "Ele já morreu?", pensa ela... “se morresse não faria falta pra humanidade, pode estar certo disso”. "Tô jogando um agora que sou agente duplo, então depois que vencer, tenho mais duas formas de completar tudo de novo", diz seu marido.

Ai saco, mais um mês ouvindo esse jogo idiota! Ela bebe o último gole do vinho tinto doce que serviram já pensando na azia matinal do dia seguinte, em decorrência do vinho vagabundo. Mas naquele momento qualquer entorpecente seria muito bem vindo.De repente um carro chega, ouvindo Rolling Stones. Ela lembra do cara interessantíssimo que conheceu naquela entrevista de emprego que não deu certo, ele também ouvia Stones..."Start me up", pensa ela...a mesma música que o cara interessantíssimo ouvia. Ela continua afundada na cadeira branca de buteco, com a cabeça apoiada no encosto da cadeira. "Se é amigo desses chatos eu nem quero conhecer". O amigo entra, cumprimenta todos (inclusive a ela, pelo nome) e senta ao lado dela. Alguém serve nova rodada de vinho pra todos, ao que ele comenta, baixinho, com ela "o vinho lá da serra é bem melhor, né?". Epa! Foi esse
comentário que aquele cara interessantíssimo fez... Ela olha para o lado e é ele! Tentando disfarçar a surpresa, ela dá um sorriso e diz "sim, mal sabem eles como aqueles vinhos são bons." O cara também sorri.
Os outros continuam na empolgante conversa sobre facadas, granadas e Tomb Rider's, ela boceja, o cara interessantíssimo comenta, baixinho "eles vão
reparar se a gente for ao Posto comprar um vinho melhor?", ela responde que eles nem vão perceber. Eles se levantam devagar, sem arrastar as cadeiras, saem da casa, entram no carro e, literalmente, fogem.

O posto é perto, poderiam ter ido a pé, mas parece que queriam se aproximar... Chegam ao posto, procuram um vinho e nada... só aquelas porcarias doces e tingidas artificialmente... "Não entende como cantada barata, mas a gente pode passar lá em casa pra pegar um vinho? Não tô a fim de tomar isso aqui". Ela topa e eles vão. Ela não sai do carro: "se eu entrar nessa casa só saio amanhã", ele volta rápido com uma garrafa de vinho tinto Chateau La Cave. "Gente, até no vinho esse homem é perfeito?" Ele entra novamente no carro e vão em direção à autoestrada. "Ei, mocinho, pra onde vamos?", ele sorri (“ai caramba, que sorriso lindo”). "Não te preocupa, é aqui perto, tem um lago que fica lindo durante a lua cheia. "Papai Noel, obrigada" pensa ela. Ela não sabe ao certo como tudo aconteceu, mas de repente eles estavam aos beijos, apoiados no capô do carro, ouvindo Cachorro Grande:

"Sinceramente você pode se abrir comigo
Honestamente eu só quero te dizer
Que eu acertei o pulo quando te encontrei
Acertei
Eu sei a palavra que você deseja escutar
Você é o segredo que eu vou desvendar
Você acertou o pulo quando me encontrou
Acertou o pulo quando me encontrou
E então o nosso mundo girou
Você ficou e a noite veio
Nos trazer a escuridão
E aí então
Eu abri meu coração
Porque nada é em vão"

A garrafa de vinho já vazia, esquecida na grama... as bocas já não se desgrudavam a não ser para um gemido ou mordida no pescoço. Fazia tento tempo que ela não sentia tesão, tanto tempo que não sentia vontade de transar...Fazia tanto, mas tanto tempo que não se sentia desejada daquela forma...Não pensou em marido, aliança, casa, no que iam pensar se ela largasse tudo pra ir embora com esse cara interessantíssimo que conheceu naquela entrevista de emprego, mesmo sendo ele o provável futuro chefe...

"Gostei do seu charme e do seu groove
Gostei do jeito como rola com você
Gostei do seu papo e do seu perfume
Gostei do jeito como eu colo com você"

O cheiro dele é perfeito, o gosto dele é perfeito, não é nem muito alto nem baixo, nem magro nem todo malhado, é só aquele cara standard que ela queria. Básico e perfeito.

"Se ele me pegar pela nuca eu derreto", pensou... E as mãos dele foram subindo pelas costas dela, que estavam desnudas pela blusa frente-única... até que chegaram na nuca. Agora definitivamente ela não pesava em mais nada. Não havia um mundo, só os dois, a lua e o lago.

De repente ela ouve a risada da Simone Cabral, locutora do “Cafezinho”, uma risada bem roncada... "pera, isso não é horário de Cafezinho, que merda é essa?"...

"Teu celular tá tocando", dizia ele.

"Ãhn?"

Olha pro lado, e o marido insiste: "Tá dormindo ou tá bêbada? Teu celular tá tocando"

29 de out. de 2010

Conto do dèjá vú de Natal

Especial do Roberto Carlos na Globo, os outros canais com a programação ainda pior. Ela zapeia, mas não há muito o que assistir. Ele, de boca aberta, ronca ao lado dela.

"Nos lençóis macios, amantes se dão,

travesseiros soltos, roupas pelo chão"

O dia dela foi horrível, sem colocar o nariz pra fora de casa. Ele saiu pra “pedalar" um pouco e voltou três horas depois, bêbado. Os amigos ligaram chamando-a pra sair, mas ele tinha levado a chave e a carteira. Quando ele chegou, ela já estava com os olhos tão inchados que nem maquiagem disfarçaria. Se reclamar, ele briga. Se chorar, ele briga. Se ficar quieta, ele briga dizendo que ela está disfarçando.

Ela não sabe mais o que fazer, o que dizer, o que vestir pra que ele note que emagreceu. Ela não sabe mais que tipo de atitude tomar para que ele, só uma vez, a elogie. Pode ser um elogio pela escolha adequada da roupa, por sua criatividade, pelo seu bom humor mesmo com tudo que tem passado, ou talvez por ela não precisar usar maquiagem. De fato, não precisa. Só quando ele a faz chorar.