Mostrando postagens com marcador Contos aleatórios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos aleatórios. Mostrar todas as postagens

16 de fev. de 2012

O homem dos meus sonhos

Eu já havia perdido as esperanças de encontrar esse homem. Sonho com ele desde sei lá que idade, quando comecei a me interessar por meninos. Tinha o garoto mais bonito da sala de aula, mas nele faltava o ar de cafajeste. Sim, pois homem tem que ter cara de cafajeste.
Depois o amigo do meu irmão, cabelos longos, cara de mau. Tocava guitarra, tinha tatuagem, fumava e, por isso, me desinteressei. Sempre achei cigarro uma fraqueza, e homem pra mim pode ser no máximo ex-fumante.
Na faculdade me apaixonei pelo professor de Teoria e Prática Cambial. Alto, jeito de atleta, sorridente, um linguajar invejável, sotaque de paranaense. Isso transformou a apaixonite em um pedido de mudança de curso, porque homem pra mim tem que ter sotaque de gaúcho ou paulista. Ou sem sotaque, tipo o Willian Bonner.
Em meu primeiro estágio tive um caso com o gerente de RH. Pensando friamente nesse romance, acho que foi por isso que consegui a vaga, mas não importa mais. Ele tinha olhos verdes, cabelos arrepiados, alto como o professor de Teoria e Prática Cambial, bonito como o colega da escola, cara de cafajeste como o amigo do meu irmão, mas meio gordinho. Não dava, gosto de canalhas, e todo canalha é magro.
Acabei me casando com um cara super bacana que conheci na sala de espera do fisioterapeuta, ele havia caído de moto e estava recuperando os tendões das pernas, eu tratava minha eterna condromalácea por trabalhar sentada e usar salto alto quase que o tempo todo. Não muito bonito, estatura mediana, fala suave, gestos bruscos, às vezes some durante a tarde e até acho que ele me trai. Não me importo, porque eu tenho um caso extraconjugal com o homem dos meus sonhos.
Alto, magro, bonito, olhos verdes, cabelos bagunçados e com alguns fios grisalhos típicos de um bom cafajeste, sotaque forte de paulistano da capital, baixista de uma famosa banda de rock, ex-fumante, ex-viciado. Temos encontros tórridos, ás vezes conseguimos viajar para algum lugar não muito distante, apenas pra tomar um vinho em um lugar diferente. Longos beijos, abraços apertados, bilhetinhos apaixonados, emails com remetente falso, torpedos enviados pelo site da operadora para não identificar seu número, gargalhadas solitárias ao lembrar de brincadeiras picantes.
Infelizmente não podemos transformar essa relação fortuita em algo oficial por uma simples razão: encontrei o homem dos meus sonhos nos meus sonhos.

13 de fev. de 2012

O livro

Então ela abriu o livro que há semanas começara a ler sem muito avanço pelas páginas e percebeu que estava todo em branco. Folhou, folhou e a conclusão era sempre a mesma: estava louca.

Aquilo não fazia sentido, na noite anterior tinha pego o livro, percorrido algumas linhas, lido sem muito interesse, mas mesmo assim todas as letrinhas estavam ali, formando palavras que eram possíveis de entender, estava tudo normal. Agora já não mais, tudo em branco, somente o vazio preenchia aquele livro. Primeiramente, ansiou estar sonhando, mas isso acontecia nos livros que ela lia, ou tentava ler, não com ela. Nunca com ela.

Quando tirou os olhos do livro e fitou a parede que reinava em sua frente, viu que sua vida, de repente, se tornara preta e branca, e não era um caso clínico, patológico, muito menos daltonismo repentino, era a falta de vida em sua própria vida.

Marina percebeu que os dias que vieram se arrastando até ali não trouxeram nada que ela pudesse sentir falta, muito menos alguém que a deixasse com saudade. Desejou sentir saudade, puxou de toda a memória possível e não encontrou ninguém para dar a ela esse sentimento.

Sabia que sua vida tinha sido sofrida até ali, perdeu a mãe com dois anos, o pai aos treze, e graças a grande idéia dos pais de terem fugido para ficarem juntos, usarem nomes falsos para ela, não encontrou outra pessoa qualquer da família. Foi morar em um abrigo e por já ser tão velha, ter vivido tanto, ninguém quis adotá-la.

Morou no abrigo até terminar os estudos, depois foi trabalhar em casa de gente rica. Um dia a sorte lhe sorriu e ganhou uma pequenina casa do governo, sabia que tinha dedo dos patrões no meio, mas eles nunca disseram nada, apenas agradeciam “obrigado por ter salvado nossas vidas”.

A vida deles, eles queriam dizer o pobre Vicente, que tinha berço de ouro, mas não sabia quem eram os pais. Isso também Marina achava que só acontecia nos seus livros, mas também aconteceu com ela, chegando a um ponto do bebê chamá-la de mãe. Sua primeira palavra.

Foi numa dessas que veio a carta de demissão, sem constar motivos, os patrões dizendo que gostavam muito dela, mas que os serviços já não estavam sendo suficientes. E na coincidência que só a tal vida traz, o mundo lhe sorriu trazendo aquela casa que ela viu ser posto cada tijolo e lá começou também a construir sua vida sozinha.

Sozinha. Como essa palavra pesou naquele instante de memórias revividas, sentindo cada célula do corpo gritar a ausência de pessoas ao seu redor. Suas companhias eram aqueles livros que no abrigo ensinaram que poderiam ser retirados gratuitamente na biblioteca municipal.

Agora o próprio livro tinha terminado com sua alegria, com seu prazer da leitura mesmo esse prazer fosse sentir o cheiro do livro e imaginar-se em outra vida, com o livro fechado. Ela dizia que essa era uma das magias do livro, ele poderia levá-la a qualquer lugar, mesmo sem ler uma página sequer. E não sofria reprovações, afinal, ninguém estava ali para ouvi-la mesmo.

Aquele livro começou a assombrar Marina. Como ela o entregaria naquele estado para a biblioteca? Todo em branco, na capa só dizia O LIVRO, e não mais aquele título em letras curvadas, tão lindas em amarelo e vermelho, que ela não consegue lembrar qual era.

Fechou os olhos e abriu o livro mais uma vez, também abriu os olhos, mas nada, nenhuma palavra quis novamente se materializar ali. Teve vontade de chorar, mas ainda passava muita coisa em sua cabeça. Desacreditava em deus porque não podia existir um ser superior que quisesse que ela sofresse tanto assim. Acreditava em Deus porque era a única explicação por passar por tantas provas e expiações em sua vida.

De súbito, Marina levantou-se da borda de sua cama, foi até a janela e viu que não havia mais paisagem. O branco tinha tomado conta de tudo. Lembrou de uma passagem que a professora do primário falou, que quando estamos tristes o mundo passa a ser cinza. Mas o mundo de Marina era preto e branco, como um desenho iniciado.

Ela era este tormento todo, a confusão mental e a indecisão espiritual, a mistura monocromática que instantaneamente começou a governar aquela vida, mas acima de qualquer coisa, ela era só. Abraçada no livro como em um amigo que há muito tempo não vê, mas ela não fazia idéia do que era ter amigos, contar de verdade com uma pessoa. Pessoas que ela havia conhecido ao longo de sua trajetória, tinham se perdido no tempo. A maioria ela nem lembrava o nome, outros soubera que tiveram filhos, foram estudar longe, mas ela estava ali. Estagnada. Crua.

Assim que Marina foi encontrada alguns dias depois. Deitada sobre a janela, abraçada em um livro velho, olhar perdido para o horizonte e um corpo magro, cansado e já sem vida.

9 de fev. de 2012

O silêncio, o calor e o limoeiro

Silêncio.
Inesperado, repentino, chegou como um trovão em céu azul.
O céu estava azul, forte calor, alguns minutos depois... Silêncio.
Os sons habituais do computador, rádio online, ar condicionado, cachorro latindo, carros passando na rua, telefone, até a geladeira que volta e meia dá aquele tranco, como que avisando do estrago iminente, todos em uníssono clamando por energia elétrica através do intermitente apito do nobreak.
Teriam sido apenas minutos? O tempo passa rápido quando estamos munidos do sedentário conforto da tecnologia.
A conta de energia foi paga, não houve qualquer som atípico antes da queda, o corte deve ser momentâneo.
Silêncio, apenas entrecortado pelo apito, agora acelerado, do nobreak.
O calor no escritório fica insuportável sem o ar condicionado, abro a porta e, lentamente, olho atentamente para o cômodo. Pequeno, mobiliado com as sobras da mudança, com instrumentos musicais e caixas de mostruários empilhados criteriosamente. Com um sorriso maroto atesto que consigo ser metódica até na hora de juntar bagunça.
Apoio os cotovelos no granito quente da janela e olho para o céu, esperando o azul e... Cinza. Um cinza de silêncio abafado, modorrento, com tons de maus presságios. Uma completa escala de cinza no céu, indo do impecável branco das nuvens ao negro do horizonte.
Calor. Olho em volta e a terra está seca no jardim, as folhas das árvores não se movem, sequer as moscas se atrevem a enfrentar as correntes de ar. O pequeno limoeiro, plantado à frente da janela, aquela pequena esperança de futura sombra, também não se mexe. Um verde acinzentado atípico, não sei se reflexo do céu ou por falta de água.
O calor é quase sólido, penetrante, como que anestesiando as terminações nervosas. Sinto-me inapta a qualquer movimento que não os respiratórios, um leve menear de cabeça e olhos que rastreiam o quintal.
Silêncio e calor.
O limoeiro foi meu presente para a Terra em comemoração ao nascimento do meu primeiro filho. Percebo agora que, nestes quase 2 anos de vida, a árvore cresceu pouco mas se desenvolveu bem, seus galhos ganharam amplitude e muitos novos brotos. Mas com esse calor é quase impossível um desenvolvimento adequado, pobre limoeiro, sequer as formigas estão por perto para fazer companhia.
Silêncio contagiante, começo a perder a noção do tempo após alguns momentos de vazio. Pensamento em silêncio, espírito quieto, como que a inebriar-se de um prazer que julgava inatingível: o silêncio.
Há quanto tempo não fico em silêncio total? Assim sem interrupção, assim sem perspectiva, sem a vida me chamando à ação, sem me importar? Assim como o limoeiro, imóvel, sem companhia, apenas existindo apesar do calor? Eu cresci nestes quase 2 anos? Tenho a impressão que só o calor cresceu. E agora o silêncio parece gerar atrito com o calor, faíscas surgem no cinza médio que precede o negro do horizonte, mas nada se mexe. Nem eu nem o limoeiro.
Encosto a cabeça no vidro da janela, respiro fundo e sinto que o ar quente vai explodir meus pulmões enquanto o silêncio estoura meus tímpanos.
Relâmpago.
Um milésimo de segundo antes, uma pequena folha do limoeiro se mexeu. Ou teria sido depois, pelo susto? Será que eu me mexi?
Mais alguns instantes de silêncio e calor, outra folha se mexe, um raio corta o céu desde o negro do horizonte até o cinza claro que faz divisa com a branca nuvem, que parece fugir em direção ao outro horizonte. Algo como o calor e o silêncio que fogem da chuva.
Chuva.
Primeiro uma grande gota d’água ao lado do muro, duas outras um pouco menores ao lado do limoeiro, outra em mim. O calor parece querer entrar janela adentro, mas nada se mexe, como se fossem gotas de chuva em um quadro na calçada.
Então veio o trovão, perseguindo o raio que saiu em busca da nuvem. Com ele, fortes lufadas de vento quente e molhado, como que atirado às escuras, vinha de todos os lados. Não me importo com a chuva molhando o chão do quarto, ou a roupa no varal, elas que aproveitem a chuva de verão.
O limoeiro, após um momento de frisson entre as folhas, parece que se estica em busca de mais água, mais vento, como que crescendo à minha frente. Os tons de cinza são levados pela chuva que agora parece uma cascata, o verde contrastando com o cinza do céu como num desenho de criança.
Ouço gritos e risadas de crianças na rua. Meu cachorro aparece correndo e tenta abocanhar as gotas d’água, pulando em círculos. O limoeiro dança ao sabor do vento.
Banho de chuva.
Por que não?

7 de nov. de 2011

Meu querido diário

Sempre procurei fazer tudo certo, talvez por saber que nunca me enquadraria nos padrões “boa moça” da sociedade. Por mais que eu me esforce em parecer autêntica, criativa, despojada e blablabla, acabo fazendo escolhas pautada pela satisfação dos meus pais. Que filho não quer merecer o orgulho de quem o pôs no mundo? Tá, eu sei, tem gente que não sofre com isso. Eu sofro.

Quase todas as escolhas da minha vida foram erradas pra mim mas de enorme valor para os que me rodeiam – e pelo visto me odeiam também. Resumindo: sou a gostosa que não goza por si só, traduza isso como quiser.

Aliás, nunca fez diferença pro meu ego ser gostosa ou não, ter barriga ou não, estrias ou celulites. Claro, eu preferia que minha bunda fosse mais bacana, tipo a da Mary Alexandre nos áureos tempos pré-FábioJreigrejaevangélica, mas também não me incomoda ter que ajustar a cintura das calças.

Passei por momentos de baixa autoestima, daqueles que a gente foge do espelho ou, pior, encara o espelho e soltta aquele suspiro da redenção. “Eu me rendo, isso é o melhor que posso ser pra mim”. Redenção e autosabotagem, mas quem se importa? É, nem eu.

Eis que tive a chance, a grande oportunidade de me sentir desejada, sexualmente conquistada, a gostosa que vai pra festa pra ser olhada mas já com um “alvo” previsto, desejado há tempos, só que antes era apenas platônico. Aquela noite não, nada de amores inatingíveis, só a vontade e o êxtase. Fui preparada, deixei tudo certo em casa pra que ninguém sentisse minha falta, fiz depilação, aquela hidratação profunda que deixa até a alma cheirosa, calcinha macia e sexy sob um vestido que delineava as formas do corpo.

Nada disso fez qualquer diferença.

Saí da festa sozinha, triste e conformada, plenamente consciente de que minha vida paralela é infitinamente melhor que a real. Lembro bem de ter entrado no taxi embalada pelo som de um suspiro, profundo e quase definitivo. Fechei os olhos e imaginei um final diferente, excitante e exasperado...

Saí da reunião quase feliz, satisfeita pela conquista profissional e por ter reencontrado amigos de infância, mas um tanto contrariada por não ter conseguido sequer um beijo roubado daquele cara que há tempos frequenta meus sonhos. Caminhei pelo estacionamento em direção ao meu carro, lentamente, como que esperando por alguma última chance. Buzinas leves. Reduzi ainda mais o passo e usei o instinto para descobrir de onde vinham e, sem pensar em mais nada, fui. Entrei no carro e nos beijamos, mãos tateavam cada parte do corpo que tanto desejaram, respiração cada fez mais sôfrega. Tempo que não medi, prazer que jamais senti, coisas que nunca fiz, constrangimento inexistente. Cheguei em casa horas depois, feliz e finalmente conformada com o seguimento da vida, já tivera meu quinhão de deleite.”

Abri os olhos e o taxi virou a última esquina para chegar na minha casa. As lágrimas não vieram, a lua não apareceu, o sono idem. Só o suspiro da redenção me fez companhia na noite em que não fui desejada na única vez em que isso foi importante.

4 de jul. de 2011

O sonho de Vanessa

Vanessa tinha um único sonho: ser mãe. Já tinha escolhido o nome do filho por estar certa de que seria homem - João, - em homenagem ao avô que foi tão importante em sua infância e já havia ido embora.

Em suas noites mais tranquilas, Vanessa sonhava com o rostinho do seu filho, sentia o cheirinho de bebê. Acordada, imaginava que logo iria jogar futebol com ele e ensiná-lo desde cedo a ser um gremista de coração, respeitando as cores azul, preto e branco.

Ensinaria João a ter gosto por livros, mas o deixaria livre para gostar da história que fosse. Ensinaria também a ter gosto pela música, talvez João teria habilidade para tocar algum instrumento, mas esperaria a iniciativa vir do filho. Seu tão amado filho.

Vanessa já havia escolhido o tema para a festa de um aninho, já havia comprado um sapatinho e uma roupinha para quando João saísse do hospital pela primeira vez fora do ventre que por nove curiosos meses foi carregado. E sabia a cor da toalha do primeiro banho que ela mesmo bordaria o nome dele. A toalha amarela e a busca incessante pela toalha macia e certa.

O pequeno João, sem dúvida alguma, é um bebê de sorte, esperado, amado, mas acima de qualquer coisa, sonhado. Vanessa, sem mesmo tê-lo concebido, sabia que seu filho seria feliz quando chegasse.

Mas a vida foi impaciente demais. Sábia vida deixou Vanessa sem conhecer um verdadeiro amor, aquele que seria o pai do sortudo João. Injusta vida levou Vanessa muito cedo dos braços deste mundo. Hoje não se sabe se o que acabou foi o sonho ou a vida, a única certeza é de que Vanessa e João já não existem mais.

18 de mai. de 2011

O fim da chuva

Quando essa chuva passar, eu espero que também passe a dor que sinto em ficar ouvindo cada pingo que cai sobre o telhado da minha casa.

Eu sinto como se a solidão me apertasse os ossos.

E a vontade de fugir é mínima, pois, não tenho mais forças. Simplemente desisti dessa luta, nem que agora a única coisa que me resta é esperar.

Esperar o tempo. Aprender a esperar. Aprender.

Saber que tudo que fiz até aqui foi em vão.

Ficam minhas lágrimas, a chuva e a solidão. Fica o meu cansaço, a amargura, e a esperança pelo sol.

Que haja sol!

26 de jan. de 2011

Anjos caídos

O negócio é o seguinte: o céu é um saco. Pode crer, um pé no saco,calçando coturno com bico de ferro. Pra doer mesmo, de tão chato. O esquema aqui é repetitivo como uma ladainha, tipo tua vó rezando o terço, tá ligado? Aliás, o véio Pedro enche o saco explicando que a porra do terço é pra ser rezada 4 vezes. Então é quarto, cacete! Velho não consegue aceitar as mudanças, inferno...Bosta, esqueci que não se pode dizer “inferno” aqui. Ai, caralho! Toda vez que a gente fala isso aí toma um raio na bunda. Meu asterisco tá sem pêlo de tanto choque que já tomei. Nesse último milênio a coisa tá menos chata, chegou um parceiro que também acha isso aqui um tédio, a gente até consegue traficar umas deliciazinhas pra se divertir. Escondido, claro. Um cigarrinho do capeta (bosta, lá vem o raio), umas cervejas, umas anjinhas... Só pra conversar, porque a primeira coisa que fazem quando a gente é “promovido” a anjo é arrancar nossas bolas ou costurar as perseguidas das gurias. Saca, cachorro castrado não incomoda. Até rola uns beijinhos, mas não tem nem “aquilo na mão” nem “mão naquilo”. Não temos aquilos. Merda.
Todo dia chega gente nova, todos chatos e vestindo camisolões de cor pastel. Vai ser engraçado quando a Constanza Pascolato vier pra cá,ela só usa preto aí na terra. Se bem que eu acho que ela nem vem pra cá, porque ela é gente boa e aqui só tem mala. Mala pesada, saco de leite furado, saca? Gente que dá chulé em pé de mesa, azia em sal de fruta, chato que nem chinelo de gordo. Se é um pouco, um nadinha gente boa, reencarna rápido. Dizem os superiores que essas pessoas precisam voltar pra Terra pra aprender. Aprender a ser chato, só se for!As reuniões dos Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos foram transferidas pro Purgatório. Era uma das poucas coisas divertidas quero lavam aqui. Fora, claro, o “Bonde das Bichas” gritando “não épecado, não é pecado”, mas a piada já perdeu a graça.
O meu protegido é um mala também. Bom, ele era legal, era povão e cachaceiro, andava tão bêbado que até perdeu um dedo fingindo que trabalhava. Agora só anda de terno, tá sempre num avião, continua cachaceiro mas só fala que não sabe de nada. Essa piada também perdeu a graça, mas eu tenho que ouvir todo dia.O protegido do meu parceiro é mais bacana. Ele é ator, pega umas atrizes gostosas e circula num meio podre, todos se achando celebridades. É uma êra êra, quem não fuma cheira. Ele, inclusive. Se diz em tratamento, mas sempre volta pro mesmo lugar, pra mesma boca. O legal é que a gente aproveita a onda dele pra contrabandear uns tecos pra cá. E vai melhorar assim que o nosso superior supremo ajudar o cara a voltar pra uma novela. Tô no aguardo! Enquanto isso, vou ali cuidar do avião do meu protegido. Cara chato,não aquieta essa bunda no Brasil, ainda fica inventando moda com o Irã. Ó, eu não sei falar o nome do Arrmúd, não consigo trabalhar direito, inferno.

Merda, que dor na bunda!


24 de jun. de 2010

O feijão, ou o Conto Autobiográfico

“Debulhando andu, olha só onde vim parar” pensava ela, chateada.Acabara de fazer o filho dormir, escutava seu ressonar pela babá eletrônica. O outro som era a música que vinha do notebook do seu marido, que trabalhava em uma mesa à sua frente. E ela debulhava andu de cabeça baixa, no escuro. Chateada, incomodada com seu presente, sem perspectivas para um futuro próximo, sentindo-se sozinha e pouco estimulada.
Andu, um tipo diferente de feijão. Feijão dá gases em seu bebê, ela nem vai poder comer a tal famosa farofa de andu. Ela plantou, ela cuidou, ela colheu, ela debulhou, ela vai cozinhar, ela vai temperar. E ela não vai comer.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela começou a reparar que o marido escutava uma pasta de músicas que ela criou. Mais, percebeu que ele cantarolava. Começou a cantarolar com ele.Passaram a conversar sobre as músicas, sobre as sensações que lhes traziam. Lembraram de situações que tiveram essa ou aquela música como trilha sonora. Falaram do crescimento do seu filho, falaram de como sua casa está bonita, ainda que inacabada. Riram do mau cheiro do cachorro, preocuparam-se com as contas bancárias.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela foi percebendo que seu presente estava bem melhor do que previra há alguns meses. Previra que não conseguiria emagrecer após o parto, que não conseguiria cuidar bem do filho, sequer sonhara em dar banho ou trocar fraldas. Imaginara que passaria por tudo isso sozinha, sem auxílio, sem diversão ou momentos para desopilar.
Debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, sentia o vento de inverno que finalmente trazia frescor para uma cidade tão quente. Sem levantar os olhos, sentiu-se bem por estar em sua casa, com seu filho lindo e saudável dormindo calmamente, com seu marido que cantava á sua frente.
Ali, debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, ela viu-se feliz. Sem enxergar um palmo à sua frente, no escuro, sem perspectiva de uma melhora em sua condição visual, sem se preocupar com isso.Ali, debulhando andu de cabeça baixa, no escuro, começando a sentir frio nos pés, sorriu e disse, sem erguer os olhos:
- Acabei de viver um momento feliz.

19 de mai. de 2010

O ÚLTIMO SUSPIRO

“Nada mais depressivo que o inverno”, pensava ela enquanto olhava pela janela, o lago que há alguns meses estava envolto de gente cantando, gritando e rindo. Não era um inverno qualquer, foi o primeiro inverno em que ela sentiu a solidão bater diretamente em seus ossos, sentia-se fraca, a dor atravessava o peito. Dor não feita pela doença, mas a dor marcada pela ausência de sua própria vida, sentia que era tarde demais para tentar qualquer recomeço.

A única companhia que tinha era seus pensamentos. Só guardava memórias de sua infância e adolescência na casa da tia Thereza, uma senhora rica, bonita, viúva e tímida. “Thereza é realmente nome de tia, nunca consegui imaginar uma criança com esse nome”. Pensamento que a fazia acreditar que sua tia realmente não tivera infância, pois, nunca soube absolutamente nada do passado da tia Thereza em tantos anos de convivência.

“Será que foi minha tia que deu meu nome? Miguelina não parece ser coisa de gente de bom coração. É nome de santo católico frustrado. Meus pais não deveriam me odiar tanto quando eu nasci.”

Mas estava cansada demais para lembrar-se de qualquer coisa. Deitou-se na cama e pela janela olhava as árvores tão vazias de vida quanto ela. Ainda enxergava os pássaros e também os ouvia cantar alegremente como se a vida deles dependessem daquele tão maravilhoso canto que ela nunca tinha percebido o quão bonito era. Mesmo sabendo que a primavera voltaria colorir a paisagem, sabia que não chegaria a vê-la.

“Eu já enfrentei a perda, a solidão, a rejeição, o desamor, várias vezes, mas é a primeira vez que fico cara-a-cara com a minha própria morte. Engraçado eu não estar assustada, pensei que teria outra reação quando estivesse nessa situação. Nunca imaginei que desfalecer seria um alívio. Minha mente diabólica ainda consegue pensar que tem gente que não merece morrer, deve ficar perpetuamente uivando por aí.”

E o pensamento, ou o péssimo pensamento foi se esvaindo, ao poucos também o ar já não enchia os pulmões. Imaginou-se além de um infinito qualquer, sentiu leveza, sorriu e assim sua vida se desfez.

17 de mai. de 2010

Na linha do tempo

“Minha filha pensa que me passa pra trás. Só naquela cabeça oca mesmo pra pensar uma coisa dessas. Tudo bem que com a idade dela eu já era mãe, dela, óbvio, mas eram outros tempos. Antigamente ter filhos com 15 anos era normal. Tá, nem tão antigamente assim, não sou tão velha, mas era normal.”

“O espelho mostra que estou em forma. Credo! Que corpo que tô, praticamente igual ao da minha filha, não falo nada pra ela não se sentir ofendida, mas que estou com tudo em cima, isso tô.”

“Nem pensar que ela vai arrumar um namorado, minha garotinha é uma criança, não deve nem saber beijar na boca direito. Eu, com a idade dela era muito mais madura, visivelmente, estava no segundo namorado, nunca deixei eles me fazerem de boba.”

“O pai dela foi o grande amor da minha vida, eu sabia disso já naquela época. Um homem muito culto e honesto, nunca precisou de escola e, quando soube da minha gravidez comprou uma moto e foi viajar a procura de um emprego que desse melhores condições a nossa filha. Humilde que só ele, levou apenas uma mochila nas costas. Lamento tanto o destino que teve. Ser seduzido por uma mulher da vida e ser obrigado a casar com ela não deve fazê-lo feliz. Como casar sem amor? Nem imagino como o coitado se sente.”

“É fogo, viu? Não é fácil trabalhar 20 horas por semana, cuidar da minha filha, da casa, ir fazer compras, atender as amigas e tudo estando de ressaca... mas vale à pena. Essas festas em plena quarta-feira é o que há de bom. Só vai gente de nível, trabalhadores mesmo, de terno e gravata. Celular de última geração e ficam falando difícil pra tentar impressionar, certo que é.

“Tolinhos!”

“Eu sei muito bem que eles estão querendo me namorar e disfarçam. Tentam disfarçar, melhor dizendo, mas eu vejo os olhares e faço até leitura labial. Sei que eles falam das minhas coxas à mostra pela minha ‘micro-minissaia’ laranjada. Adoro ela. Combina com minha blusinha azul que salienta as curvas do meu corpo.”

“Me respeito! Não vou namorar quem só me acha bonita, eu tenho minha inteligência e ninguém parece notar porque a visão do meu corpo toma conta, preferem que eu fique calada. Injusto! Essa sociedade só dá valor à imagem”.

“Ainda bem que a mamãe resolveu ficar com minha filha por uns tempos. Ela me cuidou muito bem, vai saber lidar com a minha filha que agora eu mesma me cuido, e muito bem, por sinal”.

7 de mai. de 2010

Ao Sr. Mero Desconhecido

Olá Sr. Mero Desconhecido.
Muito provavelmente estás me julgando sem saber quem eu na verdade sou. Contigo eu sou quem eu nunca fui. Sou estrela de cinema e Hollywood não me deve explicações. Eu beijo o mocinho e o bandido sem qualquer pudor. E eu te conto promiscuidades, deito e rolo e você ainda se excita.
Tonto!
Não sabe e nem irá saber que guardo segredos que jamais compartilhei com alguém, e muito menos deve saber que eu escrevo sobre a tua vida.
Ah sim, eu escrevo, e ainda descrevo cada passo teu. Ridículo de minha parte, mas me diverte e me faz tremer em extase ver tua vida cuspida e escancarada.
Eu jamais fiz quaisquer das histórias que te contei. É, são estórias. Estórias não acontecem, tolinho. Tudo o que te digo não passam de devaneios da minha mente cheia de vontades.
Você ainda não sabe que me consideram uma pessoa criativa? Tão criativa que invento mentiras, e todas elas te impressionam. Eu ganho toda a tua vontade de ter a mim inteirinha, tenho a louca vontade dos teus olhos me olhando com um prazer insaciável, e eu quase me entrego, ops... volta por cima!
HAHAHA.
Eu só posso rir da tua bobeira. Minhas idéias diabólicas não passam de idéias de alguém que precisa enganar pra sobreviver. Idéias diabólicas nessa carinha de anjo que eu sei que você não consegue resistir, nem aos meus olhares e insinuações. Idiota!
Tenha todo seu desejo sobre meu corpo, tenha o teu sexo vontade de mim, mas não se engane, não te darei qualquer prazer que espera. Você não me conhece. Ah, Mero Desconhecido, você não faz idéia quem eu sou.
Nem em sonho imagina que o que quero é apenas a sensação dos teus desejos incontroláveis por mim. Só quero a sensação dos teus pensamentos já me comendo de vontade.
Desejos... desejos passam um dia.
O que eu tenho aqui, chama-se sentimento, e esse, Mero Desconhecido, esse tu nunca vai conhecer.

O homem da minha vida

Conheci o homem da minha vida: analista de sistemas, 30 anos, mora sozinho, descompromissado, sem filhos, antecedentes de relacionamentos sérios e duradouros, boas influências profissionais, rico e bonito. Todas informações tirei dos nossos amigos em comum, exceto o ‘bonito’ que ficou por minha conta.

Reunião de negócios é um saco, fato! Quando aquele cara chegou eu simplesmente perdi o fôlego e automaticamente me diminuí dentro daquela sala. Aquele sorriso branco, perfeito, veio exatamente em minha direção me extasiando e derrubar o café na minha roupa foi quase inevitável.

Entre esse momento e o final da reunião eu me lembro de pouca coisa a não ser a corrida até minha casa pra trocar de roupa. Adoro morar no mesmo prédio do meu trabalho.

Voltando a ele. Ó Deus! Não esperava o convite para sair naquela noite, apesar de que eu quis desde o primeiro instante e não consegui esconder a ansiedade quando aceitei. Foi o ‘quero’ mais gritado da minha vida.

Ele é melhor do que eu imaginava. Tem um carisma de dar inveja. A classe média parecia estar estampada na minha testa a cada segundo do jantar e ele parecia se divertir com isso. Óbvio que ele percebeu que não tenho talento pra comportamento excepcional em restaurantes chiques e carérrimos, mas a simpatia dele me fez sentir à vontade naquele lugar cheio de gente que brilha. Ah sim, brilham mesmo, tanto na roupa quanto nas jóias e pasmem, até nos sapatos.

Não é o fato de eu estar mal vestida os outros é que realmente exageram. Homem sem terno ali só os garçons. Aliás, o homem da minha vida de terno é tudo de bom. Pensamentos depravados me fizeram imaginar ele sem o terno, mas isso só fez com que eu bebesse mais vinho do que meu organismo é acostumado. Nunca tinha reparado o quanto vinho deixa as pessoas sensuais. Azar, eu me senti uma diva.

A noite foi bem interessante mesmo, ri muito e nem sei bem dizer o porque, mas eu ri. Tudo foi tão perfeito, ele um gentleman a ponto de puxar a cadeira pra eu sentar, fato este que quase me fez cair no chão mas sempre acredito nas boas intenções das pessoas. Quando ele abriu a porta do carro tanto pra eu entrar quanto pra sair chegou a me arrepiar, até porque eu não tinha outra alternativa, esses carros modernos conseguem trancar a gente dentro deles. Coisa de louco!

Enfim, tantos detalhes e agora estou eu aqui, babando por esse homem que me fez ganhar o dia que pra mim já havia nascido morto e eu sou tonta o suficiente pra ter esquecido de perguntar o nome dele. Como será que ele se chama?